31 dezembro 2009

[e lá se vai 2009!]

Pensei em muitas coisas para o último post do ano, mas desisti da maioria das idéias que eu tive! Não porque eram ruins ou porque eu estava desmotivado, mas foi basicamente por falta de tempo. Tive um começo de férias bem conturbado, rs. Mas ainda vou fazer um post enorme de final de ano, hehehe...

Mas vamos falar de 2009! ;D

Este foi um ano de (re)descobrir e entender a graça de Deus, seu amor por mim e pelo mundo, seus planos e sonhos... E acima de tudo foi um ano para começar a mudar atitudes (nada fácil de se fazer...) e procurar amar de verdade aqueles que estão a nossa volta!

Um ano diferente: especial, intenso, único! Muitas coisas boas, algumas tristezas, mas fazendo um balanço geral de tudo que vivi nesses 365 dias, o saldo foi bem positivo, com muitas conquistas, principalmente na faculdade:


~ Meu primeiro 10 de média final numa disciplina da faculdade, e o melhor: foi em Estágio I! *.*
~ Aprovação em todas as disciplinas que fiz, e apesar da sobrecarga, terminei esse ano com excelentes notas! =D
~ Uma bolsa para trabalhar com minha professora de Didática num projeto sobre recursos didáticos!
~ Uma maior integração no curso, já que não me sinto mais deslocado. Fiz muitas novas amizades, fortaleci outras, e me sinto muito mais confiante!

Por estar em Goiânia na maior parte do tempo, me senti bastante sozinho e distante dos meus amigos, mas recebi algumas visitas inesquecíveis:

~ Lí, Lê, Dih e Will no começo do ano (como as coisas podem mudar tanto em poucos meses, einh?).
~ Erick (uma noite bem engraçada, einh brother?! ;D).
~ Hugo (meu irmão, cada dia foi especial e único! Obrigado por todo seu carinho e amizade).

Senti falta de alguns que prometeram me visitar (Mandy e Cris, ainda estou esperando vocês por lá no ano que vem!)




Li e reli ótimos livros, dentre os quais destaco e indico:

~ Retalhos - Graig Thompson
~ O Morro dos Ventos Uivantes - Emily Brontë
~ A Sombra do Vento & O Jogo do Anjo - Carlos Ruiz Zafón
~ Os Homens Que Não Amavam As Mulheres - Stieg Larsson
~ O Retrato de Dorian Gray - Oscar Wilde
~ Crepúsculo - Stephenie Meyer (apesar dos vampiros brilhando, aff's, gosto muito da personagem 'Bella'... Destacando que para mim esse é o único livro da série que é realmente bacana!)
~ Ensaio Sobre a Cegueira - José Saramago




Descobri e (re)descobri muita música de qualidade (na minha humilde opinião, é claro), como:

~ Panic At the Disco - Live In Denver
~ Eddie Vedder - Into The Wild
~ O Teatro Mágico
~ The Beatles - Red Box 1962-1966

~ Paramore - The Final RIOT!
~ My Chemical Romance - Three Cheers for Sweet Revenge
~ Los Hermanos - Lual MTV
~ Kris Allen
~ Jason Castro

Encontrei dois ótimos sites que se vocês não conhecem, não podem deixar de dar uma olhada:

~ O Skoob e o Meia Palavra

 

Escrevi muita coisa, e principalmente comecei a me aventurar no mundo dos contos. Escrevi alguns soltos:
~ [um conto...?!]
~ [conto de fadas]
~ [quem sobrevive?]
~ [o penhasco das promessas]
~ [quem entende?]
~ [pesadelos]
~ [histórias de terror]
~ [meu dia com ela]

E escrevi um em capítulos, [o sonho], cujos links estão aí barra lateral direita do bLog! Comecei a escrever outro, [alone], que já está no segundo capítulo (são os dois posts anteriores)! Se você que está acompanhando o bLog (e este posts imeeeeeenso que eu acho que ninguém vai ler inteiro... hehehe), ainda não os leu, e quiser ler, por favor, não deixe de comentar o que achou! A opinião de vocês é muito importante para mim!

Bem, é isso! Meu desejo para todos que passarem por aqui hoje é:

UM NOVO ANO CHEIO DE PAZ E DE MOMENTOS FELIZES!
UMA VIDA DE AMIZADE VERDADEIRA COM DEUS!
E A PROXIMIDADE FÍSICA E ACIMA DE TUDO (OU QUANDO A DISTÂNCIA EXISTIR) A PROXIMIDADE EMOCIONAL DAQUELES QUE VOCÊS AMAM!

MARAVILHOSO 2010, abarrotado de novas cores!!! ;D

Mandark, Andy, Deko ou simplesmente
André Gonçalves

 

18 dezembro 2009

[alone] 2ª parte

Vê-lo se afastar sem nem olhar para trás a fez cair num buraco de desespero! "Não pode acontecer novamente! Eu sou mesmo uma maldição!" Sentiu um ímpeto de gritar por ele, de correr atrás dele, mas a mão impositiva de Carlos ao seu lado a fez perceber que era melhor permanecer onde estava. Não foi atrás dele, mas soltando-se de Carlos, afastou-se procurando um lugar para pensar. Tudo tinha acontecido tão rápido.

Suas mãos suadas tremiam. A bolsa pendurada de lado com o caderno pesava mais do que deveria.

Desde a mudança, há quase duas semanas, a sua permanência constante dentro de casa lhe dera uma sensação de segurança que agora ela via se desfazer a cada passo que ela dava em direção aos portões da faculdade.
Ela insistira em trocar o curso, mas o pai e a mãe não tinham a menor intenção de deixá-la fazer isso. "Suas notas são altas o suficiente para que eles implorem para ter você na faculdade deles. E você não vai chegar a perder nem duas semanas inteiras de aula. E pelo que eu vi e conversei com o coordenador do seu curso, sua grade na antiga faculdade estava adiantada, então você não tem com o que se preocupar, vai conseguir acompanhar a turma perfeitamente..." e muitos outros argumentos vazios ela tinha ouvido durante todo o tempo que era obrigada a estar junto com os pais no mesmo espaço. No final ela sabia que era tudo por causa do dinheiro, sempre fora por causa do dinheiro!
Se isolava o máximo que podia, principalmente no novo quarto que ficava no andar mais alto da casa, no que ela chamava de 'seu sótão'. Seus livros e seu MP4 eram as únicas companhias que lhe ofereciam paz.
Agora, andando em direção ao prédio de História, sentia seu chão se abrir. Temia que acontecesse tudo novamente. Lembrou-se de Pedro, e seu coração foi tomado por uma dor lacerante. Queria abrir um buraco no chão para se esconder. Queria a liberdade que somente a solidão do seu quarto poderia oferecer.
Foi quando ela o viu! Ele descia as escadas apressado. Nem chegou a ver-lhe direito o rosto meio encoberto pelos cabelos soltos, mas pode sentir algo naqueles olhos vazios de relance. Era como se visse seus olhos no espelho. Encostou-se na árvore mais próxima e o viu deitar-se num banco para ler.
Ele gostava de Fernando Pessoa!
Ela sentia o impulso de se aproximar, vê-lo mais de perto. Era como se Pedro tivesse voltado dos mortos. Fechou os olhos e sentiu a cabeça doer...
"- SUA DESGRAÇADA! VOCÊ MATOU MEU FILHO!"
Ela ainda sentia ressoar na sua cabeça os gritos de acusação da mãe do Pedro. Ela abriu os olhos e tentou manter-se focada. Ela tinha que olhar para ele. Ela tinha ver de perto. E tomada de uma coragem fora do comum, se aproximou de onde ele estava.
Quando ele levantou o rosto para ela, tentou não parecer louca e disse sorrindo:
- Será que você pode me dizer onde fica a secretaria?
"Meu Deus, será que é possível?" Sua mente girava enquanto ela tentava se controlar para não correr para os braços daquele estranho rapaz que parecia ter trazido seu precioso Pedro do mundo dos mortos.

CONTINUA

12 dezembro 2009

[alone] 1ª parte

"Idiota!"
Minhas costas doloridas encostadas contra o pilar na entrada do prédio da faculdade de história me incomodavam como nunca. Olhava para o chão com o queixo apoiado sobre os joelhos enquanto enlaçava as pernas com os braços.
"Idiota!" Era a única palavra que passava pela minha cabeça para me descrever.

O suor escorria pelo meu corpo deixando uma sensação desconfortável. Eu não me mexia. O sol forte parecia ter feito todos aposentarem os casacos e calças. Uma torrente de bermudas, chinelos, shorts e camisetas cavadas parecia desfilar por toda a universidade.
De esguelha, eu via as pessoas passarem me olhando desconfiadas ou com risinhos abafados.
A jaqueta de couro parecia incomodar a todos, como se o simples fato de alguém parecer não se importar com o calor os afrontasse. Os cabelos compridos meio molhados de suor encobriam quase que completamente o meu rosto encovado e pálido. Todos passavam, olhavam, mas tão logo seguiam o seu caminho, pareciam se esquecer completamente do rapaz esquisito sentado no chão.

Eu percebi quando ela se aproximou. Senti sua presença, mesmo sem olhar. Levantei o rosto e a vi chegar acompanhada de um rapaz que logo percebi ser o seu namorado. Na mesma hora levantei-me do chão tão rápido que, cambaleante, tive que me apoiar na pilastra para não ir direto para o chão. Sacudindo a cabeça e recuperando o equilíbrio, apanhei a mochila e jogando-a nas costas, comecei a caminhar para o lado oposto ao deles. Eu podia sentir o "espere" se projetando nos lábios dela, enquanto eu pisava forte indo para lugar nenhum, procurando a liberdade que só o isolamento poderia me proporcionar.

Caminhei durante um bom tempo sem olhar para lugar nenhum a não ser para os meus tênis sujos que avançavam obstinados na tentativa de colocar o máximo de distância entre mim e Luísa. Ao lembrar do nome dela, minhas mãos se fecharam com força, e eu pude sentir as unhas compridas contra a palma da mão quase ao ponto de a fazerem sangrar.
Quando dei por mim, estava quase nos limite do bosque que circundava a faculdade. Procurando um espaço mais largo entre os arames da cerca que delimitava o terreno, passei para o outro lado, entrando na mata fechada, caminhando entre teias de aranha e troncos caídos até encontrar uma clareira pouco iluminada.
Sentei-me no chão jogando a mochila longe e pela primeira vez desde criança, chorei, socando o chão para aliviar minha raiva.
Sentindo as lágrimas escorrerem pelo meu rosto e descerem pelo pescoço, fechei os olhos e deitando o corpo de lado, comecei a pensar e sonhar. Lembranças começaram a encher a minha mente e logo eu perdi a consciência...
Saí da sala mal a professora fez a primeira chamada.
Os corredores vazios da prédio me acalmavam. Fui até o meu armário pegar o livro do Pessoa, e descendo as escadas, me dirigi até ao banco que ficava em baixo da mangueira logo na entrada no prédio, e deitando-me de costas sobre ele, continuei a leitura do fragmento que havia lido na tarde anterior. O céu nublado e o vento frio típico dessa época do ano me agradava.

Ouvi o som de passos se aproximando de onde eu estava e com uma irritação evidente por causa da intromissão, larguei o livro de lado e olhei na direção do som. Por um momento, parei de respirar.
- Será que você pode me dizer onde fica a secretaria? - Ela disse sorrindo.

CONTINUA

03 dezembro 2009

["to do" list] (03/12 - 11/12)

Tô entrando de recesso do blog por causa do final do semestre!

1. Terminar o artigo de História Ed. Matemática.
[ok]
2. Digitar o trabalho de Didática III e preparar apresentação.
[ok]
3. Escrever o artigo final de Didática III. [ok]
4. Estudar para a prova de Fundamentos de Análise. [ok]
5. Estudar para a avaliação de História Ed. Matemática.
[ok]
6. Digitar meu relatório de Estágio I.
[ok]
7. Organizar minha folha de frequência de Estágio I. [ok]
8. Escrever artigo sobre o Piaget para o ENEM.
9. Preparar minha apresentação do Livro do Piaget para a bolsa.
[ok]
10. Colocar a leitura bíblica em dia.
11. Terminar de Ler "Budapeste" e "O Alienista".
12. Pegar as novas músicas selecionadas para Igreja. [ok]
13. Arrumar o quarto.
[ok]
14. Lavar o banheiro. [ok]
15. Lavar todo o restante da louça e ajeitar a cozinha. [ok]

¬¬

30 novembro 2009

[Tristão & Isolda]


My face in thine eye, thine in mine appears,
And true plain hearts do in the faces rest,
Where can we find two better hemispheres
Without sharp North, without declining West?
What ever dies, was not mixed equally;
If our two loves be one, or, thou and I
Love so alike, that none do slacken, none can die.

A minha face nos teus olhos, e a tua nos meus, aparecem,
Que os corações veros e simples nas faces se desenham;
Onde poderemos encontrar dois melhores hemisférios,
Sem o agudo Norte, nem o declinado Oeste?
Só morre o que não foi proporcionalmente misturado,
E se nossos dois amores são um, ou tu e eu nos amamos
Tão igualmente que nenhum abranda, nenhum pode morrer


John Donne - The Good Morrow (tradução:
Helena Barbas)

Ontem assisti o filme "Tristão & Isolda"... Um belo filme, na minha opinião com um belo final (que com certeza não agradou a todos)! No decorrer do filme, o pequeno fragmento do poema de John Donne é lido por Isolda... E eu particularmente, fiquei encantado com as palavras e em como elas se encaixaram bem no contexto do filme!

Fica aqui minha indicação do filme!

Abraço!


25 novembro 2009

[meu dia com ela ou 'o dia dela']

Meu dia de folga nunca é 'meu dia'. Mal amanheceu ouvi a porta do quarto ranger e o som de pezinhos apressados se aproximando da cama. Minha esposa já havia saído para o trabalho, então me virei e ocupei o centro da cama de casal, fingindo dormir, roncando alto. Seus movimentos eram ágeis e logo senti seu corpinho deitando ao meu lado, esperando pacientemente pelo momento em que eu acordaria. Não a deixei esperando, dando-lhe um grande susto, a agarrei pela cintura e a levantei no ar, ouvindo sua gargalhada estridente e contagiante.
- Paaaaara papai! - Ela disse em meio aos risos com uma alegria incontida por eu não tê-la feito esperar demais.
Nos levantamos. Enquanto eu preparava uma vitamina no liquidificador, ela passava margarina em duas fatias de pão de forma e as colocava na torradeira. Não pude deixar de rir ao vê-la em cima de um banquinho na ponta dos pés tentando alcançar o pote de biscoitos. Eu observei durante alguns segundos e vi quando ela com muito sacrifício, mas muito satisfeita consigo mesma, pegou os biscoitos e os trouxe até mim:
- Viu só? Eu já consigo pegar no lugar mais alto da prateleira. Nem preciso mais de ajuda. Já sou grande! - Disse toda orgulhosa!
- Você é minha menina grande, a mais linda de todas - E dando-lhe um beijo na testa, joguei o conteúdo do liquidificador numa jarra, e pegando as torradas, fomos para a mesa tomar nosso café.
Ao sentar, servi a vitamina em dois copos grandes e coloridos e quando me preparava para tomar, ela gritou com urgência:
- Paaaaiiiii... A gente nem orou!
Envergonhado do esquecimento, juntei as duas mãos como havia ensinado para ela, e juntos recitamos a oração que ela já sabia de cor.
Com um ressoante 'amém', ela disse com um suspiro:
- Agora sim, podemos comer! - E devoramos tudo em poucos minutos.
Ela fez questão de se arrumar sozinha. Então relutante fui tomar um banho e esperei para ver o resultado de toda essa autonomia.
Quando cheguei ao quarto dela, ela estava com sua melhor roupa de passeio, o tênis branco com os cadarços amarrados e tentava com muita dificuldade prender os cabelos. Eu bati na porta discretamente e entrei ouvindo os protestos dela:
- Ainda não estou pronta! Eu consigo fazer sozinha!
- Me deixe pelo menos amarrar seu cabelo! Se você não me deixar fazer alguma coisa, vou me sentir um completo inútil! - Eu disse fazendo um bico.
- Tudo bem, vou deixar você amarrar o cabelo pra ficar feliz!
Sorrindo, me sentei na beira da cama e ela se aproximou de mim e virando de costas, me entregou o elástico. Prendi os cabelos dela e olhando no espelho que estava diante de nós, pensei em como o tempo passava depressa. Ela já tinha cinco anos, ou 'quase seis' como ela gostava de afirmar desde o dia seguinte ao seu aniversário. A abracei e fazendo cócegas, a virei para mim e disse:
- Hora de escovar os dentes mocinha!
E carregando um banquinho até o banheiro, a coloquei sobre ele e escovamos os dentes juntos.

Em frente a nossa casa havia uma linda praça muito arborizada e um playground onde íamos em todas as minhas manhãs de folga. Ela entrou correndo pela abertura lateral na grade e foi diretamente para um dos balanços que ficava logo na entrada. De longe eu a observei subir e balançar as perninhas freneticamente (como eu havia ensinado) em busca do movimento. Em poucos segundos ela já estava balançando toda sorridente. Senti o coração apertado ao lembrar dos dias em que eu tinha que empurrar o balanço enquanto ela gritava 'mais alto, mais alto'. O tempo realmente passava muito depressa.
- Não balance tão alto, ok? - Eu disse num tom protetor sentando-me ao seu lado e começando a balançar lentamente.
- Tá com medo, papai? Quer ver como eu balanço muito mais alto do que o senhor? - Dizendo isso começou a se esforçar mais ao movimentar as pernas.
- Vamos ver então? - E com empolgação comecei a balançar cada vez mais alto.
- Não vale, o senhor é maior!
- Tudo bem - E dizendo isso pulei para fora do balanço ainda em movimento e parei em pé.
- O senhor me segura? - Ela perguntou rapidamente!
- Sempre - Eu disse me colocando em frente a ela.
E assim que parei, ela soltou das correntes e se jogou em meus braços confiante. Girando-a no ar algumas vezes, por fim a coloquei no chão e me deitei de costa sobre a grama.
- Você acabou comigo. Não tenho mais forças para te acompanhar!
Sentado sobre a minha barriga, ela ria e me chamava de velhinho.
Por fim, ela deitou ao meu lado e começamos a olhar as nuvens branquinhas no céu estranhamente azul e começamos a imaginar que tipo de imagens as nuvens estavam formando.
- Aquela parece um macaco, não parece papai?
- Sim, e aquela, não parece a sua vó? - E rindo muito, lembramos da minha sogra que apesar de ser muito baixinha, gostava de usar imensos chapéus de palha.
- Parece o chapéu que ela usou no Natal - Ela disse gargalhando. Eu gostava da cumplicidade que compartilhávamos. Falávamos sempre sobre tudo e de todos, tínhamos nossos segredos que só não eram secretos para a 'mamãe', que sempre 'descobria tudo' (ela passava horas contando e inventando as aventuras que tínhamos nas nossas manhãs). Continuamos nesse jogo rindo durante quase uma hora.

- Está na hora de entrarmos!
- Ah não, pai! - Disse ela subindo em mim para me impedir de levantar. Pegando-a pelas pernas, levantei a carreguei nos ombros de volta para casa.
- Temos que fazer o almoço para você comer antes de ir pra escola e para sua mãe que vai chegar moooooooooooooooooorta de fome, rs.
- Ebáaaaaa... Vou ajudar? - Ela se entusiasmou.
- Claro? Você acha que dou conta de fazer tudo sozinho sem a ajuda da minha menina grande?

A coloquei sentada no balcão da cozinha e comecei a cozinhar, sempre pedindo que ela me ajudasse com alguma coisa, como observar se eu não estava fazendo alguma coisa errada enquanto comia uma maçã. Entre uma mordida ou outra ela gritava, sempre me assustando e rindo das caretas que eu fazia.
Assim que coloquei tudo no fogo, vendo que já estava tarde, mandei que ela fosse tomar um banho e se aprontasse para o colégio. Preparei a lancheira dela, bem como sua mochila.
Enquanto ela terminava de se vestir, minha esposa chegou:
- O que os meus amores estão aprontando em casa? - Ela saiu correndo só de meia pela casa e se jogou nos braços da mãe enchendo-a de beijos - O que vocês fizeram hoje?
Ela passou a relatar as aventuras da manhã da sua maneira inventiva e cheia de detalhes inexistentes. A mãe ouvia tudo com muita atenção ainda carregando-a nos braços.
Ao entrar na cozinha ela me deu um beijo e colocando Luíza no chão, nos sentamos para almoçar.
Oramos novamente e ela comeu sem parar de falar um segundo, sobre o seu 'grande dia com o papai'.
Assim que terminou de comer, ainda sem parar de falar, fomos os três escovar os dentes juntos. Apertados diante da pia, riamos e sujávamos o espelho de pasta de dente.
Quando Sara terminou de se aprontar, eu acompanhei as duas até o carro estacionado em frente da casa. Cada uma me deu um beijo. Coloquei Luíza no banco de trás com o cinto e ajeitei sua mochila e a lancheira ao seu lado. Bati a porta e me inclinei no banco do motorista para dar mais um beijo em Sara.
- Eu não ganho mais um beijo também não? - Luíza parecia indignada, mas logo caiu na gargalhada.
Como a janela estava fechada, ela encostou a bochecha no vidro e eu o beijei sentindo o gosto de poeira. De dentro do carro ela ria e acenava enquanto eu limpava a boca.
- Até mais tarde meu amor! Vocês busca a Lu depois?
- Claro! Pode deixar.

Vi o carro partir com as duas mulheres da minha vida dentro dele e senti meu coração pequeno de saudade e de preocupação.
Entrei e me sentei na bancada da cozinha. Por um instante me senti velho e um pouco cansado, mas sorrindo pensei que jamais poderia estar mais feliz. Fechei os olhos e agradeci silenciosamente a Deus.

24 novembro 2009

[Histórias de terror]

Não sabia quanto tempo mais suportaria. As mãos tremiam e todo o seu corpo parecia prestes rasgar, tamanha a dor que ele sentia. Já estava a mais de 70 horas acordado. Arrastou-se até a janela para olhar a cidade. Tudo que enxergava eram casas destruídas e pessoas mortas. Com coração dolorido de remorso, sentou-se no chão frio. Não se permitia o direito de nenhum conforto, nada que pudesse lhe trazer refrigério.
A arma estava ainda dentro da gaveta. Sabia que não teria coragem de acabar com sua própria vida. Torcia com todas as forças para que os poucos moradores que ainda restavam viessem para matá-lo, mas nada aconteceu. Já se passaram mais de três dias depois do incidente, e desde então não ouvia nenhum som vindo da cidade. Sabia que ainda havia sobreviventes, mas o mundo parecia ter se calado. Não ouvia pássaros e nem o som de nenhum tipo de animal próximo da mansão. Acreditava que toda a vida o havia abandonado. Deus o havia rejeitado, e nem mesmo o diabo o acolheria.
Com os olhos baixos, começou a observar seu escritório. Todos os livros rasgados, páginas e páginas de todo a sua obra se tornaram apenas papéis espalhados pelo chão. Tantos anos de produção destruídos. Mas seu olhar pousou sobre o livro aberto sobre a mesa. A prova do seu maior crime, a causa de todo o seu tormento. Tudo começara há dois dias atrás quando acordou assustado numa dessas madrugadas quentes de abril...

O suor escorria pelo seu rosto e com os olhos injetados olhava para o teto. Ainda tinha em mente o pesadelo que o atormentara. Sentia como se carregasse o peso de muitos sacos de cimento, e então decidiu escrever aquilo que o atormentava. Cada imagem vívida em sua lembrança agora ele derramava no papel com sua escrita rebuscada e empolgante. À medida que enchia páginas e mais páginas com a descrição detalhada de seu pesadelo, era como se o peso o abandonasse gradativamente. Os demônios que haviam tirado seu sono agora habitavam as páginas do que ele pensava que poderia tornar-se um novo livro. Quando percebeu já amanhecia e ele enchera mais de 200 páginas com uma história que tinha começo, meio e fim. Nunca escrevera dessa forma, sem pausas, sem revisões constantes. E por um instante sentiu-se... Vazio! Apesar de ter passado a maior parte da noite acordado e trabalhando não sentia sono. E então percebeu que não se recordava de nada do que havia escrito. Com era seu hábito desde criança, pôs-se a ler sua história em voz alta.
Tratava-se da história de um jovem fazendeiro que fora rejeitado e ridicularizado na frente de toda a cidade por causa de uma jovem por quem ele se apaixonara. Para vingar-se, ele vendera sua alma para o demônio e com a ajuda desde e de um exército de espíritos imundos, invadiu e destruiu toda a cidade, para depois ter sua vida carregada para o inferno enquanto sua amada jazia morta na entrada da cidade. A jovem tirara a própria vida após constatar a morte da sua família e descobrir quem causara toda aquela destruição. Na medida em que passava as páginas, sentia que o ambiente a sua volta escurecia e logo adormeceu sobre as últimas páginas de sua nova história.
Acordou assustado por causa dos gritos dos empregados que anunciavam que a cidade estava sendo atacada. Ao olhar pela janela de seu quarto, na ala mais alta da casa, o que viu foi exatamente a reprodução de seu livro, até o ponto em que o lera. Toda a sua obra começou a percorrer-lhe a mente e logo se viu consciente de ver reproduzida, nos jornais locais das últimas semanas, a maioria das suas histórias por jovens que ele considerava loucos fã de suas histórias de assassinato e loucura, e sentiu suas pernas bambearem. A sensação de responsabilidade pelos últimos acontecimentos tomou conta de seu corpo quando percebeu seus livros tomando forma diante de seus olhos. Desesperou-se e passou a destruir toda a sua obra com as próprias mãos. Seus empregados haviam desaparecido por conta da sua loucura.
Agora se encontrava totalmente perdido entre milhares de páginas rasgadas. Não abria a porta para ninguém. Penitenciava-se constantemente e seu corpo já refletia o peso da falta de sono e de alimento. Com o olhar injetado de dor e culpa, voltou até gaveta procurando o maço de cigarros, um último alívio diante de tanto terror. Não percebeu como o fogo começou, mas com o cigarro nos lábios, viu as páginas ao seu redor virarem cinzas e com calma dirigiu-se até a janela e observou a cidade e seus moradores que pareciam viver a vida alheios a suas preocupações. Com um sorriso no rosto, e o cigarro entre os dedos sentiu as chamas cobrirem seu corpo...

Ninguém sabia como o fogo havia começado. Os empregados haviam sido dispensados de seus serviços há muitos meses. Nas manchetes dos jornais a notícia do influente escritor de histórias de terror que havia morrido queimado num acidente em sua casa. Havia boatos de que enlouquecera e que ele mesmo havia colocado fogo na casa.
Poucos meses depois foi publicado um livro que ele escrevera antes de sua morte. O original da história fora encontrado intacto perto da entrada da propriedade no dia do incêndio. Contava a história de um jovem fazendeiro...

21 novembro 2009

[o sonho] FINAL

As semanas que se seguiram passaram rapidamente. Mudança, arrumação da nova casa do seu irmão, além das idas ao banco. Precisava organizar sua vida financeira e preparar-se para colocar o pé na estrada. O tempo passou sem que ele se desse conta. Ele tentava, com algum sucesso, manter longe da mente, qualquer coisa além da sua viagem.
Com a venda da casa dos seus pais e as economias que fez durante o ano de trabalho no restaurante, tinha condições de ficar na estrada bem mais de um ano. Poderia conhecer boa parte do Brasil com uma mochila nas costas. E era exatamente isso o que ele pretendia fazer.
E foi numa sexta-feira que ele partiu, deixando a promessa de sempre ligar para dar notícias e mandar por e-mail as fotos de todos os lugares que iria conhecer.

Foi um ano de grandes aventuras que acabou se prolongando por mais dois. Foram mais de 13 estados visitados, trabalhos temporários, belos lugares e outros nem tanto. Foram pessoas, amigos, amores. Foram noites dormindo em rodoviárias ou bancos de praça. Mas quando ele finalmente voltou para casa, foi com um mochila cheia de lembranças, saudades e muitas histórias para contar. Tinha os cabelos mais uma vez compridos, a barba por fazer, algumas cicatrizes e não mais o corpo magro e franzino de adolescente. O rapaz que saiu de casa tornara-se um homem.
Seu irmão o recebeu de braços abertos junto com Sara. As primeiras noites foram regadas a vinho, fotos, muitas risadas e algumas lágrimas. Mas na terceira noite, a conversa seguiu um rumo inesperado.

- Ju, já preparei tudo - Seu irmão dizia entusiasmado - Arrumei um emprego muito bacana para você na empresa. E como é meio período, se quiser, pode inclusive voltar a estudar!
- Irmão, eu vou me mudar para São Paulo com alguns amigos. Só vim aqui para ver vocês.
- Como assim? - Sara parecia alarmada - Você acabou de voltar para casa.
- Eu amo vocês, mas aqui já não é mais minha casa. É de vocês. Aqui sou apenas uma visita.
- É claro que é sua casa! - Seu irmão parecia irritado e decepcionado.
- Já tem alguns meses que me juntei a um grupo que toca na noite. Estamos correndo atrás de patrocínio e nossa próxima parada agora é a capital paulistana. Mano, é minha chance de viver da música como eu sempre sonhei!
- Mas... - E baixando a cabeça - Eu só queria meu irmãozinho aqui com a gente de novo - Disse emocionado.
- Pow brother, 'irmãozinho' pega mal.
Todos riram.
- Tem razão, saiu daqui um moleque e voltou um homem.
- Então, um homem que voltou a sonhar e que está tentando achar seu lugar.
- Você vem nos visitar, não é? - Foi a vez de Sara se emocionar, mesmo que sorrindo.
- Claro cunhadinha! Acha mesmo que eu deixaria vocês em paz? Essa vidinha de vocês aqui é muito chata. E no final das contas, foi como eu disse uma vez: Pra onde mais eu iria quando tudo der errado? - E rindo, continuaram a conversar durante boa parte da madrugada ,fazendo planos.

- Julián, a Lizzy ligou alguns dias atrás - Sara disse isso com um tom despreocupado - E perguntou por você.
- Foi mesmo? - Julián tentou parecer o mais impassível que pode.
- Sim, e disse que ela e os pais estão mudando mais uma vez de casa. Eu anotei o novo endereço e coloquei agora pouco sobre a sua cama, junto com o telefone novo que ela me passou.
- Pow Sara, obrigado mesmo! Depois eu pego lá.
- De nada - E com um risinho, Sara se afastou.

Alguns dias depois, mais uma vez ele estava colocando o pé na estrada. Era o começo de mais um aventura.

1 ano depois...

Eram quase 6 horas da manhã e o bar ainda estava cheio. O turno deles havia acabada às 5 horas, mas, a pedido do dono do bar, eles ainda estavam tocando. Quando finalmente terminaram de tocar o pedido de um carinha chato, que havia passado boa parte da madrugada gritando: "Toca Rauuuuuuuuuuuuuull...", começaram a recolher os instrumentos.
Algumas pessoas começaram a pagar suas contas e ir embora, enquanto alguns entusiasmados pediam por mais um canção.
Sorrindo, Julián largou a guitarra e, pegando o violão, foi até o microfone e perguntou se poderia tocar uma breve canção de amor para despedir a galera. Uns bêbados gritaram de alegria.
- Essa música não é conhecida, mas foi escrita por uma moça que um dia eu conheci, e mudou a minha vida.
De repente Julián tremeu. Não entendia por que tinha dito isso, ou mesmo porque escolheu aquela canção para tocar, mas quando começou, percebeu que aquela música jamais saíra da sua mente, mesmo depois de tantos anos.

"Você me fez sorrir com suas confusões
Me brindou com a doçura de sua voz
E pelos acordes de seu violão
Eu pude alcançar a tristeza do seu ser [...]

Seja a minha voz e faça nossa história ressoar..."

Quando terminou, alguns choravam, outras vaiavam, e uns poucos batiam palmas descompassadas, seguidas de gritos de "música de corno"... Por um momento Julián ficou pensativo, mas em seguida desatou a rir por causa dos gritos e disse:
- Obrigado pessoal! Vocês são a melhor plateia do mundo! - E virando-se, começou a guardar os instrumentos com o pessoal.
Assim que terminaram de recolher os instrumentos na van, Julián disse que precisava caminhar. Com o case da guitarra na mão, seguiu pela rua que ainda parecia estar acordando.
Enquanto caminhava, viu de relance uma bela moça de cabelos vermelhos passando de carro. Seus lábios esboçaram um grito que foi engolido e tornou-se um sussurro:
- Lizzy...
Ele sorriu e recomeçou a caminhar. Naquele momento ele percebeu que, mesmo que o tempo tenha passado, seu mundo nunca deixou de ser um pouco mais 'vermelho'.
E parando em frente a um café, entrou para comer alguma coisa. Queria chegar em casa, poder finalmente dormir e, quem sabe, sonhar, mais um vez, com uma menina de cabelos vermelhos.
Sentou e depositou o case sobre um banco ao seu lado. Olhou para um telefone público que ficava ao lado do balcão. Quando pegou a carteira para pagar a conta, viu um papel amassado, onde tinha um endereço e um telefone escritos.
Uma coisa ele havia aprendido nesses últimos anos: sonhar é bom, mas correr atrás dos sonhos é ainda melhor. E colocando o papel sobre a mesa, perguntou para atendente:
- Vocês vendem cartão telefônico?


FIM

20 novembro 2009

[o sonho] 8ª parte

Estar postado no altar como um pinguim o fez sorrir. Mas seu sorriso desapareceu quando ele a viu entrar na igreja. Usava um lindo vestido de verão azul bem claro. Tinha os cabelos em trança, caindo sobre o ombro esquerdo. "Linda" era a única palavra que se passava em sua mente, enquanto ele a via entrar, sorrindo para ele e sentando-se bem no meio da nave da igreja. "Eu realmente não mereço esse sorriso". E foi com esse pensamento que ele viu seu irmão entrar na igreja. Desviou dela a sua atenção, apesar de não conseguir tirá-la da mente.
Tudo passou muito rápido. Ele parecia alheio e distante quando se sentou na recepção. Queria estar feliz por seu irmão, e estava. Porém, queria poder demonstrar mais animação. Quando a viu entrar no salão, levantou-se. Sem saber o que fazer, correu até os outros rapazes e começou a fazer graça com todos, evitando qualquer proximidade com ela, que se sentou com um olhar decepcionado.

A festa transcorreu rapidamente. Logo percebeu que estava realmente se divertindo com seus amigos e seu irmão. Seu irmão parecia muito feliz de vê-lo participar da algazarra e aproximando-se dele num momento. Beijando-o disse:
- Te amo maninho!
- Também amo você brother - E sorrindo, disse - Você sabe como desejo que você e a Sara sejam felizes, né?
- Então complete nossa felicidade e venha morar conosco - Disse ele abraçando-o.
- Achei que já tivéssemos conversado sobre isso tudo, né? Já sou bem grandinho e vocês precisam de espaço e tempo. E eu estou há muito tempo querendo mochilar por aí - Disse com um olhar zombeteiro.
- Sabe que sempre vai ter um pra quarto na nossa casa, né?
- Conto com isso! Pra onde acha que eu vou correr quando der tudo errado? - Abraçados, foram para perto do videokê cantar uma música juntos.

Depois de dançar uma música com a Sara, sentou-se, cansado, em um canto perto da mesa de bolo.
- Será que eu posso me sentar aqui?
Ele tremeu ao ouvir aquela voz tão familiar. Parecia não ter mudado nada desde a última vez em que haviam se falado.
- Claro - Disse ele sorrindo e levantou-se para abraça-la - Você está simplesmente linda! A Universidade fez milagres em você, sardenta!
Em meio as risadas, eles sentaram.
- Você também está bem melhor! O cabelo mais curto fica bem em você - Ela disse, bagunçando o cabelo armado de gel dele.
Desviando das mãos dela, ele gritou:
- Vai estragar meu penteado!
Mesmo sentados e rindo, os dois se abraçaram e ficaram durante alguns segundos.
- Senti a sua falta - Ela disse por fim - Onde está a felizarda que te roubou de mim? Sua carta fez uma propaganda tão boa dela, que eu esperava conhecê-la.
Muito sem graça ele respondeu:
- Ela não pôde vir. Está viajando com os pais. Um problema com alguns parentes - Ele tremia a voz diante da mentira.
- Hum - Ela disse - Que pena. Eu gostaria realmente de conhecê-la. Mas me fale o que tem feito nesses últimos meses? Pouco nos falamos. Conte-me tudo!
- Não, minha vida não mudou desde a última carta. Você é que deve estar cheia de novidades, e vai me contar todas agora.

A tarde passou e veio a noite. A maioria dos convidados já tinha ido embora. Julián e Lizzy ainda riam alto e conversavam como se jamais tivessem se separado. Decidiram sair para caminhar, largando o salão da igreja para os poucos voluntários que estavam dispostos a ajudar na limpeza.
Rindo muito, sentaram-se em um dos bancos da praça.
- E quantos dias vocês vão ficar? - Julián perguntou ansioso.
- Vamos embora amanhã - Ela disse tristemente - Meu pai volta a trabalhar e eu tenho aula na segunda-feira bem cedo.
- Que pena - Ele disse desviando o olhar.
- Acho que meus pais já devem estar chateados. É melhor eu voltar para o hotel. Me acompanha? - Ela perguntou ansiosa.
- Claro - Ele disse levantando-se e lhe oferecendo o braço. Caminharam em silêncio durante alguns minutos. Quando se aproximaram da entrada do hotel, ela se virou para ele:
- Saber que você está namorando e me esqueceu me deixou muito triste - Ela disse, fazendo um bico.
- Hum - Ele engasgou - Eu não estou namorando. Eu menti!
- Eu sabia! - Ela declarou triunfante - Você sempre foi um péssimo mentiroso Sr. Julián!
Rindo do ar triunfante dela, ele a abraçou com força. Tentou beijá-la, mas ela recuou.
- Julián, não!
- Mas você acabou de dizer...
- Eu sei o que eu disse. Mas minha tristeza não quer dizer que as coisas vão voltar a ser o que eram. Eu sei muito bem o que se passou na sua cabeça nesses últimos meses. Nós nos afastamos gradativamente. Você se afastou de mim por causa da minha faculdade, dos meus novos amigos.
Ele se afastou dela de forma defensiva.
- Então não entendo porque voltou! E, principalmente, não entendo o porquê disso tudo que aconteceu nessa noite! Você só tornou tudo mais difícil.
- Eu quero que sejamos amigos de novo, como aconteceu essa noite! Sem outras expectativas.
- Se era isso que você queria, fez tudo errado. Você, pelo jeito, sabe que eu não consegui te esquecer. E não é só amizade que espero de você!
- Mas você nunca soube lidar com a distância. Eu sei que mesmo que firmemos outro compromisso aqui e agora, vai acontecer tudo de novo.
- Então por que voltou? Por que isso tudo? Eu estava conseguindo superar. Você acha que depois de hoje vai ser tudo mais fácil?
- Eu pensei que podíamos conversar e sermos apenas os bons amigos que sempre fomos...
- Pois pra mim a coisa não funciona assim! Bem, aí está uma coisa boa nisso tudo! Todas as minhas esperanças acabam aqui. Só me prometa que não vai me procurar mais, ok?
- Mas...
- Sem 'mas'! Apenas vamos seguir nossas vidas...
E virando de costas, começou a caminhar de volta para o salão, com o rosto molhado de lágrimas. Enquanto isso, Lizzy permanecia em pé, na frente do hotel, com um olhar distante.


CONTINUA

12 novembro 2009

[o sonho] 7ª parte

Acordou em um susto!
O corpo suado e os olhos ainda meio doloridos. Olhou o relógio do celular e ao constatar que ainda estava muito cedo, recostou novamente a cabeça no travesseiro, jogando o edredom de lado e encarando o teto. Começou a refletir no sonho que tivera. Não se lembrava de detalhes, mas sabia que mais uma vez era sobre a Lizzy. Sempre com ela, sobre ela. Aqueles cabelos vermelhos dominavam sua mente desde aquela tarde na árvore. Mas essa noite o sonho havia sido diferente. Uma dor chata no peito fazia-o lembrar que fora a ausência dela no seu sonho que lhe incomodara essa noite. Lembrou-se da carta que postara na tarde anterior para ela.

Esse último ano havia sido difícil e ao mesmo tempo interessante. As mensagens de celular, os e-mails, os telefonemas e as cartas perfumadas tinham sustentado seus dias de expectativa. Todas essas correspondências, cheias de bobeiras apaixonadas, haviam sido uma constante nos primeiros meses, rareando aos poucos, mas nunca deixando de existir. Apesar de não admitirem, cada um começou a seguir a vida sem o outro.
Assim que ela foi embora, a escola tornou-se um fardo pesado demais. Terminou o último ano do Ensino Médio sem grandes méritos. Estava desesperado para se afastar daquele ambiente irritante e cheio de lembranças ruins.
Contra a vontade de seu irmão e da própria Lizzy, pois ambos queriam que ele tentasse uma Universidade, ele começou a trabalhar em um restaurante do Centro durante a noite. De dia, quando não estava dormindo, começou a dar algumas aulas particulares de violão e guitarra. Seu dia a dia era tedioso e sem grandes mudanças.

Com Lizzy as coisas haviam ocorrido de uma maneira diferente. Assim que se mudou, por causa de suas boas notas, conseguiu uma vaga em um dos melhores colégios de São Paulo. Fora um ano corrido e cheios de expectativas para ela, principalmente no que dizia respeito ao vestibular. As conversas com ela logo começaram a irritá-lo. Vê-la avançar, enquanto sua vida continuava estacionada, era decepcionante. Queria fazer algo para merecer a companhia dela, algo do qual ela tivesse orgulho. Mas quanto mais pensava, mais desmotivado parecia ficar. Ela fizera novas amizades e a aprovação no vestibular logo no começo do ano o alegrara e o afastara, instintivamente. Passou a não atender mais o telefone. Respondia as mensagens de celular de maneira cada vez mais seca e evasiva. Logo a distância tornou-se mais real quando ela desistiu de insistir.
Quando se deu conta, estava chorando, molhando o travesseiro. No seu sonho, ela desistira de vez dele.

As semanas seguintes foram as mais difíceis que ele enfrentou. A notícia do casamento do seu irmão, pegou-o de surpresa e o desestabilizou completamente. Mesmo com a insistência de seu irmão para que ele morasse com ele e a Sara depois do casamento, Julián sabia que não era isso que queria pra si mesmo e nem para seu irmão recém-casado.
A confirmação da vinda da Lizzy e sua família (seu irmão os convidou sem nem mesmo consultá-lo) para o casamento, conseguiu deixá-lo ainda mais assustado com o que o futuro guardava para ele. Principalmente depois da carta que ele mandara para Lizzy. Nela, ele contava do suposto 'namoro' que ele começara com uma jovem novata na cidade.

Três meses passaram num sopro e logo se viu, diante do espelho, fazendo a barba com uma longa lâmina que pertencera ao seu pai. Faltavam apenas algumas horas para o casamento.
Sobre o vaso sanitário ele ainda via brilhar no celular a mensagem de texto:

"CHEGUEI! ESTAMOS EM UM HOTEL NO CENTRO! NOS VEMOS ANTES DO CASAMENTO? LIZZY"

Olhando o espelho, contemplou durante alguns segundos o smoking pendurado na parede. Olhou para a lâmina e depois desviou o olhar para as cicatrizes, agora já quase desaparecidas, dos seus pulsos. Sentou-se na beira do vaso e ficou contemplando o brilho da lâmina que refletia a luz da lâmpada do banheiro.

CONTINUA

06 novembro 2009

[o sonho] 6ª parte

- Apenas feche os olhos e confie em mim! - Disse Lizzy segurando o braço de Julián e empurrando-o.
- O que vc está aprontando? - Ele perguntou sorrindo.
- É uma surpresa! Se eu contar, perde totalmente a graça! Então cale-se e simplesmente caminhe - Disse ela empurrando-o com mais força, mas sem largar seu braço, guiando seu caminho.
- Tudo bem, tudo bem! - Ele disse rindo, levantando os braços numa posição de rendição.
- Você é uma gracinha! - Lizzy disse dando um beliscão leve na cintura dele.
- Ow! Isso doeu! - Disse ele se contorcendo e fazendo cara de vítima, mas ainda de olhos fechados. Os dois riram e continuaram caminhando, agora em silêncio.
Julián pegou a mão de Lizzy e apertou-a, ainda deixando-se levar por ela. Ele sorria enquanto pensava na últimas semanas. Cada segundo que passaram juntos desde o dia da chuva havia sido mágico e intenso. Mesmo com a constante sombra de uma despedida, ele não se arrependia de nenhuma das atitudes que tomaram. Aquele segundo 'primeiro beijo' havia acabado com todas as suas dúvidas. Tudo que ele sabia era que queria estar com ela o máximo de tempo que pudesse.
- Pronto - Disse ela, soltando-o e parando em sua frente. Dando-lhe um beijo, disse - Pode abrir os olhos.
Assim que abriu os olhos, ele viu o sorriso mais lindo do mundo, emoldurado pelos cabelos vermelhos soltos, balançando ao vento, e, por um instante, não pode desviar seu olhar daquele rosto.
Aos poucos, percebeu que estavam perto da mesma árvore onde haviam se encontrado pela primeira vez. Lizzy havia estendido uma colcha vermelha sobre a grama e carregava uma enorme cesta.
- Piquenique? - Ele perguntou sorrindo.
- Também! - Ela disse sentando-se na colcha e arrumando o vestido sobre as pernas - Também!
Ela o chamou com um sorriso e ele deitou-se, pousando a cabeça em seu colo. Ela olhava-o sorrindo e afagava seus cabelos suavemente.
- Assim vou acabar dormindo - Ele disse, rindo para ela.
- Eu fiz algo para você!
- Doce de banana? - Ele perguntou com um risinho maroto.
- Não! - Ela disse batendo em seu ombro. Mas, puxando a cesta, tirou de lá uma vasilha plástica cheia de pequenas barras de doce de banana.
- Ah! - Ele sorriu esticando a mão.
- Agora não! - Ela disse - Primeiro tenho algo para te mostrar. Mas você tem que prometer que não vai rir de mim. - Disse ela seriamente.
- Nunca - Disse ele cruzando os dedos sobre os lábios!
- Então feche os olhos novamente, senão acho que não tenho coragem! - Disse ela ainda muito séria.
- Estou ficando com medo.
Mas, fechou os olhos rapidamente. Depois de alguns segundos de silêncio, ele pode ouvir uma voz suave, cantando uma canção.

Você me fez sorrir com suas confusões
Me brindou com a doçura de sua voz
E pelos acordes de seu violão
Eu pude alcançar a tristeza do seu ser.
O seu olhar distante, de mim se aproximou
E me mostrou um mundo além
Além da minha infância, além da sua dor
E me mostrou quem eu gostaria de ser.

Me deixa te levar como meu espelho
Como meu caderno de recordações
E deixa que eu fique perto de você
Como a foto sorridente na carteira.

E então eu serei muito mais feliz
E jamais esquecerei que nem os anos
Nem a maior de todas as distâncias
me fará perder o caminho
Seja meu farol, e continue a brilhar
Para que um dia eu posso em sua luz me guiar
E mais uma vez em seus braços me entregar.

Seja a minha voz e faça nossa história ressoar...

Ainda com os olhos marejados, ele a viu sorrir timidamente, com um envelope em suas mãos. Agarrando-a pelos pulsos, levantou-se com ela nos braços e a beijou demoradamente. A tarde passara rápido e o sol já começava a se esconder.
Agora, deitados, ele a tinha nos braços, aquecendo-a do vento frio. Permaneceram assim, até que a última luz do dia se desfez no horizonte. O brilho das estrelas tornou-se mais forte.
Sem palavras, ela levantou-se. Deixando-o sentando, caminhou em direção a árvore.
Ao seu lado, ele achou o envelope. Nele Julián encontrou a foto de uma linda menina, sorridente em uma praia. Junto da foto, a letra da canção que ela cantara, escrita à mão. Ele guardou o envelope no bolso. Levantou e foi até onde ela estava.
Ela olhava para o local onde ele, com um canivete, havia desenhado as iniciais dos seus nomes no caule da árvore. Abraçando-a por trás, sussurrou-lhe:
- Você me devolveu a vida!
Virando-se para ele, e tomando sua mão, ela sorriu:
- E você me ensinou a viver!
E juntando as coisas, eles caminharam de volta para casa.

...

Olhou para o carro descendo a rua até desaparecer. Sentou na calçada, olhou para a casa agora vazia, e não pode deixar de sentir uma forte dor no peito.
Ainda demorou alguns minutos antes de levantar e começar a caminhar de volta para sua casa. Quando estava chegando, sentiu o celular vibrar. Ao abrir a mensagem de texto, não pode deixar de sorrir:

"NADA DE CORTAR OS PULSOS, EINH? AMO VC. SE FIZER BESTEIRA DE NOVO, FAÇA DIREITO. SE NAUM MORRER, EU VOLTO AQUI SOH PRA TERMINAR DE MATAR VC! =*"

E rindo, entrou em casa digitando uma resposta:

"SE ISSO FIZER VC VOLTAR, PODE PEDIR PRO SEU PAI DAR MEIA VOLTA QUE JAH ESTOU COM A FACA DE CARNE NAS MÃOS. ELA TÁ MEIO CEGA, ENTÃO... RS. TB AMO VC!"

E ainda sorrindo, entrou em casa e fechou a porta.


CONTINUA

03 novembro 2009

[Let's Just Fall In Love Again] Jason Castro

Eita, que além do filme do Dorian Gray [trailer aqui], estou super ansioso também pelo lançamento do CD do Jason Castro! ;D
Eu o conheci pelo 'youtube' no ano passado, quando ele ainda era um dos concorrentes do American Idol... Meu primo achou a versão da música "Over The Rainbow" que ele cantou no programa... E gostei demais do estilo dele!
E o CD do rapaz saí agora esse mês! =D
A música de trabalho é muito gostosa de ouvir! E enquanto o CD não chega, deixo aí pra vocês o vídeo e a tradução dela, que são bem bacanas!
Abração e em breve a continuação de [o sonho]! xD



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Vamos fingir, baby
Que você acabou de me conhecer
E que eu nunca te vi
Eu vou dizer aos meus amigos
Que acho que você está me olhando
E você diz o mesmo aos seus
E dançaremos ao redor disto a noite toda
E então eu te seguirei lá pra fora
E tentarei abrir minha boca
E nada sairá direito
E eu quero me apaixonar por você de novo
Eu não tenho que tentar
É tão fácil
Quem precisa fingir?
Mas porque é tão engraçado
Vamos pensar nisto, querida
Vamos nos apaixonar de novo
Eu te ligarei em três dias
Não muito cedo, não muito tarde
E eu perguntarei à sua colega de quarto se você está em casa
Você me liga na quinta
E nós vamos passar o dia todo juntos
E depois adormecer falando ao telefone
E eu pegarei na sua mão enquanto dirigimos
E nós perderemos a noção do tempo
E contaremos a todos
Que nunca nos sentimos tão vivos
E eu quero me apaixonar por você de novo
Eu não tenho que tentar
É tão fácil
Quem precisa fingir?
Mas porque é tão engraçado
Vamos pensar nisto, querida
Vamos nos apaixonar de novo
Nos apaixonaremos repugnantemente rápido
E pararemos de sair com os amigos
E eles ficarão tão ofendidos
E eu quero me apaixonar por você de novo
Eu não tenho que tentar
É tão fácil
Quem precisa fingir?
Mas porque é tão engraçado
Vamos pensar nisto, querida
Vamos nos apaixonar de novo
Vamos nos apaixonar de novo
Então, vamos nos apaixonar de novo