18 janeiro 2011

[cartas...]

Ele caminhava ainda sonolento em direção a caixa de correio. Carregava uma caneca de café enquanto olhava para a rua, que àquela hora começava a despertar. Vestia apenas um short azul e uma camiseta branca sem estampa. Abaixou para apanhar o jornal, que fora jogado em cima de uma poça de lama - "Maldito entregador!" - e sacudindo o saco que o continha, abriu a caixa do correio com uma cara feia. Na mesma hora seu rosto iluminou-se, e um sorriso radiante surgiu. Largando o jornal no chão, correu, de volta para casa, com o envelope amarelo nas mãos. Passou apressado pela cozinha, debaixo do olhar espantado dos seus pais.

Entrando no quarto e batendo a porta, ele jogou-se na cama. Deitado de costas, olhava de maneira apaixonada para o envelope, delineando-o com as pontas dos dedos, observando a bela caligrafia do remetente: Luíza.
Cuidadosamente, ele rasgou o envelope com a espátula que estava sobre o criado-mudo, ao lado da cama e retirou as folhas pautadas escritas com caneta azul.

"Maceió, Abril de 2011
Querido Julian..."

Ainda com a carta nas mãos, depois de tê-la lido e relido algumas vezes, Julian se perguntava como realmente tudo aquilo havia começado. Então, olhando para sua estante de livros, um deles se destacava na prateleira mais alta: "Coração de Tinta". Sorrindo, ele abriu a gaveta e retirou de lá uma caixa azul, pondo-se a folhear um pequeno bloco de cartas, todas no mesmo envelope amarelo. Enquanto isso, sua mente divagava em meio à lembranças do ano anterior, lembranças que o levavam até uma quente e abafada tarde de Junho...

Nesse momento, ouviu as batidas na porta do quarto:
- Deixe-me adivinhar: carta de Luíza? - sua mãe disse, colocando a cabeça dentro do quarto - Dificilmente vejo esse sorriso bobo em seu rosto por qualquer outro motivo.
- Sim - Ele respondeu corando.
- Vá tomar um banho e venha terminar seu café. Quando terminar arrume a cozinha, ok? Já vou sair para o trabalho. Tenha um bom dia - E sorrindo,  acrescentou antes de fechar a porta - E veja se não fica a manhã inteira lendo ou escrevendo e esquece de fazer o almoço!
Antes que respondesse alguma coisa, ele já podia ouvir seus pais saindo de carro.

Julian, pegou a toalha no varal, e antes de entrar no banho, ligou o som da sala no volume máximo, para só então se dirigir para o banheiro.
Tirou a roupa, entrou debaixo do chuveiro e deixou a água cair sobre seus ombros durante alguns minutos, para só depois molhar a cabeça, massageando os cabelos com os dedos. Podia ouvir os gritos da guitarra,  que solava na música que tocava na sala. Tinha a vontade de gritar, mas ele a abafou molhando o rosto na água fria que escorria do chuveiro.
Ele sempre convivera com esse sentimento de inconstância, mas até hoje não aprendera a lidar com seus rompantes depressivos. Sempre ia da euforia exacerbada até uma tristeza repentina e profunda, em poucos segundos.
Mas, sacudindo a cabeça, forçou-se a manter-se bem. Relembrou, sorrindo mais uma vez, as palavras carinhosas de Luíza na carta, pensando em cada uma das coisas que ela contara, nas novidades, e até nas bobeiras, que para eles tinham tantos significados...

Quando terminou de aprontar-se, pegou o livro que estava lendo em um clube do livro e levou-o consigo para a cozinha. Sentou para terminar de tomar café, e quanto comia, abriu o livro para retomar sua leitura. Olhou para o marcador de página de maneira intensa (fora um presente de Luíza, ela mesma o havia feito) e recomeçou a leitura, perdendo-se em meio a magia da história, transportando-se para outro mundo, outra realidade... Enquanto sua mente insistia em lembrar-se que alguns milhares de quilômetros distantes, uma certa moça também estaria a ler o mesmo livro...

Leu mais ou menos umas 30 páginas, e forçou-se a parar, mesmo sem vontade, para arrumar a cozinha e começar o almoço. Antes, foi até o quarto e pegou o notebook. Levando-o para a cozinha, abriu-o sobre o balcão e ligou a internet. Acessou a página do skoob, e depois de atualizar seu histórico de leitura, deixou um recado carinhoso para Luíza, falando que a carta havia chegado e comentando algo sobre o livro que estavam lendo. Enquanto digitava, pensava em mandar também uma mensagem de texto pelo celular.
Nesse momento Julian adquiriu um semblante carregado. Quando pensou em quão longe Luiza estava naquele momento, lembrou que nem mesmo poderia agradecê-la com um abraço por todo aquele cuidado...
A única pessoa que realmente o compreendia de todas as formas possíveis estava tão longe...
Então sua mão percorreu o balcão, e puxando o marcador de dentro do livro, ele sussurrou:
- E ao mesmo tempo tão perto...

Sentindo um aperto no coração, ele tentou manter-se esperançoso:
- Um dia ainda vamos nos encontrar... E quem sabe já não mais lerei sozinho...

Fechando o notebook e largando o marcador, Julian foi preparar o almoço com a cabeça cheia de sonhos, planos e muitas ideias.

[uma homenagem para uma amiga de longe]

12 janeiro 2011

[até mesmo, quem sabe, um livro...]

Primeiro post do ano! Durante esse tempo ausente do blog, eu tive muitas idéias e uma delas veio na forma do fragmento abaixo, que pode vir a se tornar um futuro conto, ou até mesmo, quem sabe, um livro... *.*
Sonhos meus...
Por isso, gostaria da opinião de vocês sobre ele... Leiam e comentem... Será que essa história teria futuro? Aguardo a opinião de vocês...
Em breve começo a postar um novo conto para vocês!

Grande abraço!

Elisa despertou assustada. Estava apoiada sobre uma superfície dura e fria. Aos poucos seus olhos foram acostumando-se com a escuridão do ambiente, e logo ela divisou as paredes do cômodo.
Era uma sala pequena, sem móveis, com um teto alto, sem janelas, com apenas uma porta no centro de uma das paredes. Ela se dirigiu para lá, ainda tonta. Porém, ao alcançar a fechadura, percebeu que a porta estava trancada.
Apoiando as costas na porta, ela foi se abaixando, até sentar, com os joelhos dobrados em frente ao corpo, abraçando-os com os braços nus. O vestido preto sem mangas quase não a aquecia, e ela tremia com o frio do quarto. Com as mãos massageava os pés descalços.Ainda encostada na porta, Elisa procurava em sua mente recordações sobre como fora parar ali.
Sua mente aos poucos começou a vagar, e as primeiras imagens da festa começaram a surgir em sua cabeça...

- O vestido preto mamãe! - Disse Elisa jogando o vestido amarelo floral sobre a cama.
- Faça como bem entender! Não vou mais me importar com suas loucuras! - Disse Dona Helena, saindo do quarto e batendo a porta atrás de si.
- Como se já tivesse se importado alguma vez comigo. Acredito que se eu nem mesmo aparecesse na cerimônia, estaria fazendo um favor para ela - Sussurrou Elisa para si mesma, enquanto observava seu corpo nu no espelho, alisando os longos cabelos negros.
Caminhando, até o guarda-roupa, pegou o vestido preto de alças finas e o vestiu sem pressa, calçando em seguida um sandália de palha sem salto.
Aproximou-se da janela e observou o jardim totalmente decorado para o casamento de sua irmã. Muitos convidados já lotavam a área coberta de lona amarela, improvisada para a cerimônia.
O sol, reinando soberano no céu sem nuvens, castigava os convidados que se amontoavam debaixo da lona, em busca do frescor de uma sombra.
Elisa sorriu zombeteira e sentando no peitoril da janela aberta, se esticou e pegou o livro sobre o criado mudo ao lado da cama e pôs-se a ler despreocupadamente, ciente do atraso que se prenunciava.
As batidas na porta despertaram-na da história do livro.
- Posso entrar irmãzinha? - Emma estava linda. Os cabelos pretos presos em coque destacavam seu rosto - Preciso da ajuda da minha madrinha para colocar o véu.
Elisa sorriu ao ver a irmã entrar no quarto. Largando o livro sobre a cama, desceu da janela e correu até ela, abraçando-a com carinho.
- Você está maravilhosa maninha!
- E pelo jeito você odiou o vestido, né? - Disse Emma apontando para o vestido floral jogado sobre a cama, com um sorriso zombeteiro nos lábios.
- O vestido é lindo... Mas...
- Não precisa dizer nada maninha. Você vai como quiser.
Elisa encaminhou Emma até o espelho e observou os seus reflexos, ciente da estranheza de observar sua cópia perfeita vestida de noiva bem ao seu lado.
Pegando o véu de Emma com as duas mãos, postou-se atrás de sua irmã e prendeu o véu com cuidado, alisando-o com carinho, tocando suavemente os ombros de sua irmã.
- Hoje é o seu dia. Aproveite-o ao máximo - Elisa disse isso, enquanto pousava suavemente o rosto sobre o ombro da irmã, olhando se sorriso radiante.
- Você está feliz maninha? - Emma virou-se para Elisa, fitando seus olhos azuis bem marcados pelo delineador preto.
- Estou feliz por você irmãzinha. Você e Julián formam o casal mais perfeito que já vi. Vão ser muito felizes - disse Elisa com sinceridade.
- Gostaria que você também encontrasse alguém para fazê-la feliz como Julián me faz...
- Um dia... - Elisa, perdida em pensamentos, foi interrompida quando a porta se abriu de repente, revelando sua mãe já bastante abalada.
- Emma, temos que ir, seu noivo e todos os convidados já te esperam. Por favor, se apresse.
- Vá meu amor - disse Elisa beijando a irmã com carinho - Vou descer também para esperá-la no altar.
E saindo do quarto, deixou a irmã e sua mãe (que não parava de tentar ajeitar uma mecha de Emma que lhe caia sobre a testa) terminando de se arrumar.

Elisa ouviu passos atrás da porta, e levantando em um salto, colocou-se de lado, com o coração acelerado de expectativa diante da possibilidade de descobrir quem se aproximava. Esperou durante alguns minutos, e quando percebeu o silêncio mais uma vez a engolia completamente, sentou-se desanimada, sentindo pela primeira vez o estômago reclamar de fome.

Todos dançavam e se divertiam. A festa já seguia para o seu final, quando Emma e Julián saíram de dentro da casa, já com outras roupas, para se despedir das pessoas e se prepararem para sair em lua-de-mel.
Elisa estava sentada sozinha debaixo de uma árvore perto do portão de entrada da fazenda.
Emma veio correndo e abraçou Elisa com força:
- Não imagina como vou sentir sua falta.
- Não vai nem se lembrar de mim, pelo menos assim eu espero - disse Elisa rindo - Nada de ficar pensando nas coisas aqui. Tudo vai estar exatamente no mesmo lugar quando você voltar, portanto aproveite seu maridinho e as praias o máximo que puder.
- E você, o que vai fazer agora que terminou a faculdade?
- Vou aproveitar esse tempo de férias para irritar bastante mamãe - ao dizer isso, as duas caíram numa gargalhada gostosa - Não se preocupe, vou saber aproveitar bem meu tempo. E no próximo mês é provável que eu já comece como professora substituta na escola da cidade.
Nesse momento Julián se aproximou sorrindo:
- Vou ser fuzilado por interromper a despedida da dupla dinâmica?
- Não! - adiantou-se Elisa - Vai fazer um imenso favor arrastando-a com você... Ela parece que não quer desapegar desse mundo rural. Leve-a para conhecer as coisas boas da vida cunhadinho - piscou brincalhona e abraçando sua irmã e seu cunhado de uma só vez, os viu se afastarem em direção ao carro com um aperto no coração.

Elisa estava agora deitada de frente para a porta, com a cabeça apoiada sobre os braços, e apesar da ansiedade e da fome que a dominavam, o cansaço a dominou e não demorou muito para que ela pegasse no sono.
Pouco tempo depois era possível ver uma luz fraca, como de uma vela, através da fresta embaixo da porta.