
Elisa estava no jardim. Sentada em um banco com um livro no colo, ela sentia o vento frio que açoitava seus cabelos negros. Observava, de esguelha, as borboletas que rondavam as flores próximas e tentava, em vão, se concentrar na leitura. A espera pelo crepúsculo a deixava irrequieta. Resolveu caminhar até o penhasco para ver as ondas. Elas vinham com mais ferocidade nos finais de tarde. Assim, ela foi esperar pelo pôr-do-sol lá. Sabia que ele a encontraria.
O caminho estava mais frio que o normal. O sol, apesar de ainda no alto, fazia pouca diferença, e as ramagens que beiravam o caminho pela colina, ressecadas pelo frio, dançavam ao ritmo do vento.
A paisagem, sempre verde e salpicada de flores, agora estava amarelada, envelhecida como os retratos de família que estavam guardados no sótão. Ela tinha que caminhar contendo a saia rodada que queria liberdade para dançar junto com o vento. Começou a rir-se da situação e, certificando-se de que o caminho estava vazio, tirou as sandálias, e, carregando-as na mão, pôs-se a correr, dançando e rindo.
Ao chegar ao penhasco, jogou-se teatralmente de costas sobre a relva e procurou recuperar o fôlego. Quando sua respiração começou a normalizar, Elisa sentou-se o mais próximo que pode da beira do barranco e levantou o rosto, com os olhos fechados, para receber os derradeiros raios do sol, que eram engolidos rapidamente pelo mar agitado.
Quando abriu os olhos, o dia se fora e a noite estava iluminada por uma lua, que depois do deitar do sol, reinava absoluta em um céu estrelado. Abriu um largo sorriso, pois sabia que ele chegaria em breve.
Brincava no ar com as mãos, como quem conta estrelas, e tentava com isso distrair a ansiedade que quase a enlouquecia. De repente, seu corpo se retesou ao ouvir o som de leves passos se aproximando. Conhecia bem aquele som e podia sentir o coração disparado.
Com tranquilidade ele se aproximou, e sentando-se ao seu lado, a cobriu com seu casaco. Em sua ansiedade, ela nem reparara que estava tremendo com o frio. Aninhando sua cabeça no ombro de André, sentia como se o mundo inteiro calasse. Tudo que escutava era o bater agora compassado do seu coração e a respiração contínua dele. Ele viera buscá-la, ele cumprira sua promessa.
Naquele momento ela tinha certeza que podia enfrentar qualquer coisa. Ao lado dele, todo o resto parecia pequeno, sem importância. Amanhã, nada mais poderia separá-los. Estariam juntos e fugiriam para bem longe dali. Amanhã seria o primeiro, dos mais felizes dias de sua existência.
De pé, ela deixou-se envolver pela presença de André, e seguiu, um passo de cada vez, em direção à eternidade. De braços abertos, ela recebeu a noite como uma amiga e entregou-se ao mar.
[...]
Naquela mesma noite, a mãe de Elisa encontrou, no jardim, o livro que a filha mais gostava, jogado perto das roseiras. Junto dele, o telegrama que informava que André havia falecido num acidente de carro na tarde anterior. Comentava-se entre os empregados que o rapaz havia prometido buscá-la naquela noite e que fugiriam juntos, pois os pais dela não aprovavam o relacionamento deles. Jamais tiveram qualquer sinal de Elisa novamente.
De longe, quem olhasse, poderia pensar tratar-se de um fantasma. Aquela moça, de pé, sozinha na beira do penhasco, em uma noite tão fria. Mas ninguém a viu. Ninguém viu quando ela abriu os braços e se lançou contra as pedras. Ninguém viu as ondas que levaram seu corpo para o mar aberto. Ninguém viu o último sorriso em seus lábios. Tudo que se viu, foi o luar banhando do céu o penhasco das promessas.
[crédito da imagem usada no post para blog de Kizzy Ysatis:



