
- Apenas feche os olhos e confie em mim! - Disse Lizzy segurando o braço de Julián e empurrando-o.
- O que vc está aprontando? - Ele perguntou sorrindo.
- É uma surpresa! Se eu contar, perde totalmente a graça! Então cale-se e simplesmente caminhe - Disse ela empurrando-o com mais força, mas sem largar seu braço, guiando seu caminho.
- Tudo bem, tudo bem! - Ele disse rindo, levantando os braços numa posição de rendição.
- Você é uma gracinha! - Lizzy disse dando um beliscão leve na cintura dele.
- Ow! Isso doeu! - Disse ele se contorcendo e fazendo cara de vítima, mas ainda de olhos fechados. Os dois riram e continuaram caminhando, agora em silêncio.
Julián pegou a mão de Lizzy e apertou-a, ainda deixando-se levar por ela. Ele sorria enquanto pensava na últimas semanas. Cada segundo que passaram juntos desde o dia da chuva havia sido mágico e intenso. Mesmo com a constante sombra de uma despedida, ele não se arrependia de nenhuma das atitudes que tomaram. Aquele segundo 'primeiro beijo' havia acabado com todas as suas dúvidas. Tudo que ele sabia era que queria estar com ela o máximo de tempo que pudesse.
- Pronto - Disse ela, soltando-o e parando em sua frente. Dando-lhe um beijo, disse - Pode abrir os olhos.
Assim que abriu os olhos, ele viu o sorriso mais lindo do mundo, emoldurado pelos cabelos vermelhos soltos, balançando ao vento, e, por um instante, não pode desviar seu olhar daquele rosto.
Aos poucos, percebeu que estavam perto da mesma árvore onde haviam se encontrado pela primeira vez. Lizzy havia estendido uma colcha vermelha sobre a grama e carregava uma enorme cesta.
- Piquenique? - Ele perguntou sorrindo.
- Também! - Ela disse sentando-se na colcha e arrumando o vestido sobre as pernas - Também!
Ela o chamou com um sorriso e ele deitou-se, pousando a cabeça em seu colo. Ela olhava-o sorrindo e afagava seus cabelos suavemente.
- Assim vou acabar dormindo - Ele disse, rindo para ela.
- Eu fiz algo para você!
- Doce de banana? - Ele perguntou com um risinho maroto.
- Não! - Ela disse batendo em seu ombro. Mas, puxando a cesta, tirou de lá uma vasilha plástica cheia de pequenas barras de doce de banana.
- Ah! - Ele sorriu esticando a mão.
- Agora não! - Ela disse - Primeiro tenho algo para te mostrar. Mas você tem que prometer que não vai rir de mim. - Disse ela seriamente.
- Nunca - Disse ele cruzando os dedos sobre os lábios!
- Então feche os olhos novamente, senão acho que não tenho coragem! - Disse ela ainda muito séria.
- Estou ficando com medo.
Mas, fechou os olhos rapidamente. Depois de alguns segundos de silêncio, ele pode ouvir uma voz suave, cantando uma canção.
Você me fez sorrir com suas confusões
Me brindou com a doçura de sua voz
E pelos acordes de seu violão
Eu pude alcançar a tristeza do seu ser.
O seu olhar distante, de mim se aproximou
E me mostrou um mundo além
Além da minha infância, além da sua dor
E me mostrou quem eu gostaria de ser.
Me deixa te levar como meu espelho
Como meu caderno de recordações
E deixa que eu fique perto de você
Como a foto sorridente na carteira.
E então eu serei muito mais feliz
E jamais esquecerei que nem os anos
Nem a maior de todas as distâncias
me fará perder o caminho
Seja meu farol, e continue a brilhar
Para que um dia eu posso em sua luz me guiar
E mais uma vez em seus braços me entregar.
Seja a minha voz e faça nossa história ressoar...
Ainda com os olhos marejados, ele a viu sorrir timidamente, com um envelope em suas mãos. Agarrando-a pelos pulsos, levantou-se com ela nos braços e a beijou demoradamente. A tarde passara rápido e o sol já começava a se esconder.
Agora, deitados, ele a tinha nos braços, aquecendo-a do vento frio. Permaneceram assim, até que a última luz do dia se desfez no horizonte. O brilho das estrelas tornou-se mais forte.
Sem palavras, ela levantou-se. Deixando-o sentando, caminhou em direção a árvore.
Ao seu lado, ele achou o envelope. Nele Julián encontrou a foto de uma linda menina, sorridente em uma praia. Junto da foto, a letra da canção que ela cantara, escrita à mão. Ele guardou o envelope no bolso. Levantou e foi até onde ela estava.
Ela olhava para o local onde ele, com um canivete, havia desenhado as iniciais dos seus nomes no caule da árvore. Abraçando-a por trás, sussurrou-lhe:
- Você me devolveu a vida!
Virando-se para ele, e tomando sua mão, ela sorriu:
- E você me ensinou a viver!
E juntando as coisas, eles caminharam de volta para casa.
...
Olhou para o carro descendo a rua até desaparecer. Sentou na calçada, olhou para a casa agora vazia, e não pode deixar de sentir uma forte dor no peito.
Ainda demorou alguns minutos antes de levantar e começar a caminhar de volta para sua casa. Quando estava chegando, sentiu o celular vibrar. Ao abrir a mensagem de texto, não pode deixar de sorrir:
"NADA DE CORTAR OS PULSOS, EINH? AMO VC. SE FIZER BESTEIRA DE NOVO, FAÇA DIREITO. SE NAUM MORRER, EU VOLTO AQUI SOH PRA TERMINAR DE MATAR VC! =*"
E rindo, entrou em casa digitando uma resposta:
"SE ISSO FIZER VC VOLTAR, PODE PEDIR PRO SEU PAI DAR MEIA VOLTA QUE JAH ESTOU COM A FACA DE CARNE NAS MÃOS. ELA TÁ MEIO CEGA, ENTÃO... RS. TB AMO VC!"
E ainda sorrindo, entrou em casa e fechou a porta.
CONTINUA