Apoiada na pia do banheiro, Andrea olhava o rosto abatido no espelho. A maquiagem borrada nos olhos vermelhos de tanto chorar a deixava com um aspecto terrível. Com um suspiro cansado ela ligou a torneira e começou lentamente a se lavar. Quando ouviu que Jean entrava no quarto, ela empurrou a porta do banheiro com o pé, trancando-a em seguida. Não estava com saco para conversas e nem para pedidos de desculpa. Ligou o chuveiro no quente e deixou o vapor da água inundar o banheiro, embaçando espelho, janela e o box de vidro. Sentada sobre a tampa do vaso, ela desatava a sandália de salto alto que usava desde aquela manhã. Pegou o celular no bolso de trás do jeans e olhou a hora: 0h35. Enquanto massageava os pés cansados, sentia o calor úmido do banheiro aliviando suas tensões. Tirou o resto da roupa e abrindo rapidamente o box, deixou a água escorrer lentamente pelo seu corpo, levando a sujeira e a tristeza do seu coração. Enquanto lavava os cabelos podia ouvir o som da sala tocando alto e não pode evitar um sorriso.
Quando Andrea entrou no quarto, Jean a seguiu querendo continuar a conversa. Não havia motivos para ela estar tão chateado por uma bobagem como aquela. Mas quando entrou, a viu trancar o banheiro atrás de si e percebeu que não tinha mais chances de conversa, pelo menos não naquela hora. Mas um dia ela teria que sair do banheiro. Voltou para a sala e sentou no sofá maior. Tirou o tênis e jogou-o do outro lado da sala. Enrolou as meias e as jogou também. Tirou a camiseta molhada e a estendeu sobre a poltrona e deitando no sofá, apoiou a cabeça no encosto lateral do sofá e ficou olhando para o teto durante algum tempo. A festa ainda rolava no andar de cima, e podia ouvir a farra dos amigos. Querendo se ausentar do clima que ainda rolava lá, foi até a estante e começou a caçar um CD para tocar. Tiag Iorc se destacou e ele o colocou no aparelho de som, aumentando-o até o último volume. Jogando-se novamente no sofá, fechou os olhos e deixou as notas inundarem a casa, seus ouvidos e sua mente.
Quando abriu a porta do banheiro enrolada apenas na toalha, Andrea sentiu o vento frio que vinha da janela aberta do quarto gerar um arrepio em todo o seu corpo. Deu um gritinho e correu para fechá-la com um baque. Enxugou-se e vestiu apenas uma camiseta comprida que usava para dormir. Na sala Tiago Iorc cantava a melodia doce de "It's Not Time". Ela abriu a porta do quarto e espiou a sala enquanto escovava os cabelos molhados. Jean parecia dormir no sofá. Enquanto o observava ali, deitado com o rosto iluminado pela luz do poste que entrava pela janela, barba por fazer, sem camisa, ela sorria e tentava se lembrar por estava tão chateada antes. - Mais um ataque de ciúmes - Ela sussurrou para si mesma, rindo sem graça. Ela foi até a estante, abaixou o som antes que algum vizinho reclamasse e sentou no parapeito da janela, olhando para a rua praticamente vazia lá em baixo. Os sons da festa no andar de cima já quase não existiam mais, então ela se deixou envolver pelo silêncio da noite e pela voz suave que ainda tocava no som o refrão de "My Girl". Quando ouviu a voz de Jean, voltou-se para o sofá onde ele estava e o viu sentado, observando-a, enquanto cantava "Well, I guess you'll say... What can make me feel this way? My girl... Talkin' 'bout my girl, my Girl..." com aquele ar zombeteiro e seu sorriso torto. Ele a chamou com a mão, e depois de um instante de hesitação, ela se levantou e sentou-se ao lado dele. - Me perdoa? - Ele pergunta com a voz pesada. - No momento em que o vi no sofá, deitado e de olhos fechados eu já sabia que não conseguiria ficar com raiva de você. E você, perdoa minha insegurança? Ele não respondeu, apenas levantou-se, foi até a mesa da sala, e pegando um livro dentro da mochila, ele voltou para o sofá, se encostou num dos cantos, e passando as pernas ao redor dela, a chamou para se aninhar em seus braços. Ela deitou sobre o peito dele, então ele abriu o livro na página marcada e o segurou diante do rosto deles e disse: - Só se terminarmos de ler o livro do clube juntos. - Mas você já está mais adiantado que eu. - Não me importo. Eu leio os capítulos novamente com você. - Você vai ler para mim? Amo sua voz... - Ela disse enquanto fazia um bico e beijava lentamente o pescoço de Jean. Suspirando ele respondeu: - Só se você prometer que não vai dormir. Não falta muito para acabar e a reunião já é amanhã. - Eu sei, prometo que não vou dormir! - Se você dormir eu juro que te faço cócegas até... - E dizendo isso, a atacou na cintura, fazendo a rir até perder o fôlego, se contorcendo e gritando: - Para, para... por favor... Então ele parou e ela se aninhou mais uma vez em seus braços. - Onde você parou? - Ele perguntou. Ela abriu o livro algumas dezenas de páginas antes de onde ele estava e voltou a se encostar nele. Alguns segundos depois a voz dele encheu toda a sala, e embalada pelo som que ainda tocava baixinho, ela se deixou levar pela história que emanava através da voz de Jean.
- Ir ao banco depositar o dinheiro para a tia Carmen e pagar algumas contas. Passar no supermercado e comprar papel higiênico. Estar livre até as 16 horas para participar da reunião de pais da Clarice. Comprar o presente de aniversário do Jaime. E o que mais? Parece que estou esquecendo alguma coisa! Enquanto caminhava em volta da mesa da cozinha, Marina enumerava todas as suas tarefas em voz alta, repassando seu trajeto, tentando não esquecer nada do que tinha para fazer. Assim que se convenceu de que não estava esquecendo de nada, escreveu uma lista com essas tarefas em um bloquinho de papel que ficava em cima do balcão que separava a sala da cozinha em seu minúsculo apartamento.Pendurando a alça da bolsa no ombro, ela saiu apressada batendo a porta. Antes mesmo de chegar ao elevador, voltou correndo ao apartamento para buscar os boletos que esquecera sobre a mesa. E quase correndo, voltou a sair do apartamento, batendo a porta atrás de si.Meio minuto depois, Marina voltava xingando. Entrou mais uma vez no apartamento, e dessa vez, indo até a sala, agarrou o livro que estava entre as almofadas do sofá. Mesmo nervosa como estava, ao pegar o livro, seu semblante se suavizou. Colocou-o cuidadosamente dentro da bolsa e saiu mais uma vez retomando a pressa de antes.Trancou o apartamento e saiu em direção ao elevador. Enquanto via a numeração se aproximar do seu andar, ela batia nervosamente o pé no chão e tamborilava os dedos na lateral da perna em um mesmo ritmo acelerado.Consultando o horário no celular, quase gritou quando a porta do elevador se abriu, assustando uma senhora idosa que já o ocupava: - Aahhhh!!! Caraca, já são 14h48! Desculpe o grito, é que eu não podia estar tão atrasada!!! - E mal entrou, apertava o botão da garagem inúmeras vezes de maneira quase desesperada - Ai, e essa porcaria de porta que não... - Mas se interrompeu ao ver a porta se fechar a ao observar a face aterrorizada da senhora que se espremia num canto do elevador quase com medo de se aproximar de Marina. Então sorrindo docilmente, Marina abriu a bolsa e retirando um pacote de chicletes, o estendeu para a vizinha: - A senhora aceita um chiclete??
Quando chegou ao banco o relógio marcava 15h03 e seu humor estava cada vez mais alterado, mas nada comparado ao instante em que ela observou a fila gigantesca que se formava diante da área de caixas eletrônicos. Era possível ver o tremor de suas mãos. Retomando o controle de sua mente depois de alguns segundos, Marina se afastou dos caixas eletrônicos e foi em direção a porta giratória. Assim que começou a atravessá-la, ouviu um apito e ela travou com um baque. Voltou depositando o celular no compartimento ao lado da porta e sorrindo para o guarda voltou a atravessar com rapidez, para mais uma vez ouvir o apito e bater com a cara no vidro da porta que travou mais uma vez. Saindo novamente, foi até o compartimento e já muito irritada começou a esvaziar a bolsa. Chaves, relógio, guarda-chuva, moedas. Ela teria enfiado a bolsa dentro do compartimento se ela coubesse. Assim que o guarda observou seu nervosismo, se dirigiu a ela e a mandou atravessar a porta. Rapidamente ela correu e atravessou a porta já se dirigindo até a máquina que liberava as senhas dos caixas, enquanto o guarda a chamava: - Senhora, suas coisas - Ele falava apontando para o compartimento ao lado da porta rotatória - A senhora esqueceu de recolher suas coisas. Envergonhada e irritada ela voltou jogou todas a coisas dentro da bolsa. Quando se voltou novamente para a máquina e percebeu que um homem estava pegando a senha que seria sua, sentiu vontade de gritar mais uma vez, mas se conteve ao perceber que o guarda e mais alguns funcionários a observavam. Abaixando a cabeça e dando um profundo suspiro, ela disse ao guarda: - Muito obrigada! Fo até a máquina e pegou uma senha: 438. Ao chegar na área de espera para os caixas, ela se sentou na primeira cadeira vazia e olhou para o monitor que mostrava as senhas e os caixas disponíveis: 394. Desanimada, ela olhou mais uma vez para o relógio: 15h11. Recostando na cadeira, ela olhou ao redor e suspirando mais uma vez, fechou os olhos durante alguns segundos. Quando tornou a abrir, um sorriso triunfante se formou em seu rosto e sacando o livro de dentro da bolsa, disse com alegria: - Vou conseguir ler pelo menos uns dois capítulos! Sentindo que todos a olhavam com espanto e estranheza, ela declarou: - Sou louca. Não se importem comigo. E então retomou a leitura exatamente de onde havia parado no sofá na noite anterior. Em poucos segundos já nem se lembrava mais dos compromissos, das filas, senhas ou mesmo das pessoas que ainda a olhavam de rabo de olho. Ela estava em outro mundo.
Alex não lembrava a última vez em que conseguira dormir uma noite inteira. Ligou o aparelho de som com um volume bem abaixo do normal para não acordar seus pais e foi sentar próximo da janela. A noite estava clara e fazia muito calor. Abriu o vidro e sentiu uma leve corrente percorrer o ar abafado do quarto. Estava apenas de cuecas e tinha as costas e as pernas grudentas de suor. A luz do poste enchia o quarto, então ele pegou o livro sobre a mesinha e retomou a leitura apoiando os pés no parapeito da janela. As páginas passaram e com elas os minutos e logo as horas também. Quando percebeu os primeiros sinais do amanhecer atrás do prédio em frente a sua casa, largou o livro marcando a página com um cartão telefônico e foi deitar mais uma vez. O relógio do celular mostrava 5h47. Jogou as cobertas no chão e deitou de costas na cama, com as mãos atrás da cabeça, olhando para o teto. Não demorou para que todo o quarto logo fosse tomado pela luz do sol que já estava acima do prédio da padaria. Decidou levantar de uma vez e pegando a toalha pendurada atrás da porta do quarto, foi tomar uma banho. A água gelada parece renovar um pouco das suas forças, então quando saiu do banheiro estampava um sorriso de satisfação. O resto da casa ainda dormia, e ele imaginava que não despertariam até bem depois das 10h. Era assim todos os sábados. Vestindo o jeans surrado que usara durante boa parte da semana e uma camiseta roxa que ganhara aquela semana, ele desceu as escadas ainda com os cabelos molhados, pingando no chão por onde ele passava. Calçou o tênis preto que estava na varanda, e pegando a mochila sobre a bancada da cozinha, a encheu de frutas e alguns pacotes de biscoitos que encontrou no armário e voltou para o quarto. Pegou o livro que estava lendo, o dinheiro que sobrara do dia anterior e o celular com o fone de ouvido ainda plugado e saiu trancando a porta.
Quando saiu de casa, olhou o céu azul sem nuvens e pensou em voltar para buscar os óculos escuros, mas acabou não voltando. E assim ele saiu caminhando pela calçada observando a rua que começava a ganhar vida. Andou quase 30 minutos até chegar ao parque municipal, onde se dirigiu até uma área arborizada mais ao fundo do parque, onde costumava sentar para ler. Recostou-se nas grandes raízes de uma mangueira e sacando o livro e um pacote de biscoitos, começou a comer enquanto retomava já em dos últimos capítulos do livro.
Leu até terminar. O final da história trouxe certo incômodo, e o fez pensar em como certas histórias pareciam revelar muito do que ele mesmo havia passado. Pensou nas semelhanças de seu próprio caráter e o do protagonista da história que acabara de ler e começou a matutar sobre as possibilidades de ter um desfecho tão ou até mais triste do que o do personagem. E foi com essas divagações em mente que começou a percorrer os olhos pelo parque que ganhara vida enquanto ele estava mergulhado em seu livro. Pessoas corriam em volta do lago, outros passeavam com seus cães e alguns outros se exercitavam perto da fonte. Mas seus olhos foram capturados pelo rapaz que estava sentado num dos bancos perto da entrada. Ele também lia um livro. Parecia alheio ao movimento em seu redor de tão concentrado que estava em sua leitura. Imediatamente sua curiosidade se acendeu, e a necessidade de descobrir o título do livro que tão fortemente prendia a atenção daquele jovem tomou conta dele. Guardou o livro e os restos do biscoito na mochila, e levantando-se apressadamente, começou a caminhar em direção ao banco onde o jovem estava, tentando de todas as formas enxergar o título do livro. Porém o jovem tinha o livro apoiado sobre os joelhos, mantendo o título inacessível. Sem pensar duas vezes, ele passou pela frente do jovem e sentou-se ao seu lado. O rapaz, como que despertado de um transe, levantou os olhos do livro com uma careta de desagrado. Abrindo um sorriso de desculpas, Alex estendeu a mão para o rapaz: - Desculpe interromper sua leitura. Meu nome é Alex. O jovem o olhou com um ar desconfiado, e sem estender a mão de volta ele disse: - Se estiver vendendo alguma coisa, não estou afim de comprar nada, ok? - Não, não é nada disso - Disse Alex sorrindo. - Sei que vai parecer loucura, ,mas eu só queria saber o título do livro que você está lendo tão concentrado. Ao ouvir a explicação, ele ficou em silêncio durante alguns segundos e então começou a gargalhar, fazendo Alex rir sem graça. Então ele estendeu a mão e disse ainda rindo: - Meu nome Fábio. - Fechou o livro sobre o colo e o estendeu para Alex - Pelo jeito você é mais um viciado em livros que não pode ver ninguém lendo sem descobrir que livro é, né? Pegando o livro muito sem graça, ele respondeu: - É, acho que você me pegou. - Não se preocupe - Disse Fábio - Eu sou do mesmo jeito! E rindo juntos, eles começaram a conversar animadamente.
Com o tempo eu percebi que os meus sonhos de criança se perderam junto com os meus brinquedos. Acabaram no lixo ou mesmo na mão de outra criança. Assim como eles, meus sonhos foram aos poucos sendo substituídos por outros mais novos, mais modernos.
Os brinquedos deram lugar aos livros infantis e estes, gradativamente deixados de lado, foram trocados pelas histórias de terror... E da mesma forma os novos sonhos tornaram-se pesadelos... E o que era doce e embalava meu sono tornou-se amargo e me mantinha acordado, com medo de fechar os olhos.
Quando era criança costumava conversar com amigos imaginários, percorria mundos fantásticos e detinha poderes incríveis e invencíveis. Com o passar dos anos o mundo real sorrateiramente foi tentando calar as vozes dos meus amigos, e de certa forma ele conseguiu.
Foram anos sombrios e silenciosos, onde raros eram os sussurros que eu ainda conseguia ouvir.
Cresci, envelheci, "amadureci" e me vi caminhando em marcha acelerada para uma longa estrada de desesperança, onde nada havia de fantástico e meus poderes deixaram de existir. Como uma "criptonita" a realidade foi minando minha força de vontade e persistência.Da inocência da infância pouco restou para mim. Meus olhos foram desvelados para muita coisa, inclusive para a obscuridade da alma humana. Qual o preço de crescer?
Meus amigos voltaram! E hoje, ao invés de criança criativa sou o homem louco que fala com fantasmas. Será que alguém um dia vai compreender? Escondo-me em meus livros, e a música abafa meus gemidos. Cresci e o caminho já não posso mais voltar.
Sou dois em um: o homem perdido e o menino feliz, o menino confuso e o homem autossuficiente! O homem com sua maturidade e verdades batalhando contra o garoto com sua ingenuidade e seus mágicos poderes.
Tenho que admitir: depois que comecei a assistir Gossip Girl, eu parei de assistir qualquer outra coisa. Foram quatro temporadas em praticamente três semanas, e esperar a estréia dos novos episódios não tem sido uma tarefa muito fácil. O que o seriado tem de tão bom assim? Muitas coisas, mas principalmente os personagens. Chuck, Blair e Jenny são sem dúvida os meus favoritos. E foi através do seriado que eu descobri que a jovem Taylor Momsen, a atriz que interpreta a Jenny na série, também tem uma banda, a "The Pretty Reckless". Como ser curioso que sou, fui atrás de conhecer as músicas da banda. Pronto, virou meu mais novo vício. Com um som às vezes bem pesado e um vocal bem diferente, a banda conquistou meus ouvidos e não saí mais das minhas caixas de som e nem do meu celular! Deixo para vocês um vídeo de uma performance acústica da música que é também título do CD deles: Light Me Up! Vale a pena ouvir!
O que eu estou usando parece chocá-lo? Tudo bem, porque o que eu estou pensando sobre você não é bom Mantenho isso em mente para mudar meus modos Mas eu não acho que posso ser nada além de mim Eu não acho que posso ser nada além de mim
Larguei a mochila no chão do banheiro. Nesse horário o instituto está vazio. Apoio as duas mãos sobre a bancada e passo alguns minutos observando a minha aparência no espelho manchado. Minha cabeça lateja um pouco, e fixo meu olhar numa fórmula de Cálculo Numérico rabiscada no azulejo da parede com um pincel atômico. Duas das lâmpadas do banheiro estão queimadas, restando apenas a iluminação no fundo e as luzes do corredor que entram pela porta encostada. Já passa das 22 horas, e a maioria dos alunos já foram embora. O ambiente está frio, sensação que é intensificada pelas minhas roupas molhadas. Posso ouvir a chuva caindo forte lá fora. Dou um suspiro alto, e deixo minha respiração pesada embaçar o espelho à minha frente. Com o dedo eu rabisco figuras desconexas sobre a área embaçada e observo gradativamente o desenho desaparecer. Aguardo mais alguns minutos e percebo que a chuva parece não querer dar trégua. Junto a mochila, e carregando-a pelas alças encharcadas, saio para o corredor completamente vazio e silencioso, a não ser pelo barulho constante de um aparelho de ar condicionado ainda ligado algumas salas adiante. Aproximando-me da escada, sento-me no terceiro degrau e fico olhando, pela janela no alto da escada, a chuva que continua forte lá fora. Encostando meu corpo na parede, fecho meus olhos e deixo o barulho ao meu redor embalar meus pensamentos, que pouco à pouco viajam para outro lugar...
Eu calço o tênis apressadamente, e vestindo um casado de capuz, fecho o zíper até a metade e saio, apanhando as chaves sobre o balcão da cozinha. Já são mais de 3 horas, e já devo ter perdido meu ônibus. Tranco o portão e vou caminhando para a parada de ônibus enquanto coloco os fones de ouvido e ligo o celular no reprodutor de músicas.
"I'm so happy/Cause today I've found my friends/They're in my head/I'm so ugly but that's okay..."
Enquanto caminho, observo as pessoas passarem apressadas por mim, enquanto eu mesmo quase corro para chegar ao meu destino. Ao ver a parada vazia, percebo que meu temor se concretizou. Vejo o ônibus se afastar ao longe. Sento-me desanimadamente no banco de concreto próximo do senhor idoso que vende doces e balinhas num tabuleiro de madeira e deixo meu olhar solto, sem destino certo, percorrer o horizonte. Nesse momento percebo alguém se aproximar e tocar meu ombro: - Você pode me informar as horas?
Levo um susto tão grande que quase chego a gritar. O segurança dá um sorriso debochado e retomando a postura séria, informa que vai fechar o prédio e precisa que eu saia. Levanto-me rapidamente, e meio zonzo, com a visão escurecida, me apoio na parede para não cair, até recuperar totalmente o equilíbrio. O homem me acompanha até a saída e fecha a porta após minha saída. Olho no relógio do celular e descubro que são 23h15. Dormi quase uma hora sentado naquela escada. A chuva continua firme e forte, e a cobertura da marquise na entrada do prédio não me cobre completamente, e em poucos segundos já estou encharcado de novo. Sem coragem, encosto na pilastra e tento da melhor forma possível me proteger do vento frio. Enquanto espero a chuva estiar, penso no sonho/lembrança que tive na escada. Diferente do dia de ontem, do qual mal lembro da existência, lembro daquele dia como se fosse a cena de uma filme que acabei de assistir. Ela era linda, e mal pude conter meu sorriso ao vê-la ali. Já faz mais de um ano, mas lembro-me daquela tarde com todos os detalhes. Tudo que eu tinha planejado para aquele dia deu errado, mas penso o que teria acontecido se eu não tivesse perdido aquele ônibus.
Quando a chuva diminui até a intensidade de uma leve garoa, eu começo a caminhar para casa, com a mochila no ombro direito e a cabeça baixa. Então minhas lágrimas começam a correr, disfarçadas pela luz falha dos postes. Percebo que minhas lembranças misturaram-se com a minha fértil imaginação e desejos. E enquanto caminho, relembro o momento exato em que eu cheguei àquela parada de ônibus ainda em tempo de apanhar a condução... E como, pela janela eu pude ver aquela bela moça chegando, olhando-me nos olhos, aproximando-se do vendedor de doces para se informar das horas.
sempre tive medo das mudanças... elas sempre vieram para me tirar do controle, para mudar minhas certeza e para tirar-me de uma zona de tranquilidade. por mais que eu as tenha buscado com cautela, elas chegaram sem avisar e corromperam meu mundo estrategicamente desenhado. elas vieram sorrateiras e puxaram toda minha cobertura, deixando-me nu diante de olhos desconhecidos. elas me tiraram do seio familiar e jogaram-me em turbilhão desconhecido, em posição de defesa, mas sem armas, com as mãos nuas e desprotegidas. e assim eu recomecei, tudo de novo, mais uma vez...
e mais uma vez, eu, como bom ser humano que sou, tornei-as [as mudanças] em marasmo de mesmice... e o que era perturbação virou sinônimo de pasmaceira...
hoje já não as temo mais [as mudanças], mas as desejo com toda a paixão da minha alma... que a falsa tranquilidade que me cerca venha dar lugar para as constante mudanças que me agitam o ser e que me fazem tremer e perceber o valor do silêncio e da boa noite de sono... que eu não perca a vontade de me mover, de correr, de sofrer, de amar, de chorar, de estudar, de cantar... e principalmente de mudar... pois nada mais encantador há no homem do que a constante inconstância de viver... que eu aprenda a valorizar as mudanças antes dos maus dias, onde a rotina encubra a felicidade de buscar o novo, de quebrar as regras, de questionar, de transformar, de se transformar...
que venham as mudanças... enquanto o sopro leve da juventude ainda não se findou em mim...
[experiências de um jovem velho sonhador para uma velha jovem amiga de longe...]
queria um lugar distante para ir... sozinho... eu e meus "próprios" pensamentos. um lugar tranquilo, com um lago e muitas árvores... grama ressecada, com banquinhos de concreto cobertos de folhas secas... uma leve brisa soprando, trazendo o arrepio gostoso da proximidade do final da tarde. queria ter um bom livro na mochila, daqueles que a gente não consegue largar de ler, mesmo que o sono seja pesado... uma lanterna para quando a luz for pouca e os olhos não conseguirem mais enxergar as palavras nas páginas... uma coberta bem grossa, antiga e surrada, mas que aquece como ninguém as pernas cansadas. queria o céu estrelado de verão... a lembrança serena da infância ainda pura... os olhos marejados de lágrimas... a oração engasgada... a confissão adiada... o perdão tão desejado... o abraço tranquilizador do Pai... o sono de paz... queria a saudade dos amigos... a caixa de cartas... as fotos antigas... as lembranças marcadas nas páginas do diário... queria a esperança de um amor... o fim da solidão... o anseio pelo carinho da mão amada, o cafuné...
Ele caminhava ainda sonolento em direção a caixa de correio. Carregava uma caneca de café que ele beberica enquanto olhava para a rua, que àquela hora começava a despertar. Vestia apenas um short azul e uma camiseta branca sem estampa. Ele se abaixou para pegar o jornal que fora jogado em cima de uma poça de lama - "Maldito entregador!" - e sacudindo o saco que o continha, abrindo a caixa do correio com uma cara feia. Na mesma hora seu rosto se iluminou, e abriu um sorriso radiante. Deixando o jornal no chão, correu de volta para dentro de casa com o envelope amarelo nas mãos. Passou correndo pela cozinha, debaixo do olhar espantado dos seus pais. Entrando no quarto e fechando a porta, ele se jogou na cama. Deitado de costas, ele olhava de maneira apaixonante para o envelope, delineando-o com as pontas dos dedos, observando a bela caligrafia do remetente: Luiza. Cuidadosamente, ele rasgou o envelope com a espátula que estava sobre o criado-mudo ao lado da cama e retirou as folhas pautadas escritas com caneta azul.
"Maceió, Abril de 2011 Querido Julian..."
Ainda com a carta nas mãos, depois de tê-la lido e relido algumas vezes, Julian se perguntava como realmente tudo aquilo havia começado. Então, olhando para sua estante de livros, um deles se destacava na prateleira mais alta: "Coração de Tinta". Então sorrindo, ele abriu a gaveta do criado-mudo e retirando de lá uma caixa azul, pôs-se a folhear um pequeno bloco de cartas, todas no mesmo envelope amarelo. Enquanto isso, sua mente divagava em meio à lembranças do ano anterior, lembranças que o levavam até uma quente e abafada tarde de Junho... Nesse momento, ele ouviu as batidas na porta do quarto: - Deixe-me adivinhar: carta de Luiza? - sua mãe disse, colocando a cabeça dentro do quarto - Dificilmente vejo esse sorriso bobo em seu rosto por qualquer outro motivo. - Sim - Ele respondeu corando. - Vá tomar um banho e venha terminar seu café. Quando terminar arrume a cozinha, ok? Já vou sair para o trabalho. Tenha um bom dia - E sorrindo acrescentou antes de fechar a porta - E veja se não fica a manhã inteira lendo ou escrevendo e esquece de fazer o almoço! Antes que ele respondesse alguma coisa, ele já podia ouvir seus pais saindo de carro.
Julian, pegou a toalha no varal, e antes de ir tomar um banho, ligou o som da sala no volume máximo, para só depois ir para o banheiro. Tirou a roupa, entrou debaixo do chuveiro e deixou a água cair sobre seus ombros durante alguns minutos, para só depois molhar a cabeça, massageando os cabelos com os dedos. Podia ouvir os gritos da guitarra que solava na música que tocava no som da sala. Tinha a vontade de gritar, mas ele a abafou molhando o rosto na água fria que escorria do chuveiro. Ele sempre convivera com esse sentimento de inconstância, mas até hoje não aprendera a lidar com seus rompantes depressivos. Sempre ia da euforia exacerbada até uma tristeza repentina e profunda em poucos segundos. Mas, sacudindo a cabeça, forçou-se a manter-se bem, relembrou mais uma vez as palavras carinhos de Luiza na carta sorrindo, pensando em cada uma das coisas que ela contara, nas novidades, nas bobeiras que para eles tinham tantos significados...
Quando terminou de se aprontar, pegou o livro que estava lendo em um clube do livro e levou-o consigo para a cozinha. Sentou para terminar de tomar café, e quanto comia, abriu o livro para retomar sua leitura. Olhou para o marcador de página de maneira carinhosa (fora um presente de Luiza, ela mesma o havia feito) e recomeçou a ler, perdendo-se em meio a magia da história, transportando-se para outro mundo, outra realidade... Enquanto sua mente insistia em lembrar-se que alguns milhares de quilômetros distantes, uma certa moça também estaria a ler o mesmo livro...
Leu mais ou menos umas 30 páginas, e forçou-se a parar, mesmo sem vontade, para arrumar a cozinha e começar o almoço. Antes, foi até o quarto e pegou o notebook e levando-o para a cozinha, o abriu sobre o balcão e ligou a internet. Acessou a página do skoob, e depois de atualizar seu histórico de leitura, deixou um recado carinho para Luiza, falando que a carta havia chegado e comentando algo sobre o livro que ela estava lendo. Enquanto digitava, pensava em mandar também uma mensagem de texto pelo celular. Nesse momento Julian adquiriu um semblante carregado, quando pensou em quão longe Luiza estava naquele momento, lembrando que nem mesmo poderia agradecê-la com um abraço por todo carinho... Provavelmente única pessoa que realmente o compreendia de todas as formas possíveis, e estava tão longe... Então sua mão percorreu o balcão, e puxando o marcador de dentro do livro, ele sussurrou: - E ao mesmo tempo tão perto...
Sentindo um aperto no coração, ele tentou manter-se esperançoso: - Um dia ainda vamos nos encontrar... E quem sabe já não mais vou ler sozinho...
E fechando o note e largando o marcador, Julian foi preparar o almoço com a cabeça cheia de sonhos, planos e muitas idéias.
Primeiro post do ano! Durante esse tempo ausente do blog, eu tive muitas idéias e uma delas veio na forma do fragmento abaixo, que pode vir a se tornar um futuro conto, ou até mesmo, quem sabe, um livro... *.* Sonhos meus... Por isso, gostaria da opinião de vocês sobre ele... Leiam e comentem... Será que essa história teria futuro? Aguardo a opinião de vocês... Em breve começo a postar um novo conto para vocês!
Grande abraço!
Elisa despertou assustada. Estava apoiada sobre uma superfície dura e fria. Aos poucos seus olhos foram acostumando-se com a escuridão do ambiente, e logo ela divisou as paredes do cômodo. Era uma sala pequena, sem móveis, com um teto alto, sem janelas, com apenas uma porta no centro de uma das paredes. Ela se dirigiu para lá, ainda tonta. Porém, ao alcançar a fechadura, percebeu que a porta estava trancada. Apoiando as costas na porta, ela foi se abaixando, até sentar, com os joelhos dobrados em frente ao corpo, abraçando-os com os braços nus. O vestido preto sem mangas quase não a aquecia, e ela tremia com o frio do quarto. Com as mãos massageava os pés descalços. Ainda encostada na porta, Elisa procurava em sua mente recordações sobre como fora parar ali. Sua mente aos poucos começou a vagar, e as primeiras imagens da festa começaram a surgir em sua cabeça...
- O vestido preto mamãe! - Disse Elisa jogando o vestido amarelo floral sobre a cama. - Faça como bem entender! Não vou mais me importar com suas loucuras! - Disse Dona Helena, saindo do quarto e batendo a porta atrás de si. - Como se já tivesse se importado alguma vez comigo. Acredito que se eu nem mesmo aparecesse na cerimônia, estaria fazendo um favor para ela - Sussurrou Elisa para si mesma, enquanto observava seu corpo nu no espelho, alisando os longos cabelos negros. Caminhando, até o guarda-roupa, pegou o vestido preto de alças finas e o vestiu sem pressa, calçando em seguida um sandália de palha sem salto. Aproximou-se da janela e observou o jardim totalmente decorado para o casamento de sua irmã. Muitos convidados já lotavam a área coberta de lona amarela, improvisada para a cerimônia. O sol, reinando soberano no céu sem nuvens, castigava os convidados que se amontoavam debaixo da lona, em busca do frescor de uma sombra. Elisa sorriu zombeteira e sentando no peitoril da janela aberta, se esticou e pegou o livro sobre o criado mudo ao lado da cama e pôs-se a ler despreocupadamente, ciente do atraso que se prenunciava. As batidas na porta despertaram-na da história do livro. - Posso entrar irmãzinha? - Emma estava linda. Os cabelos pretos presos em coque destacavam seu rosto - Preciso da ajuda da minha madrinha para colocar o véu. Elisa sorriu ao ver a irmã entrar no quarto. Largando o livro sobre a cama, desceu da janela e correu até ela, abraçando-a com carinho. - Você está maravilhosa maninha! - E pelo jeito você odiou o vestido, né? - Disse Emma apontando para o vestido floral jogado sobre a cama, com um sorriso zombeteiro nos lábios. - O vestido é lindo... Mas... - Não precisa dizer nada maninha. Você vai como quiser. Elisa encaminhou Emma até o espelho e observou os seus reflexos, ciente da estranheza de observar sua cópia perfeita vestida de noiva bem ao seu lado. Pegando o véu de Emma com as duas mãos, postou-se atrás de sua irmã e prendeu o véu com cuidado, alisando-o com carinho, tocando suavemente os ombros de sua irmã. - Hoje é o seu dia. Aproveite-o ao máximo - Elisa disse isso, enquanto pousava suavemente o rosto sobre o ombro da irmã, olhando se sorriso radiante. - Você está feliz maninha? - Emma virou-se para Elisa, fitando seus olhos azuis bem marcados pelo delineador preto. - Estou feliz por você irmãzinha. Você e Julián formam o casal mais perfeito que já vi. Vão ser muito felizes - disse Elisa com sinceridade. - Gostaria que você também encontrasse alguém para fazê-la feliz como Julián me faz... - Um dia... - Elisa, perdida em pensamentos, foi interrompida quando a porta se abriu de repente, revelando sua mãe já bastante abalada. - Emma, temos que ir, seu noivo e todos os convidados já te esperam. Por favor, se apresse. - Vá meu amor - disse Elisa beijando a irmã com carinho - Vou descer também para esperá-la no altar. E saindo do quarto, deixou a irmã e sua mãe (que não parava de tentar ajeitar uma mecha de Emma que lhe caia sobre a testa) terminando de se arrumar.
Elisa ouviu passos atrás da porta, e levantando em um salto, colocou-se de lado, com o coração acelerado de expectativa diante da possibilidade de descobrir quem se aproximava. Esperou durante alguns minutos, e quando percebeu o silêncio mais uma vez a engolia completamente, sentou-se desanimada, sentindo pela primeira vez o estômago reclamar de fome.
Todos dançavam e se divertiam. A festa já seguia para o seu final, quando Emma e Julián saíram de dentro da casa, já com outras roupas, para se despedir das pessoas e se prepararem para sair em lua-de-mel. Elisa estava sentada sozinha debaixo de uma árvore perto do portão de entrada da fazenda. Emma veio correndo e abraçou Elisa com força: - Não imagina como vou sentir sua falta. - Não vai nem se lembrar de mim, pelo menos assim eu espero - disse Elisa rindo - Nada de ficar pensando nas coisas aqui. Tudo vai estar exatamente no mesmo lugar quando você voltar, portanto aproveite seu maridinho e as praias o máximo que puder. - E você, o que vai fazer agora que terminou a faculdade? - Vou aproveitar esse tempo de férias para irritar bastante mamãe - ao dizer isso, as duas caíram numa gargalhada gostosa - Não se preocupe, vou saber aproveitar bem meu tempo. E no próximo mês é provável que eu já comece como professora substituta na escola da cidade. Nesse momento Julián se aproximou sorrindo: - Vou ser fuzilado por interromper a despedida da dupla dinâmica? - Não! - adiantou-se Elisa - Vai fazer um imenso favor arrastando-a com você... Ela parece que não quer desapegar desse mundo rural. Leve-a para conhecer as coisas boas da vida cunhadinho - piscou brincalhona e abraçando sua irmã e seu cunhado de uma só vez, os viu se afastarem em direção ao carro com um aperto no coração.
Elisa estava agora deitada de frente para a porta, com a cabeça apoiada sobre os braços, e apesar da ansiedade e da fome que a dominavam, o cansaço a dominou e não demorou muito para que ela pegasse no sono. Pouco tempo depois era possível ver uma luz fraca, como de uma vela, através da fresta embaixo da porta.