
Ele caminhava ainda sonolento em direção a caixa de correio. Carregava uma caneca de café enquanto olhava para a rua, que àquela hora começava a despertar. Vestia apenas um short azul e uma camiseta branca sem estampa. Abaixou para apanhar o jornal, que fora jogado em cima de uma poça de lama - "Maldito entregador!" - e sacudindo o saco que o continha, abriu a caixa do correio com uma cara feia. Na mesma hora seu rosto iluminou-se, e um sorriso radiante surgiu. Largando o jornal no chão, correu, de volta para casa, com o envelope amarelo nas mãos. Passou apressado pela cozinha, debaixo do olhar espantado dos seus pais.
Entrando no quarto e batendo a porta, ele jogou-se na cama. Deitado de costas, olhava de maneira apaixonada para o envelope, delineando-o com as pontas dos dedos, observando a bela caligrafia do remetente: Luíza.
Cuidadosamente, ele rasgou o envelope com a espátula que estava sobre o criado-mudo, ao lado da cama e retirou as folhas pautadas escritas com caneta azul.
"Maceió, Abril de 2011
Querido Julian..."
Ainda com a carta nas mãos, depois de tê-la lido e relido algumas vezes, Julian se perguntava como realmente tudo aquilo havia começado. Então, olhando para sua estante de livros, um deles se destacava na prateleira mais alta: "Coração de Tinta". Sorrindo, ele abriu a gaveta e retirou de lá uma caixa azul, pondo-se a folhear um pequeno bloco de cartas, todas no mesmo envelope amarelo. Enquanto isso, sua mente divagava em meio à lembranças do ano anterior, lembranças que o levavam até uma quente e abafada tarde de Junho...
Nesse momento, ouviu as batidas na porta do quarto:
- Deixe-me adivinhar: carta de Luíza? - sua mãe disse, colocando a cabeça dentro do quarto - Dificilmente vejo esse sorriso bobo em seu rosto por qualquer outro motivo.
- Sim - Ele respondeu corando.
- Vá tomar um banho e venha terminar seu café. Quando terminar arrume a cozinha, ok? Já vou sair para o trabalho. Tenha um bom dia - E sorrindo, acrescentou antes de fechar a porta - E veja se não fica a manhã inteira lendo ou escrevendo e esquece de fazer o almoço!
Antes que respondesse alguma coisa, ele já podia ouvir seus pais saindo de carro.
Julian, pegou a toalha no varal, e antes de entrar no banho, ligou o som da sala no volume máximo, para só então se dirigir para o banheiro.
Tirou a roupa, entrou debaixo do chuveiro e deixou a água cair sobre seus ombros durante alguns minutos, para só depois molhar a cabeça, massageando os cabelos com os dedos. Podia ouvir os gritos da guitarra, que solava na música que tocava na sala. Tinha a vontade de gritar, mas ele a abafou molhando o rosto na água fria que escorria do chuveiro.
Ele sempre convivera com esse sentimento de inconstância, mas até hoje não aprendera a lidar com seus rompantes depressivos. Sempre ia da euforia exacerbada até uma tristeza repentina e profunda, em poucos segundos.
Mas, sacudindo a cabeça, forçou-se a manter-se bem. Relembrou, sorrindo mais uma vez, as palavras carinhosas de Luíza na carta, pensando em cada uma das coisas que ela contara, nas novidades, e até nas bobeiras, que para eles tinham tantos significados...
Quando terminou de aprontar-se, pegou o livro que estava lendo em um clube do livro e levou-o consigo para a cozinha. Sentou para terminar de tomar café, e quanto comia, abriu o livro para retomar sua leitura. Olhou para o marcador de página de maneira intensa (fora um presente de Luíza, ela mesma o havia feito) e recomeçou a leitura, perdendo-se em meio a magia da história, transportando-se para outro mundo, outra realidade... Enquanto sua mente insistia em lembrar-se que alguns milhares de quilômetros distantes, uma certa moça também estaria a ler o mesmo livro...
Leu mais ou menos umas 30 páginas, e forçou-se a parar, mesmo sem vontade, para arrumar a cozinha e começar o almoço. Antes, foi até o quarto e pegou o notebook. Levando-o para a cozinha, abriu-o sobre o balcão e ligou a internet. Acessou a página do skoob, e depois de atualizar seu histórico de leitura, deixou um recado carinhoso para Luíza, falando que a carta havia chegado e comentando algo sobre o livro que estavam lendo. Enquanto digitava, pensava em mandar também uma mensagem de texto pelo celular.
Nesse momento Julian adquiriu um semblante carregado. Quando pensou em quão longe Luiza estava naquele momento, lembrou que nem mesmo poderia agradecê-la com um abraço por todo aquele cuidado...
A única pessoa que realmente o compreendia de todas as formas possíveis estava tão longe...
Então sua mão percorreu o balcão, e puxando o marcador de dentro do livro, ele sussurrou:
- E ao mesmo tempo tão perto...
Sentindo um aperto no coração, ele tentou manter-se esperançoso:
- Um dia ainda vamos nos encontrar... E quem sabe já não mais lerei sozinho...
Fechando o notebook e largando o marcador, Julian foi preparar o almoço com a cabeça cheia de sonhos, planos e muitas ideias.
[uma homenagem para uma amiga de longe]
