A música o despertou do sono vespertino. Seu corpo suado incomodava seus movimentos, e depois de acordado não conseguiu mais voltar a dormir. Virou algumas vezes na cama até finalmente se sentar com os pés balançando. A música suave era acompanhada por uma voz bastante empolgada. A careta de descontentamento foi inevitável. Para evitar qualquer chateação, foi para o banheiro, e ligando o player do celular no volume máximo, deixou a voz envolvente do Marcelo Camelo, em seu trabalho com a Banda do Mar, encobrir o ambiente. Ligou o chuveiro, deixou o vapor embaçar o espelho e sentou no chão, com o corpo encostado na parede, enquanto aproveitava a canção de olhos fechados:
"Faz tempo eu quero descansar / E ver as coisas por aí / Viver conforme o que vier / Só precisar do que eu tiver..."
Ele se deixou ficar assim ainda por alguns minutos antes de finalmente se despir e entrar debaixo da água quente que lhe queimava as costas. Foi um daqueles banhos que duram quase uma hora, até ficar com os dedos enrugados. Pegou o celular com a mão molhada e teve dificuldade de desligar a música enquanto se enxugava.
Quando saiu do banheiro, percebeu que a casa estava em completo silêncio. Com um sorriso triunfante ele exclamou, correndo para o quarto enrolado na toalha:
- Graças a Deus! Finalmente só!
Vestiu uma bermuda e mesmo sem camiseta, pegou o livro de "adolescente" que estava lendo e foi para sala deitar no sofá, sentindo o calor grudento de uma tarde quente de sábado. Ter a casa só para si era a melhor parte dos sábados.
A leitura fluía muito bem, mas o calor foi lhe envolvendo e logo o livro foi esquecido e sua mente adentrou num mundo de sonhos conturbados. Livros, viagens, personagens de séries de TV, amigos de infância, colegas de trabalho e algumas celebridades, todos misturados em minutos que pareceram horas de muita confusão. Despertou com o barulho do carro parando na garagem, e quando viu a hora no visor do celular, pulou assustado do sofá, apagando da memória todas as aventuras em seus sonhos, enquanto corria pra tomar uma ducha antes de sair. Iria ao cinema com os amigos. Trinta minutos depois, ele já estava caminhando para a parada de ônibus.
- Nota mental: me penitenciar por não dirigir - Disse suspirando e sentando no banco de concreto enquanto aguardava a condução.
Quando o ônibus despontou na ladeira, ele se levantou com a mochila nas costa e deu o sinal. Era o único passageiro naquela hora, mas sentou no fundo, encostado na janela com os pés sobre o banco, lendo as últimas páginas do livrinho adolescente. Quando terminou ainda não havia chegado ao shopping. O sol se fora e só havia mais uns três passageiros dentro da condução. Olhando a hora mais uma vez no visor do celular percebeu que estava atrasado.
- Putz - Para não dizer coisa pior - que merda - Acabou dizendo uma coisa um pouco pior. O bipe de mensagem piscou:
"JÁ ESTAMOS ENTRANDO NA SALA. QUANDO CHEGAR, AVISA QUE SAÍMOS COM SEU INGRESSO NA PORTARIA."
Sempre o último a chegar.
- Maldito medo de dirigir!!
Já tinham passada mais uns 10 minutos quando finalmente desceu na parada do shopping.
- Perdi os trailers... Aff!
Correndo para a entrada lateral próxima da bilheteria do cinema, pensou: "Típico sábado de merda!" enquanto sentia o suor escorrendo pelas costas.
- Nada está tão mal que não possa sempre piorar! - Disse enquanto percebia a camiseta com duas rodas de suor debaixo dos braços.
Quando chegou a portaria das salas de cinema, tirou uma blusa de frio da mochila e a vestiu, tentando disfarçar o suor, sob os olhares reprovadores das pessoas ao redor. Ignorando todos, digitou a mensagem e esperou.
Quando viu seu amigo se aproximar com uma aparente irritação por ter sido arrancado da sala durante a sessão, pensou: "Espero que o filme valha todo esse sacrifício". Pegou o ingresso, entrou mostrando a carteirinha e foi seguindo seu amigo sem muito ânimo.
"Ainda bem que esse sábado está chegando ao fim."
Então finalmente entrou no "escurinho do cinema".
