Eles o cercaram. Tinham os olhos imensos e escuros. As mãos como garras seguravam o que ele imaginou serem lápis e canetas gigantes. Eram dezenas, suas bocas escancaradas salivavam de fome enquanto se aproximavam dele. Ele estava indefeso e de repente viu-se completamente nu. Estava de costas para o quadro negro, cobrindo suas vergonhas com a mão direita e com a outra arranhava o quadro desesperadamente na esperança de que pudesse se fundir à ele...Acordou exasperado e totalmente molhado de suor. O lençol e o travesseiro estavam no chão e ele sentia uma grande dor no pescoço e nas costas. Sentou-se no meio da cama de casal e olhou para relógio despertador sobre a cabeceira. Faltavam apenas cinco minutos para a hora que havia marcado para despertar. Ainda estava escuro. "Maldito horário de verão". Deitou-se exausto. Esperou os cinco minutos e então levantou-se desanimado e foi tomar um banho.
Não conseguia comer, então tomou apenas um copo de água e foi arrumar as coisas na mochila.
Quando saiu de casa, estava frio, mas apesar disso ele suava por baixo do casaco aberto.
Caminhou para a parada apressadamente, mas ainda longe da esquina viu o ônibus passar acabando com suas chances de chegar no horário. Diminuindo o passo, tirou o MP4 de dentro da mochila e colocou os fones, aumentado o volume ao máximo.
Suas mãos tremiam quando entrou! A camiseta molhada de suor incomodava, então fechou o zíper do casaco até o peito, apesar do calor, para disfarçar.
Estava lotada, e mesmo de cabeça baixa, podia ver, por de trás dos óculos de grau, uma infinidade de adolescentes que naquele momento para ele ainda pareciam monstros prestes a devorá-lo! Tudo aparentava ser maior e mais amedrontador do que na época em que estava do outro lado.
Dirigiu-se vacilante para a mesa retangular no centro da sala de aula e tirando a mochila das costas, colocou-a sobre a cadeira.
Observou um grupo de rapazes olhando-o com curiosidade e depois um grupo de meninas no canto da sala trocando bilhetinhos e rindo enquanto o mediam de cima à baixo.
Por alguns instantes permaneceu silencioso, aguardando que todos se sentassem. Foi até o quadro, apagou alguns desenhos ofensivos do canto esquerdo e partindo um giz ao meio, escreveu uma frase entre aspas, e virando-se para a turma disse erguendo os olhos com um meio sorriso nos lábios:
- Bom dia!
Realmente não esperava resposta. Aguardou que alguns que ainda estavam de pé sentassem. As conversas continuam animadas no 'fundão'.
Batendo a mão aberta no quadro negro, levantou algum pó, silenciou os alunos que ainda conversavam e conseguiu uma dúzia de olhares arregalados.
- Meu nome é Austolfo, seu novo professor de matemática.
Ao pronunciar seu nome, não pode deixar de engolir em seco, irritado com as risadas abafadas e algumas não tão discretas.
Virando-se novamente para o quadro, suspirou e disse baixinho para si mesmo:
- E esse é apenas o primeiro dia! - E terminou de apagar o quadro.
2 comentários:
Promete ein...sofressor(a)eu,nós-rs.
Huuum!
Gostei muito desse começo!
Tem tudo pra ser a melhor!! =]
Abraço!!
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