Seu descanso acabou no instante que a campainha do telefone soou entre os trovões e o ribombar da chuva no telhado. O despertador marcava três e quinze da manhã. Levantou-se sem coragem depois da insistência do telefone. Olhou para trás e observou sua mulher dormir profundamente. "Depois dizem que os homens é que tem o sono pesado". E com esse pensamento começou a descer as escadas, ainda meio tonto de sono, apoiando-se nas paredes.- Alô - Disse, atendendo ao telefone que parecia ter tocado mais de 20 vezes.
- Marco, é o Lucas. Estamos à umas dez quadras da sua casa. Estamos precisando de você aqui!
- O que houve? - Marco disse já completamente liberto do sono diante da seriedade das palavras do amigo. Ela sabia que Lucas só ligaria para ele essas horas da noite se o assunto fosse verdadeiramente sério.
- Difícil dizer por telefone. Anota o endereço e vem pra cá. Estamos esperando.
Pegou um papel ao lado do telefone, anotou o endereço e desligou sem nem se despedir. Subiu as escadas com pressa e se trocou sem acorda sua esposa.
...
Ainda chovia muito quando ele se aproximou do endereço indicado por Lucas. Desceu do carro cobrindo a cabeça com o casaco e erguendo a identificação, passou por um grupo de policiais que isolava a área. Lucas o esperava na varanda da casa com um saco plástico nas mãos.
- O que aconteceu aqui? - Marco perguntou olhando ao redor. Jogando a sacola lacrada para ele, com uma faca de carne manchada de sangue dentro, retrucou:
- Venha e veja você mesmo.
...
Do outro lado da cidade, Cléber voltava para casa depois de um plantão cansativo na empresa. A chuva havia arrancado algumas telhas e ele tivera que mover algumas mesas, desligar os computadores e improvisar uns panos e umas bacias para amparar a água que escorria pelas frestas do forro. Quando seu colega o rendeu às 4 horas da manhã, a chuva ainda continuava forte, mas ele resolveu mesmo assim ir logo embora para casa. Sabia que se ficasse ali acabaria trabalhando a mais sem ganhar extra por isso.
Quando o ônibus parou na parada na esquina da sua rua, ele desceu correndo pela calçada até sua casa, destrancou o portão e entrou sem nem se dar ao trabalho de trancá-lo outra vez. Ao alcançar a área coberta na frente da porta sala, ele deixou um pouco da água escorrer antes de entrar em casa. Quando foi encaixar a chave na fechadura para abrir a porta percebeu que ela estava apenas encostada.
O que aconteceu em seguida foi rápido demais.
...
Marco saiu da casa com o rosto assustado.
- Onde disse que encontraram a faca?
- Ao lado do portão de fora - Disse Lucas anotando algumas coisas numa caderneta azul.
- Quem avisou a polícia?
- O vizinho estava saindo chegando em casa quando viu que o portão e as janelas da sala estavam abertas. Ele disse que seus vizinhos estavam viajando a mais de uma semana e que ainda não tinham retornado. Quando viu portão escancarado desconfiou logo de assalto e ligou para a polícia.
- E a mulher é parente dos donos da casa?
- Ele estava esperando perto do portão quando chegamos e viu o corpo para tentar identificá-lo, mas não a reconheceu.
...
Cléber tinhas mãos sujas de sangue quando discou no celular o número da emergência.
- Ee... eu preciso de uma ambulância urgente na rua...
CONTINUA









