29 janeiro 2010

[alone] "especial"

Passo Largo, 1 ano atrás...



Terminou de escrever a carta e a colocou sobre a bancada da cozinha. Sua mãe ainda demoraria para chegar do trabalho, então eles teriam tempo de sobra para sair da cidade. Colocou a mochila nas costas e saiu trancando a porta e jogando a sua cópia da chave por uma fresta da janela. Não tinha intenção de voltar, pelo menos não durante um bom tempo. Colocou o capacete e montando a moto com pressa, saiu cantando pneus. Luísa já devia estar esperando.
"Minha mãe não entende que não posso ser feliz longe dela. Um dia nossos pais vão aceitar nosso amor, nesse dia quem sabe a gente não volte?"
E com esse pensamento ele acelerou com um enorme sorriso estampado no rosto.

Pedro sentiu o celular vibrar no bolso de trás da calça, e tentando tirá-lo sem parar a moto, num segundo de desatenção, perdeu um pouco o equilíbrio e não viu o caminhão vindo no sentido contrário logo depois da curva. Teve pouco tempo para desviar e acabou derrapando e bateu contra uma das árvores no acostamento.
Caído no mato, perto do asfalto, o celular ainda vibrava com uma chamada de Luísa.

[alone] 6ª parte

Com o rosto encostado na janela, eu não conseguia parar de pensar em tudo que havia acontecido. Quando Carlos apareceu e se apresentou como namorado dela e ela simplesmente permaneceu calada, não desmentiu, não confirmou, apenas olhou para mim com aqueles imensos olhos castanhos, parecia que o chão tinha se aberto diante de mim. Eu não gritei, não chorei, apenas perguntei se era verdade. O silêncio dela confirmara tudo.
Eu jamais havia me entregado a um relacionamento como agora. Ela me usara, usara meus sentimentos enquanto o namoradinho estava longe.

Ela vinha abraçada com aquele rapaz. Por um momento minha mente parecia entorpecida. Eu o imaginei como irmão dela, mas quando ela se aproximou, nem olhou nos meus olhos, apenas disse:
- Daniel, esse é o Carlos! - E virando para o rapaz disse - Esse é o meu amigo Daniel de quem lhe falei.
A palavra 'amigo' me afetara mais do que imaginei. Não tínhamos nenhum compromisso firmado, mas aquele beijo...
Apertei a mão de Carlos de maneira automática.
- Muito prazer cara - Ele disse com um sorriso simpático - Ela fala muito de você. Obrigado por ajudá-la a se adaptar por aqui. Uma nova cidade, novos colegas, é sempre tudo muito difícil. E essa minha namorada é meio difícil de fazer novos amigos...
Depois disso, era como se eu não conseguisse ouvir mais nenhuma das palavras pronunciadas por Carlos. Procurei os olhos de Luísa que mantinha a cabeça baixa. Apenas lhe perguntei uma vez:
- É verdade isso Luísa?
Minhas palavras doíam, mas o silêncio dela foi como uma facada em meu coração.
Apenas virei as costas e me afastei. Ela chamou meu nome apenas uma vez, mas já era tarde demais! Eu andava lutando com as lágrimas que insistiam em querer rolar.
Me afastei até encontrar uma das pilastras do prédio, onde me encostei sem saber o que fazer.

Desci no terminal e me dirigi para os guichês de compras de passagens. Juntei meu dinheiro e comprei um bilhete. O ônibus sairia dali mais de duas horas. Me sentei num dos bancos próximos do box que indicava na passagem e com a mochila sobre o colo, comecei a observar as pessoas que estavam ao meu redor.
Quando o vi se aproximar, meu coração parecia que tinha parado de bater. Fiquei sem reação vendo ele vir em minha direção.
- Oi Daniel! - Eu não sabia o que responder e nem como agir quando Carlos sentou-se ao meu lado - Será que podemos conversar?
Quando consegui colocar as idéias no lugar simplesmente me levantei e colocando a mochila nas costas, comecei a andar...
- É importante - Ele disse segurando meu braço com força - Vi você comprando a passagem. Você não precisa ir tão longe para entender o que está acontecendo.
- Eu já entendi tudo! - Eu disse puxando meu braço.
- Então para que ir para Passo Largo? Você não vai descobrir quem é Pedro simplesmente indo numa cidade onde você não conhece ninguém.
Olhei para ele curioso pela primeira vez. Ele sabia sobre esse tal de Pedro.
- Que tal você se sentar? Eu te conto o que está acontecendo e respondo as perguntas que você tiver. Então, se mesmo assim você ainda quiser ir até lá, não vou te impedir. Apenas me dê essas esse tempo antes de o ônibus chegar.

CONTINUA

24 janeiro 2010

[alone] 5ª parte

Acordou com dificuldade em abrir os olhos. Uma imensa luminosidade branca enchia o quarto. Seu estômago doía, e quando tentou se mexer, teve que recolher as pernas ficando de lado, numa posição semelhante à um feto, por causa da imensa dor que sentia no estômago. O fio do soro ligado na veia em seu braço puxou e lhe causou um certo desconforto.

De primeiro não conseguia lembrar-se de como tinha chegado até ali, mas não demorou muito para que os últimos acontecimentos lhe voltassem à mente como uma torrente. Cobrindo o rosto com o lençol, começou a chorar baixinho.

Quando ouviu a porta do quarto abrir, descobriu o rosto e viu sua mãe entrar no quarto com profundas olheiras no rosto e um copo de café na mão. Ela se aproximou lentamente olhando para filha com um olhar cansado e cheio de culpa. Quando ela sentou-se ao lado da cama, numa cadeira aparentemente bem desconfortável, tocou o rosto de Luísa carinhosamente.
- Se você estiver se sentindo melhor, gostaria de conversar, mas apenas se você quiser - as palavras de Laura saiam pesadas e cheias de dor.
- Eu acho que sempre quis ter essa conversa - com essas palavras Laura e Luísa começaram a chorar.
Laura sentou-se ao lado da filha na cama e colocando a cabeça dela sobre seu colo, começou a passar os dedos pelos seus cabelos.

- Odeio você! - Luísa gritava, e passou batendo a porta do quarto com muita raiva.
Laura entrou no quarto logo depois e com uma voz calma e sem emoção jogou sobre a cama dela alguns papéis e disse:
- Arrume suas coisas. Coloque apenas o que você acha essencial. Sua viagem está marcada para às 18h - E virando as costas, saiu do quarto sem fechar a porta.
Com muita raiva Luísa correu e mais uma vez bateu a porta. Com lágrimas nos olhos, foi até a mochila e pegando o celular, discou um número apressadamente. Chamou apenas uma vez, quando a voz preocupada de um rapaz atendeu:
- Luísa, finalmente. Eu já estava ficando louco. Já estava me aprontando para ir na sua casa agora mesmo.
- Me encontre daqui a uma hora no lugar de sempre - a voz dela era ansiosa.
- Está tudo bem?
- Apenas esteja lá pronto para irmos embora!
- Estou saindo de casa agora mesmo!
- Eu amo você! - Ela desligou o telefone sem nem esperar a resposta de Pedro. Começou a jogar algumas roupas na mochila e pegando o dinheiro debaixo do colchão, começou a pensar em como sair de casa sem ser vista.

CONTINUA

01 janeiro 2010

[alone] 4ª parte

"Eu jamais devia ter me aproximado do Daniel!"
Sua mente era acusadora. Seus olhos marejados de lágrimas não permitiam que ela enxergasse quem se aproximava. Quando Carlos sentou-se ao seu lado e a abraçou, ela não o repeliu. Encostando a cabeça em seu peito, ela realmente começou a chorar compulsivamente. Isso durou quase uma hora, até que Carlos a segurou pelos ombros e levantou seu rosto dizendo:
- Já está na hora de irmos para casa - E pegando as duas mochilas acrescentou - Ele não vai mais voltar. Deve ter procurado algum lugar para pensar.
- Mas ele precisa me ouvir - Ela pareceu despertar de um sonho. Se soltou dele e pegou o celular para tentar ligar para ele. Tentou discar o número do Daniel diversas vezes enquanto Carlos a encarava com um olhar de piedade.
- Ele não quer conversar. Dê um tempo para ele. Ao contrário do seu pai, eu acho que vocês dois têm que conversar. Aliás, você devia ter contado tudo para ele desde o começo.
- Por isso mesmo. Ele não deve estar entendendo nada. Deve estar confuso e sentindo-se traído - Ele continua rediscando o número dele e esperando com o celular no ouvido enquanto ele chamava até cair.
- Ele não vai te atender agora. Vamos para casa - Ele passou o braço pelos ombros dela enquanto ela se deixava levar tristemente para o carro.
Sentou-se no banco do carona e encostou a cabeça no vidro embassado pela sua respiração.

Ele havia percebido. Como ela tinha sido tola. Como pode ser tão discuidada chamando-o de Pedro. Mas havia sido tão parecido. Os sustos, o jeito meigo, as risadas contidas, os carinhos. Fora a aparência física que a assustara desde o primeiro dia. Ela teria cometido agum deslize mais cedo ou mais tarde.
Enquanto caminhava ao lado dele, sua mente viajava para outros tempos, outros lugares...
- Será que posso saber onde você está? - Ele perguntou olhando-a desconfiado.
- Estou bem aqui ao seu lado! - Ela disse puxando-o para perto de si e fazendo-o deitar a cabeça em seu colo como costumava fazer com o Pedro. Ele olhou para ela durante algum tempo com curiosidade, mas depois relaxou.
-
Me conte da sua outra faculdade. Você nunca me contou nada sobre sua vida em Passo Largo. Porque mudaram?
As empresas do seu pai estão todas lá.
Ela se assustou com as perguntas dele. Ele estava cada vez mais desconfiado. Ela pensou em se afastar dele, mas sabia que não conseguiria. Ela estava totalmente dependente da presença dele. Imaginava que se contasse tudo sobre Pedro e sobre o aconteceu, ele não a perdoaria e se afastaria. Ela não suportaria perdê-lo, não depois de tudo que aconteceu.
- Não há o que falar. Era tudo muito chato. Meu pai mudou porque minha mãe estava cansada de cidades do interior. Sempre quis que morássemos na capital.
- Mas você não tinha amigos lá na faculdade? Você nunca fala de nenhum - Ele perguntou lembrando que ela só falava de amigos na sua infância.
- Nenhum tão legal como você - Ela disse sorrindo, tentando desconversar.
- Você sabe que não é apenas a sua amizade que eu quero! - Ele disse levanto-se e sentando de frente para ela.
Ela sabia que ia ter que encarar isso uma hora ou outra, mas isso a assustou.
- Eu não sei o que dizer Daniel...
- Então não diga nada.. - Ele disse isso e se inclinou até que seus lábios tocaram os dela. Ele se afastou tímido e esperou que ela ficasse com raiva, desse um tapa nele, mas ela simplesmente se inclinou novamente para ele e segurando-o pela nuca, o beijou com uma intensidade inesperada, que o pegou desprevenido.
Em sua mente ela sabia que iria se arrepender daquilo, mas enquanto o beijava era como se ela estivesse viva novamente.

Acordou quando Carlos encostou o carro no estacionamento da casa. Ele abriu a porta para ela descer e a amparou até a entrada da casa. Assim que a porta se abriu, ela sentiu suas forças renovadas, entrou em casa e foi para o quarto deixando seus pais olhando-a subir as escadas com raiva. Bateu a porta com força.
Viu o diário sobre a cama, e sentiu um ódio tão grande que o jogou pela porta aberta do banheiro do quarto diretamente contra o espelho do armário que rachou.
Caminhou lentamente em direção ao banheiro, e se apoiou na pia fitando seu rosto no espelho rachado. Começou a percorrer toda a extensão da rachadura com o dedo, até perceber que escorria sangue dos seus dedos.
Abriu o armário e pegou um vidro de pílulas para dormir que o médico receitara no semestre anterior. Derramou uns dez comprimidos sobre a palma da mão suja de sangue e levou tudo a boca engolindo com dificuldade, enquanto balbuciava:
- Eu já devia ter feito isso a muito tempo. Pelo Pedro e agora pelo Daniel...
E sentindo uma tontura, encostou-se no box de vidro e foi sentando lentamente.
- Daniel... Daniel... Dan... - Ela repetiu até perder os sentidos com a cabeça caída ao lado do vaso sanitário.

CONTINUA

[alone] 3ª parte

Já havia escurecido quando despertei. Sentia todos os meus músculos doloridos. Estava todo molhado e tremendo. Levantei-me e sem muita coragem, tirei a jaqueta fria e a amarrei na cintura. Tirei o elástico do pulso e prendi os cabelos novamente. Olhei a minha volta e tudo que pude ver foi escuridão densa, e uma fina luminosidade de luar rompendo pelas folhagens das árvores. Não iria encontrar o caminho de volta nessas condições, então sentei-me novamente e abrindo a mochila procurei os fones de ouvido e o celular.
Havia mais de trinta ligações perdidas e muitas mensagens. As ligações eram de casa e do celular dela. Descartei as ligações do visor do celular e nem fiz questão de olhar a caixa de entrada de mensagens. Não queria desculpas ou argumentos, tudo que eu queria naquele momento era distância e solidão, como sempre havia sido antes daquele dia.
Coloquei a mochila perto das raízes altas de uma árvore, deitei-me e recostei a cabeça nela. Com o celular sobre o peito, coloquei os fones e deixei a música no volume máximo encher minha mente.

Eu estava ansioso. Nunca me sentira assim antes. Meus costumeiros atrasos foram substituídos por uma intensa necessidade de chegar muito antes de horário de início das aulas e esperá-la encostado na árvore perto da entrada do prédio, fora de vista. Esperaria durante horas se fosse preciso. Vê-la descer do carro e se aproximar era como o nascer do sol, com toda a sua exuberância e calor. Eu estava viciado nela.
O ritual já se repetia a mais de três semanas. Eu a acompanhava a todas as aulas, deixando-a na sala, para só então ir assistir as minhas. Afastar-me dela, era como perder o ar. Nada parecia ter sentido longe da sua voz infantil e de sua risada contagiante.
- Então eu roubei todos os talheres do jantar e os escondi dentro da minha casinha de boneca, acredita? - Então ela rompia numa risada gostosa que me deixava extasiado.
- Você era uma diabinha - Eu dizia bagunçando seus cabelos com os dedos.
Esse era um dos melhores momentos do dia, quando sentávamos na grama e eu deitava minha cabeça em seu colo e ficávamos conversando sobre tudo.

Ela gostava de acariciar meus cabelos, e eu fingia dormir, enquanto a observava pelos olhos semicerrados. Ela sempre ficava com o olhar distante e parecia se lembrar de algo que a entristecia. Nesses momentos eu abria os olhos, sorria e reclamava de que ela tinha um efeito sonífero sobre mim, então ela ria e continuávamos conversando, algumas vezes inclusive durante os horários de aula, que matávamos cada vez mais.
Certa feita, não a esperei no local de sempre, mas me escondi atrás de um muro, esperando fazer uma surpresa. Quando ela chegou, parecia decepcionada, com o olhar perdido me procurando. Ela chegou perto da árvore onde eu costumava esperá-la e ficou alguns instante procurando em todas as direções. Cansado de vê-la assim, me aproximei silenciosamente e a agarrei pelas costas, cobrindo-lhe os olhos. Ela se assustou, se soltou e me batendo no peito enquanto ria disse tentando fazer uma voz de repreensão:
- Pedro! Você sabe que odeio que me assustem - Disse rindo, sem aguentar ficar séria.
Eu a soltei instintivamente quando ouvi um nome diferente do meu. Uma ponta de mágoa brotou no meu coração naquele momento.
- Eu não me chamo Pedro.
Ela ficou série por dois segundos e então riu, me abraçou e beijando meu rosto disse:
- Pare de bobeira Daniel, você me assustou e eu fiquei confusa. Meu primo Pedro costumava fazer a mesma coisa quando éramos crianças, por isso eu devo ter errado os nomes. Foi o susto.
Não consegui ficar sério, e rindo, a peguei no colo e a rodei no ar. Fomos caminhando para aula como sempre, mas estranhamente aquele nome não saía da minha mente.

Acordei com o celular caído ao lado do meu corpo e com apenas um fone no ouvido. A bateria havia descarregado. Assim que me levantei, percebi que já amanhecia e já poderia encontrar a saída.
Quando cheguei na rua, vi o sol saindo timidamente e o vento frio fez eu me encolher. O ponto de ônibus ainda vazio por causa da hora foi convidativo para me abrigar do vento. Vi o ônibus que ia para o meu bairro vindo e passar direto. Eu não iria para casa, pelo menos não ainda.
Peguei o ônibus seguinte que ia para a rodoviária interestadual. Assim que sentei num dos bancos do fundo, conferi o dinheiro no meu bolso e vi que ia bastar. Apoiei a cabeça no encosto da frente, e mesmo com o sacolejar da parte traseira do coletivo, eu fechei os olhos e adormeci com o desejo de descobrir a verdade e um nome na cabeça: Pedro.

CONTINUA