24 fevereiro 2012

[o clube do livro] - 4ª parte

[Pedro]

Quando Pedro saiu de casa, o tempo já estava nublado. Ele apressou o passo chegando num ritmo quase de corrida, na esperança de ainda conseguir pegar o ônibus das 16h. Mas ainda estava longe quando viu sua condução sair do terminal. Diminui instantaneamente sua velocidade, e caminhando desanimado sentiu os primeiros pingos de chuva contra o seu rosto. Puxou o capuz da blusa de frio sobre a cabeça e sentiu a blusa encharcar aos poucos, fazendo-o tremer. Quando finalmente entrou no terminal, não havia nenhuma parte do seu corpo seca.

Sentou-se no banco em frente ao box de onde seu ônibus saia (agora vazio) e colocando as pernas sobre o banco, as abraçou e se encolheu, deixando a mochila ao seu lado. Ficou assim durante alguns minutos até o corpo, apesar de ainda molhado, sentir-se um pouco menos desconfortável.

Enquanto esperava o próximo ônibus, ele observava as pessoas que caminhavam pelo terminal. Apressadas, estressadas, sorridentes, cabisbaixas, infelizes ou felizes, cada rosto revelava uma história, uma vida inteira de circunstâncias que moldaram pessoas tão diferentes, mas ao mesmo tempo tão semelhantes. Ele escolhia algumas delas ao acaso e passava a contar a si mesmo a história de cada uma delas.

O rapaz tatuado de camisa regata, encostado na pilastra perto do portão, estava esperando alguém. Olhava para os lados constantemente, e verificava o relógio a cada cinco minutos. Provavelmente esperava a namorada. Os cabelos negros com um corte moicano lhe davam um ar de superioridade, de determinação, de quem sabia exatamente o que queria, de quem desde cedo encontrou o caminho que alguns chamariam de revolta, mas que para ele devia significar fazer suas próprias escolhas, independente de quem os outros esperavam que ele fosse. Dele, Pedro teve inveja. Pouco tempo depois, com um ar de irritação, ele se afastou apressado, com passos firmes, sem uma companhia. Levara um "bolo"?

A moça de terninho chegou fechando o guarda-chuva e limpando com um lenço de papel os respingos de lama em seus sapatos de salto alto. Carregava uma pasta azul para documentos e apesar do mal tempo, estampava no rosto um sorriso singelo e cheio de expectativas. Caminhou até o guichê e comprou um bilhete para o ônibus e esperou sentada numa cadeira próxima. Era uma bela mulher, com um ar de pessoa de negócios. Parecia bastante satisfeita consigo mesma, como se tivesse fechado um grande negócio e recebido um promoção na empresa onde trabalhava. Não demorou, ela discou um número no celular e começou a conversar animadamente. Quando seu ônibus chegou, ela se levantou sobressaltada, ainda com o celular no ouvido e correu para subir no ônibus lotado. Ele a viu partir rindo, mesmo em pé dentro de um ônibus tão cheio.

Pedro ainda procurava alguém interessante quando percebeu que ele mesmo era alvo do exame de algumas pessoas que passavam por ele. Tomou consciência de que ele deveria ser uma imagem que destoava no ambiente. Um rapaz alto e magro, de cabelos compridos, soltos pelas costas, com as roupas negras molhadas, de maquiagem nos olhos, sentado no banco com as pernas coladas ao corpo, com o queixo apoiado nos joelhos. Sorriu ao pensar sobre o que as pessoas deviam pensar dele: um roqueiro revoltado, gótico ou emo.

Abandonando esses pensamentos, ele abaixou as pernas e colocando a mochila sobre o colo, a abriu e pegou o livro do clube. A mochila jeans não o resguardou da umidade e ele viu com certa irritação que as páginas estavam sofrendo com isso.
Sentiu o celular vibrar no bolso e colocando o livro de lado, foi ler a mensagem de texto:

"KD VC?? SO TA FALTANDO VC!! MARINA"

Ele sorriu imaginando as caras e bocas que a Marina devia estar fazendo naquele momento. Aliás, ele podia imaginar Alex sentado perto da janela no apartamento do Jean e da Andrea olhando para a rua, vendo a chuva descer constante. Ele imaginava Andrea na cozinha fazendo o lanche e conversando com a Marina, que não devia parar de reclamar sobre a demora dele. E no sofá da sala ele via Jackson conversando com o Jean sobre esportes.
Todos tão diferentes e tão parecidos.

Nesse momento, o ônibus chegou, e pegando a mochila ainda aberta e o livro, Pedro correu e subiu sentando num dos últimos bancos. Pegou o celular e digitou:

"PERDI O OUTRO ÔNIBUS, MAS CHEGO DAQUI A UNS 15 MIN!! NÃO COMAM TUDO SEM MIM!"

E sorrindo, ele viu que a chuva diminuía e um sol tímido de final de tarde despontava entre as nuvens de chuva que rareavam.

[CONTINUA]

23 fevereiro 2012

[hoje]

hoje o dia amanheceu mais escuro
e o vento frio que arranhava meu rosto parecia mais forte
minhas tentativas frustradas de redenção me desanimam
e as nuvens de chuva cobrem a tarde ensolarada
e a chuva constante se mistura com minhas lágrimas ardentes
e esfria a minha alma, que segue amedrontada
meu coração vazio, sem paixão, sem amor.

amedrontado, esse é meu eterno adjetivo
um medo que paralisa e que tira o meu vigor
paralisado para o bem, sempre ativo para o mal
e sigo caminhando cabisbaixo.

não tenho seu olhar, nem sua força
essa paixão me abandonou a tanto tempo
anulada pelos meus medos, meus preconceitos;
sua energia, sua experiência, sua coragem
eu deixei partir, e essa paixão não olhou para trás.

eu morri há tanto tempo e a aparência permanece
e ninguém nem mesmo percebe
se eu me for, sentirão falta do que ofereci
e de quem sou, alguém uma dia sentirá?

tenho medo que eu me vá
e que ninguém jamais venha a me conhecer
e esse medo é o que me mantêm paralisado nesse mundo
preso a essa realidade que mina minha existência
e destrói...

morto: 21h18 do dia 23 de fevereiro de 2012