No meio das minhas caixas, encontrei minha redação no vestibular da UFG, em 2006, e resolvi transcrevê-la aqui...

Sobre a mesa de cabeceira, a manchete no jornal estampava a criação da "pílula do esquecimento". A caixa, semelhante a da notícia de jornal, estava no chão ao lado da cama, junto com o copo de água, agora só pela metade.
Ainda agora, sentado na beira da cama, podia ouvir as palavras do médico: "O senhor tem certeza de que é isso o que realmente quer?". Sentia-se triste e sozinho.
Lembrou-se do enterro da esposa, dos filhos reunidos em volta do caixão, cada rosto marcado pela dor da perda. Uma lágrima correu pelo seu rosto.
Lembrou-se então, sorrindo, do casamento do filho mais velho e também da primeira vez em que seu caçula trouxe a namorada para conhecer a família. Podia ver os filhos ainda pequenos aprendendo a andar de bicicleta, das quedas, do choro. As lágrimas agora corriam soltas pelo rosto enrugado.
Deitou-se e sonhou.
Sonhou com seu próprio casamento e a viagem de lua de mel. Podia ver com clareza a esposa grávida, a expectativa da chegada do primeiro menino.
Despertou do sonho sentindo-se estranho, cansado. Foi até o banheiro e viu-se no espelho: olhos vermelhos emoldurados por um rosto que não parecia o seu. As rugas e o cabelo, que estava branco e ralo em algumas partes, pareceram assustá-lo por alguns segundos, mas logo o sentimento o abandonou. Riu-se pensando em como o tempo passava depressa. Uma sensação de felicidade se apoderou dele.
Alguém bateu na porta do quarto: era o enfermeiro que trouxera os seus remédios e vinha levá-lo para caminhar. Ele pensou em como gostava de caminhar, e a medida em que se afastavam do prédio do asilo e adentravam no jardim, sua mente se dedicava a apreciar a beleza que os envolvia.
O enfermeiro lhe falava sobre a visita de seus filhos naquela tarde e tudo que ele pode fazer foi sorrir. "Coitado, deve estar me confundindo com outra pessoa, eu não tenho filhos", ele pensou, enquanto dirigia-se a um banco de concreto no jardim para se sentar. Não externou seu pensamento ao enfermeiro. Não queria constrangê-lo dizendo que ele o havia confundido com outra pessoa. O jovem parecia um bom profissional e estava tão contente. Ele apenas aquiesceu e o observou sentar-se ao seu lado no banco, ambos contemplando a beleza daquela manhã.