15 junho 2009

[O penhasco das promessas]

Elisa estava no jardim. Sentada em um banco com um livro no colo, ela sentia o vento frio que açoitava seus cabelos negros. Observava, de esguelha, as borboletas que rondavam as flores próximas e tentava, em vão, se concentrar na leitura. A espera pelo crepúsculo a deixava irrequieta. Resolveu caminhar até o penhasco para ver as ondas. Elas vinham com mais ferocidade nos finais de tarde. Assim, ela foi esperar pelo pôr-do-sol lá. Sabia que ele a encontraria.
O caminho estava mais frio que o normal. O sol, apesar de ainda no alto, fazia pouca diferença, e as ramagens que beiravam o caminho pela colina, ressecadas pelo frio, dançavam ao ritmo do vento.
A paisagem, sempre verde e salpicada de flores, agora estava amarelada, envelhecida como os retratos de família que estavam guardados no sótão. Ela tinha que caminhar contendo a saia rodada que queria liberdade para dançar junto com o vento. Começou a rir-se da situação e, certificando-se de que o caminho estava vazio, tirou as sandálias, e, carregando-as na mão, pôs-se a correr, dançando e rindo.
Ao chegar ao penhasco, jogou-se teatralmente de costas sobre a relva e procurou recuperar o fôlego. Quando sua respiração começou a normalizar, Elisa sentou-se o mais próximo que pode da beira do barranco e levantou o rosto, com os olhos fechados, para receber os derradeiros raios do sol, que eram engolidos rapidamente pelo mar agitado.
Quando abriu os olhos, o dia se fora e a noite estava iluminada por uma lua, que depois do deitar do sol, reinava absoluta em um céu estrelado. Abriu um largo sorriso, pois sabia que ele chegaria em breve.
Brincava no ar com as mãos, como quem conta estrelas, e tentava com isso distrair a ansiedade que quase a enlouquecia. De repente, seu corpo se retesou ao ouvir o som de leves passos se aproximando. Conhecia bem aquele som e podia sentir o coração disparado.
Com tranquilidade ele se aproximou, e sentando-se ao seu lado, a cobriu com seu casaco. Em sua ansiedade, ela nem reparara que estava tremendo com o frio. Aninhando sua cabeça no ombro de André, sentia como se o mundo inteiro calasse. Tudo que escutava era o bater agora compassado do seu coração e a respiração contínua dele. Ele viera buscá-la, ele cumprira sua promessa.
Naquele momento ela tinha certeza que podia enfrentar qualquer coisa. Ao lado dele, todo o resto parecia pequeno, sem importância. Amanhã, nada mais poderia separá-los. Estariam juntos e fugiriam para bem longe dali. Amanhã seria o primeiro, dos mais felizes dias de sua existência.
De pé, ela deixou-se envolver pela presença de André, e seguiu, um passo de cada vez, em direção à eternidade. De braços abertos, ela recebeu a noite como uma amiga e entregou-se ao mar.

[...]

Naquela mesma noite, a mãe de Elisa encontrou, no jardim, o livro que a filha mais gostava, jogado perto das roseiras. Junto dele, o telegrama que informava que André havia falecido num acidente de carro na tarde anterior. Comentava-se entre os empregados que o rapaz havia prometido buscá-la naquela noite e que fugiriam juntos, pois os pais dela não aprovavam o relacionamento deles. Jamais tiveram qualquer sinal de Elisa novamente.

De longe, quem olhasse, poderia pensar tratar-se de um fantasma. Aquela moça, de pé, sozinha na beira do penhasco, em uma noite tão fria. Mas ninguém a viu. Ninguém viu quando ela abriu os braços e se lançou contra as pedras. Ninguém viu as ondas que levaram seu corpo para o mar aberto. Ninguém viu o último sorriso em seus lábios. Tudo que se viu, foi o luar banhando do céu o penhasco das promessas.

[crédito da imagem usada no post para blog de Kizzy Ysatis:

10 junho 2009

[Quem sobrevive?]

Era uma vez três galinhas. Elas moravam em uma granja e cada uma tinha seu próprio poleiro. Certa tarde elas começaram a conversar:
- Eu sou a galinha preferida do dono da granja. Não veem como ele fica contente em ver como eu sou a que mais produzo ovos? – Dizia a galinha do primeiro poleiro, toda cheia de si.
- Pois eu não a invejo. Além de produzir quase tantos ovos quanto você, ainda sou a galinha favorita do galo Garlinzé. Ele vive a me fazer galanteios. – Gabava-se a galinha do segundo poleiro, enquanto suspirava pelo galo que ciscava um pouco distante.
- E quem quer saber de um galo velho metido a moço? – Desfazia a primeira galinha.
- Você está é despeitada, porque ele não te dá atenção – rebatia a segunda.
- Bobagens. E você, o que diz? – Perguntou a primeira para a terceira galinha, que continuava calada, apenas observando. Ela apenas deu de ombros e foi cochilar.
- Está galinha, coitada... Produz poucos ovos, é feia e meio depenada, vive rejeitada pelo galo Garlinzé. Nem tem o que dizer! Vive apenas da atenção da filha do dono da granja, que também é louca, tadinha. Fala com essa galinha velha como se fossem amigas – Declarou a segunda, abafando os risos.
- Pare com isso – Disse a primeira galinha para a segunda. E virando-se para terceira, que parecia nem ouvir mais, disse: - Você deveria se cuidar melhor, atrair a atenção do galo para si também. Todos sabem o que acontece com galinhas que não produzem... – E com essa frase, a primeira galinha calou os risos da segunda e encerrou o assunto com um suspiro fúnebre. A terceira galinha levantou a cabeça, olhou para elas tristemente e voltou a cochilar.

O que as duas galinhas não sabiam era que o dono da granja estava falido, e não tinha mais como sustentar a granja. Assim, as duas galinhas e o galo velho foram vendidos na feira. E mais que rapidamente foram parar na panela. A terceira galinha estava despreocupada, pois já sabia de tudo pela filha do granjeiro. E por ser feia, depenada e quase nada produzir, sabia que não conseguiria ser vendida. Como a filha do granjeiro tinha muito carinho por ela, ela continuaria viva, como animal de estimação da família. No final das contas, ela morreu de velhice e jamais foi parar na panela.

Moral da história: Nem sempre os mais atraentes ou os mais produtivos sobrevivem. Muito mais vantajoso é, em alguns casos, o conhecimento que você trava com pessoas influentes, do que a força que você emprega para mostrar competência.

09 junho 2009

[Indicação]


Fuçando o LastFM ontem na minha vizinhança encontrei uma moça... E consequentemente o seu bLog (que indico pra vocês!)... Mas não é necessariamente ele que eu quero indicar hoje nesse post, pelo menos não só ele... Mas algo que encontrei indicado nele: o Skoob, que é uma das coisas mais legais que encontrei na internet nos últimos tempos, pelo menos para mim (e olha que está muito raro encontrar coisas legais na net...).

Trata-se de, como diz a Laís, um "orkut de livros" (apesar da minha aversão adquirida ao orkut e suas derivações) que já me viciou! Achei uma iniciativa muito bacana mesmo. Lá você cria uma Estante Virtual com todos os livros que você já leu, pode cadastrar novos livros, fazer resenhas dos livros, avaliá-los e encontrar pessoas com um perfil de leitura semelhante ao seu! Manda recados, troca idéias sobre seus livros favoritos e aqueles que você não gostou... Enfim, é minha cara esse negócio... xD

Se gostarem da idéia, cadastrem-se e me adicionem!!!

Em breve (depois das provas... aff), novo 'conto' pra vocês... xD
Abraços e ótima continuação de semana!

03 junho 2009

[ser gente]

No meu curso de Didática II estamos estudando um livro que me surpreendeu: "A Pedagogia da Autonomia" de Paulo Freire. Um texto que me trouxe uma experiência enriquecedora não apenas como futuro professor mas também como homem, como gente. Fiquei realmente encanto com a intensidade desse homem que vivenciou coisas realmente incríveis na sua vida, com uma bagagem invejável, mas que cultivou sempre a simplicidade e esperança de ver um mundo melhor através da educação! Um leitura gostosa que recomendo para todos! Escolhi um trecho que me marcou grandemente para compartilhar com vocês! Espero que gostem.

Abraços enormes!

"Gosto de ser homem, de ser gente, porque não está dado como certo, inequívoco, irrevogável que sou ou serei decente, que testemunharei sempre gestos puros, que sou e que serei justo, que respeitarei os outros, que não mentirei escondendo o seu valor porque a inveja da sua presença no mundo me incomoda e me enraivece. Gosto de ser homem, de ser gente, porque sei que a minha passagem pelo mundo não é predeterminada, preestabelecida. Que o meu "destino" não é um dado mas algo que precisa ser feito e de cuja responsabilidade não posso me eximir. Gosto de ser gente porque a História em que me faço com os outros e de cuja feitura tomo parte é um tempo de possibilidades e não de determinismo."
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01 junho 2009

[Conto de fadas...]

Era uma vez uma moça que tinha um cabelo muito, muito, muito grande, que morava sozinha numa torre na floresta. O cabelo dela era tão grande, tão grande, mais tão grande, que pra poder pentear, ela ia até a janela e jogava o cabelo que ia do alto da torre até o chão.
Um dia ela resolveu fazer uma trança. Passou dois dias fazendo a trança. Quando terminou ela estava tão cansada, tão cansada, mais tão cansada, que acabou dormindo sentada na janela, com a trança pendurada.
Um rapaz, que estava com fome, passou perto da torre e resolveu bater na porta pra pedir comida. Mas como a moça morava sozinha e estava dormindo no alto da torre, não ouviu o rapaz chamar. Ele chamou, chamou, mais chamou muito mesmo, até que perdeu as forças e sentou no chão, porque estava muito fraco e com fome. De repente ele viu uma corda pendurada ao lado da torre, que ia até o alto. Então ele resolveu subir para tentar entrar e procurar comida. Ele subiu, subiu, mais subiu muito, pois a torre era muito alta. Quando chegou lá em cima, percebeu que o que ele estava segurando não era uma corda, mas o cabelo de uma jovem muito bonita. A moça, sentindo algo puxar seus cabelos, acordou assustada. Quando viu o rapaz pendurado em seus cabelos, ela se assustou e gritou. Ela gritou, gritou e gritou tão alto, que o rapaz, de medo, soltou os cabelos dela e caiu lá de cima. Ele caiu, caiu, mais caiu muito mesmo, porque era uma torre realmente alta. E morreu.
A moça ficou triste, triste, muito triste, porque o rapaz era muito bonito e talvez fosse o único partido que ela fosse arrumar em toda a sua vida, pois ninguém ia até aquela torre e ela já estava com 34 anos de idade. Arrependida do grito que ela deu, resolveu se matar. Então ela subiu na janela e se jogou. Então ela caiu, caiu...

MAS... De repente, um pedaço do seu cabelo ficou enganchado num prego na parede da torre e ela ficou pendurada.
Passaram-se diversos dias e ela continuava pendurada do lado de fora da torre. Então de repente (novamente) ela lembrou que tinha uma tesoura de costura dentro do bolso do vestido. Resolveu corta os cabelos pra cair de logo de uma vez. Quando ela cortou o cabelo ela caiu, e caiu... E chegou no chão muito rápido, pois quando o cabelo dela ficou preso, ela já não estava longe do chão. Na queda, ela quebrou uma perna e um braço.
Desesperada e cheia de dor, ela começou a se arrastar. Mesmo gritando, gritando e gritando, muito alto e agudo, por socorro, ninguém veio socorrê-la, pois a sua torre era muito, muito, muito longe de tudo. Então, de repente, apareceu um sapo mágico. Ele disse para ela que caso ela parasse de gritar, ele realizaria um desejo pra ela. Ela, com muito, muito, muito esforço, pois era muito escandalosa, parou de gritar. Ele perguntou o que ela queria. Então, mesmo sofrendo muito, mas com medo de continuar solteira, pediu pro sapo ressuscitar o rapaz bonito. Então o sapo realizou o seu desejo e foi embora.
Quando o rapaz acordou de seu sono eterno, ficou assustado, pois não sabia o que tinha acontecido e achou que tinha simplesmente caído no sono de tanta fome e acabara sonhando. Mas, de repente, (tudo acontece de repente nessa história, não é verdade?) ele ouviu uns gritos terríveis na floresta. Mas os gritos eram tão horríveis, tão horríveis, mais tão horríveis, que ele ficou com medo e fugiu correndo para o outro lado. Chegou numa cidade onde arrumou comida. Acabou casando com uma camponesa de 18 anos e viveu feliz para sempre.

E você me pergunta: “E a moça?”. Bem, dizem pela floresta que ela sangrou tanto, que vieram uns jacarés e comeram ela viva. Legal né?

Moral da história: Não tem moral, eu acho. Só que no final das contas, uns casam e são feliz para sempre e outros ficam sozinhos e morrem cheios de sofrimento e dor, comidos por jacarés famintos! =]