27 setembro 2010

[never alone] FINAL

Maio de 2009

Assim que o carro parou em frente a uma bela casa num bairro nobre da cidade, eu a vi brincando no quintal com um homem que, apesar do tempo, eu reconheci quase que imediatamente.
Ela tinha os cabelos negros. Eram compridos, caindo nas costas de forma pesada. Ela brincava com o avô despreocupadamente e por alguns minutos eu simplesmente não conseguia desviar os olhos dela.
Quando dei por mim, o advogado já havia descido do carro e o homem já não brincava mais com a menina, mas me olhava de maneira apreensiva, cheio de expectativa. Ele saiu em direção ao advogado, seguido pela menina que vinha carregando a bola com um ar curioso.
Eu saí do carro e observei o dr. Laerte se aproximar junto com advogado. Ao chegar diante de mim, ele estendeu a mão e disse:
- Houve um momento em que realmente pensei que você tivesse morrido meu rapaz! - Sua voz era descontraída, mas assim que a menina se aproximou e o agarrou pena perna, pude sentir que ele ficou bastante desconfortável enquanto eu a observava.
- Eu realmente não sabia - As palavras não fluíam, eu simplesmente não conseguia encontrá-las. Então apenas abaixei os olhos esperando que algo mais fosse dito.
Nesse momento percebi que a menina puxava a mão do avô de forma incisiva para lhe sussurrar algo ao ouvido. Quando este finalmente se abaixou para ouvi-la, ela lhe disse algo que o fez sorrir. Pegando-a no colo, ele me disse:
- Alex, esta é Luiza, minha neta. Ela queria muito te conhecer.
Eu sentia minha cabeça girar um pouco, percebi que ela sorria e então ela me disse descontraída, enquanto me estendia a sua mãozinha:
- Vovô me disse que você conheceu minha mãe. Sabia que eu tenho o mesmo nome que ela? Ele diz que sou tão bonita quanto ela!
Enquanto ela falava, meu coração parecia acelerar tanto, que por um momento temi que pudesse passar mal. Eu lhe estendi a minha mão e não consegui responder. Ela me olhava de maneira curiosa. Seu avô a colocou no chão e assim que sua avó apareceu na porta da casa ela correu em sua direção, deixando-nos sozinhos, enquanto nós a olhávamos se afastar.
- Ela é uma menina muito esperta. Gosta muito de conversar. - Ele falava de maneira amorosa, enquanto a observava correr. Quando ela chegou e começou a conversar com a avó, o dr. Laerte voltou-se para mim um pouco tenso: - Sei que isso tudo pode parecer muito novo para você, mas acredite, não é nada fácil para nós também. Demoramos muito tempo para superar a perda da nossa filha e a única coisa que nos manteve de pé durante esses anos foi essa menina. Ela é curiosa, gosta de fazer perguntas e não faz muito tempo começou a me perguntar pelos pais.
Nesse instante, percebi que ele se emocionava e eu ainda me sentia como se estivesse totalmente fora de mim, como se observasse aquilo tudo de uma tela de cinema, como se fosse um filme do quai eu era um mero espectador. Ele continuou:
- Por muito tempo pensamos se deveríamos assumi-la como nossa filha, mas desde muito pequena, nós lhe contamos que ela era nossa neta, que sua mãe havia partido pouco depois que ela nasceu. Nós a criamos com todo amor e carinho, mas logo a figura de um pai começou a lhe fazer falta...
Nesse momento senti uma espécie de pontada no coração, e percebi uma dor que pareceu me arrastar para a realidade. Eu não conseguia entender suas palavras e logo senti uma pressão no peito e meus olhos se embaçaram com lágrimas contidas.
- Nós relutamos durante muito tempo em continuar procurando por você, mas acreditamos que um exame de DNA... - Ela falava rapidamente, de maneira nervosa, mas nesse momento eu o interrompi:
- Desculpe, eu tenho que ir embora... Eu... O senhor e sua família... Me desculpe mesmo...
Então eu virei e comecei a me afastar, andando apressado pela calçada, sentindo os olhares do dr. Laerte e do advogado em minhas costas. Nesse instante, eu parei ao ouvir uma voz gritar meu nome. A menina vinha pelo quintal, até parar no portão, junto do avó. Quando me virei para olhá-la, ela gritou:

- Já vai embora? Você nem brincou comigo... Vovô me disse que quando você viesse me contaria histórias sobre minha mãe... - Ela falava apressada, atropelando as palavras, e isso me fez sorrir. Eu me abaixei e ela se aproximou de mim:
- Você vai voltar para brincar comigo? Eu posso contar para você a história do pônei. Ela está num dos livros da mamãe. Vovó disse que ela era a história favorita da mamãe.
Nesse momento eu vi Dona Soraya se aproximar do portão com um olhar angustiado. Então, tudo que consegui fazer foi olhar para aquela menina cujos olhos estavam cheios de expectativa e dizer:
- Claro que volto! E eu adoraria ouvir a história do pônei!
Ela pareceu satisfeita, e sorrindo para mim, ela deu as costas e voltou para junto dos avós.
Eu me levantei e com o rosto afogueado, a vi acenar para mim. Eu acenei de volta, e dando as costas mais uma vez, comecei a caminhar pela calçada e senti finalmente as lágrimas descerem pelo meu rosto.

...

Novembro de 2010

Eu estava vestindo um jeans escuro e uma camisa de gola polo azul. Era uma roupa nova e eu caminhava apressado pela rua. Eu estava já bastante suado por causa do sol quente naquela tarde de verão. O embrulho em minhas mãos, uma caixa encapada com um papel rosa e um grande laço vermelho, estava já um pouco amassado. Era o presente de aniversário de Luiza.
Nesse momento, enquanto eu andava pela calçada, senti o celular vibrar. Parei junto de uma árvore, na esquina da rua, para me esconder do sol quente, e vi a mensagem de texto. Era do meu pai:

"SÓ PASSEI PARA DIZER QUE ESTOU MELHOR E MANDAR UM BEIJO PARA A MENINA. ALAÔR."

Eu sorri. Já fazia alguns meses que eu voltara a falar com meu pai. Ele andava muito doente e eu fui visitá-lo algumas vezes durante esse tempo. Nossa relação ainda não era a melhor de todas, mas eu sentia como se tudo estivesse perfeito. Conversamos muito, e apesar de nunca termos pedido perdão um ao outro, sinto que nos reaproximamos. Agora mantemos contato constantemente. Ele manda mensagens de celular e às vezes até liga. Depois que lhe contei tudo que aconteceu naquele último ano, ele não se mostrou muito empolgado, mas percebi que começou a perguntar constantemente por Luiza. Na última vez em que nos falamos por telefone ele inclusive me disse que tinha vontade de vir me visitar na capital e quem sabe conhecer "a menina". Ele nunca a chamava pelo nome, mas eu entendia seu jeito, e percebi nessa vontade de me visitar e de conhecer Luiza um grande avanço em suas relações.
Guardei o celular e recomecei a caminhar, pois já estava atrasado. Assim que me aproximei da casa do dr. Laerte, eu vi os balões coloridos ao longe enfeitando o quintal e o barulho de muitas crianças gritando e correndo pela grama.
Fiquei contemplando de longe e senti um brisa suave passar por mim, como se fosse o toque singelo de uma mão em meu ombro. Então eu disse:
- Você nunca me deixou sozinho, não é? - Eu recomecei a caminhar e assim que me aproximei da garagem, vi Luiza correndo junto com umas amiguinhas. - Viu como ela cresceu meu amor? E a cada dia se parece mais com você...
Assim que Luiza me viu, ela veio correndo e gritando:
- ALEX! - E ao chegar perto de mim pulou no meu pescoço.
Ao ver o embrulho em minhas mãos ela disse:
- Isso é para mim?
Eu a coloquei no chão e disse como ar sério:
- Claro que não! É de uma outra menina bonita que eu conheci e que faz aniversário hoje. Estou indo agora mesmo para casa dela lhe entregar o presente.
Por um momento ela me olhou meio assustada e até um pouco chateada, mas quando ela me viu sorrir zombeteiro, ela riu também. E eu disse:
- É claro que é para você, sua bobinha.
Ela agarrou o embrulho e já foi abrindo, rasgando sem cerimônia o embrulho que eu demorara horas para fazer. Eu ri.
Quando ela pegou o livro, se rosto se iluminou. Então ela se concentrou e começou a ler o título da capa:
- Co... cora... coração de din... tinta... Coração de Tinta - Ela disse triunfante. Eu sorri orgulhoso.
- Era um dos livros favoritos de sua mãe - Eu disse pensativo.
- Você vai ler ele para mim? - Ela perguntou empolgada.
- Claro que vou!
Então, agarrando o livro contra peito, ela correu de volta para a festa e foi mostrá-lo para as amiguinhas e para o avô.
Eu vi o dr. Laerte e a Dona Soraya de longe e acenei para eles. Eles sorriram para mim enquanto eu me sentava numa das mesas perto da entrada. Comecei a conversar com alguns dos outros convidados, pessoas que eu mal conhecia, mas que eram amigos e parentes da família.
Nesse momento, Luiza veio correndo, ainda com o livro na mão e me abraçando disse:
- Obrigado papai!
Ela me deu um beijo e se afastou correndo novamente.

Era a primeira vez que ela me chamava de papai...

FIM!

16 setembro 2010

[never alone] 7ª parte

2006, 2007, 2008, 2009...

Dias, meses, anos... Passaram como um piscar de olhos diante de mim. Eu não mais existia. Eu não mais vivia... Meu corpo sobrevivia... E eu percebi dia após dia meu mundo afundando pouco a pouco num oceano de dor e rancor. Mas a solidão não alimenta sentimentos tão fortes assim... E em pouco tempo eu me vi vazio, vagando pelo mundo como um espectro de homem, como uma sombra que desliza pelos corredores silenciosos do mundo, sem ser percebida por ninguém.
Pedro foi embora logo no final daquele ano, voltou para sua cidade para trabalhar com seu pai.
Eu me mudei para um pequeno apartamento num hotel barato à poucas quadras da lanchonete onde eu trabalhava.
E num ritmo lendo de trabalho, trancado no meu mundo, eu deixei que as coisas ao meu redor prosseguissem, sem me importar com o que acontecia, vivendo em meio aos meus livros, minhas lembranças, que nada mais faziam do que simplesmente manter aberta uma ferida que constantemente doía, mas que eu me acostumei a ignorar.

Maio de 2009

Quando o advogado se sentou, meu coração batia mais acelerado. Eu tinha a impressão de que ele vinha resgatar uma dor que eu não gostaria de reviver.
- Eu venho em nome da família Rodrigues. O dr. Laerte Rodrigues me contratou para encontrá-lo. Nós o procuramos durante muito tempo desde o acidente com o ônibus em 2006...
À medida que ele falava meu coração aos poucos ir batendo mais depressa. Eu não conseguia apreender suas palavras... Elas soavam confusas e distantes para mim... Até que o nome dela me trouxe de volta à realidade:
- A menina Luiza foi transferida para um hospital na capital assim que foi recolhida no acidente. Seu caso era grave e acharam melhor não deixá-la no hospital no interior. Você não estava usando seu nome verdadeiro quando deu entrada no hospital, não é mesmo? Alex Medeiros não é seu nome é?
- Não - Eu revivia com angustia cada um dos dias naquele hospital - Para não alarmar minha família, como eu estava sem documentação, meu amigo Pedro Medeiros me identificou como seu irmão no hospital, de maneira que meu pai não tivesse notícia do acidente - Eu me explica de forma mecânica, sem saber ao certo porque contava essas coisas para aquele homem. De repente parei de falar e disse:
- O sr. disse que Luiza foi transferida para a capital - Aquelas palavras saiam dos meus lábios como fogo - Ela ainda estava viva? - A expectativa da resposta me angustiava.
- Sim, ela teve graves lesões na cabeça e chegou ao hospital em estado de choque, mas logo recobrou a consciência. Ela havia perdido o movimento em parte do lado esquerdo do corpo e sua memória foi amplamente prejudicada. Mas ela desde o primeiro momento não parava de chamar seu nome. Devido a gravidade das suas lesões e da paralisia parcial, sua gravidez foi considerada de alto risco, principalmente porque ainda estava no começo. Porém os pais de Luiza não permitiram o aborto.
Em não conseguia assimilar o significado daquelas palavras. Era como se eu estivesse vivendo em um mundo irreal.
- Os meses se passaram em constante expectativa com relação ao estado de saúde de Luiza, nos quais ela permaneceu internada numa clínica particular para acompanhamento. Mas no sexto mês de gravidez, ela teve uma séria complicação e os médicos tiveram que fazer uma cesariana de emergência. A criança, prematura, foi removida direto para a UTI, e Luiza infelizmente não sobreviveu.
Eu não conseguia acompanhar. Durante tanto tempo eu me mantive preso a imagem de Luiza no ônibus, mas nunca o acidente ou sua morte fora tão real para mim.
- Você está mentindo - Foi tudo que eu consegui dizer em meio à um riso nervoso - Você está brincando comigo.
O dr. Morais me olhou com compaixão e estendendo para mim, levantou-se e disse:
- Venha comigo. Acho que você precisa conhecer alguém.

CONTINUA...