26 abril 2012

[o clube do livro] - 5ª parte


[Alex]

As diferenças não são nada quando se tem um objetivo em comum.

Alex olhava pela janela, vendo as últimas nuvens de chuva se desfazerem em meio aos raios tímidos de sol que despontavam atrás dos prédios. Sua mente viajava pelo tempo.

Ele via Marina sentada na mesa da sala com o notebook aberto, fuçando o Facebook, enquanto tagarelava com Andrea sobre um episódio que aconteceu no elevador no dia anterior, enquanto gargalhava histericamente. Alex nunca entendeu como ela conseguia fazer tantas coisas ao mesmo tempo: o trabalho, a casa, a irmã mais nova e ainda arrumava tempo para ler tanto ou até mais do que ele, que era um vagabundo de marca maior. Ela morava com a irmã num apartamento no Centro e cuidava de tudo. Fazia faculdade de direito, e ainda namorava um chato de galochas chamado Jaime. E tinha apenas 23 anos. Como ela conseguia. Alex já tinha 21 anos e não tinha a mínima ideia do que faria da sua vida.

Ele se lembrava perfeitamente da primeira vez em que a viu: na fila do banco. Ela estava carregando umas 6 sacolas, falando no celular e tentando passar pela porta giratória enquanto o guarda gesticulava que nem um louco tentando informar para ela que ela deveria desligar o celular e deixá-lo na abertura para passar. Enquanto isso uma fila de pessoas impacientes se reunia atrás dela. Quando ela finalmente atendeu aos apelos ao seu redor, conseguiu passar, mas não sem reclamar e falar, falar, falar e falar...
Quando ela chegou na fila, exatamente atrás dele, depositou todas as sacolas no chão e começou a falar:
- Penso que todos esses bancos deveriam passar por uma urgente reforma estrutural, não concorda? Eu passo horas dentro de bancos todos os dias e não consigo me acostumar com toda confusão de portas, filas, detectores de metal. Tudo tão pouco prático, tão complicado. Eu estava em uma ligação de extrema importância e tive que desligar abruptamente e sem muitas explicações. Sério que tem apenas 2 caixas para atender todas essas pessoas da fila? - Depois de uma brevíssima pausa, ela olhou para o livro que estava em suas mãos e em seguida para o seu rosto (que devia ser de um completo paspalho) e gritou: - NÃO ACREDITOOOO!! VOCÊ TAMBÉM ESTÁ LENDO "AS RUÍNAS"?? E eu achava que só eu no mundo inteirinho conhecesse esse livro. Eu o estou relendo agora mesmo. - E sacando o outro livro da bolsa, quase o esfregou na cara de Alex. E pegando o livro dele, começou a folhear, buscando a página em que ele estava. - Você tá quase junto comigo. A gente podia começar um clube do livro, né? Já estamos  lendo o mesmo livro. Podíamos marcar de nos encontrarmos no final de semana para discutir o livro. O que acha?
Ele ouvi todo esse diálogo em completo silêncio, com o rosto mais vermelho que um pimentão. Todos no banco olhavam para eles, mas ela parecia não perceber ou pelo menos não se importava nem um pouco. Ela o olhava com muita expectativa e quando ele se deparou com seu questionamento final tudo que pude fazer foi simplesmente balançar a cabeça positivamente, com medo de uma recusa causar uma situação ainda mais constrangedora.
- Pronto, sábado nos encontramos. Até lá você já terminou de ler, né? Porque eu termino ele ainda hoje ou amanhã.
E foi assim que o clube começou. A amizade de Alex com Marina, por mais improvável que parecesse, foi se consolidando e com o tempo, as diferenças entre eles pareciam não ter mais importância e logo vieram outros livros, outros encontros e novos membros para o clube.

Ele ainda olhava pela janela, quando viu Pedro entrando no prédio.

[CONTINUA]

[de volta...]


A primeira vez em que conversamos eu não podia nem imaginar que já nos conhecíamos. Sua aparência me atraiu, seu gosto musical me seduziu... E depois de alguns minutos de conversa percebi que seu jeito doce já havia me cativado. Mesmo quando passamos algum tempo sem nos falar, volta e meia eu me pegava pensando...

As coincidências e semelhanças entre nós chegavam a me assustar. Em poucos dias eu podia dizer que estava simplesmente viciado em sua presença, eu seu carinho e atenção. Esses são alguns dos perigos da solidão e da carência: facilmente nos apegamos as pessoas e logo o apego vira necessidade e essa necessidade torna tudo ainda mais confuso.

É só quando você percebe que perdeu a noção do tempo, que deixou de realizar tarefas cotidianas, que as coisas ao seu redor perderam a importância... É só nesse momento que o que era mágico começa a tomar contornos trágicos.

Eu me vi completamente desligado da minha realidade, perdido em um sonho que jamais se realizaria. Foi nesse momento que resolvi colocar os pés no chão e abrir mão. Mas como é difícil abrir mão de algo que em pouquíssimo tempo havia se tornado para mim quase como o ar: impossível viver sem. E depois de diversas tentativas, vi aquilo que amo partir. Parece ridículo falar em amor, mas é a única palavra que consigo utilizar para descrever o que senti... O que ainda sinto.

Então voltei para minha realidade.
Voltei para onde estava tudo fora do lugar, onde não me sentia mais acolhido e seguro. Tudo pelo qual batalhei, tudo que construí com anos de renúncias simplesmente perdeu o valor. As pessoas já não estavam mais aqui, pelo menos não verdadeiramente. Aliás, acho que eu não estou mais aqui.

Não sei mais o que fazer, não sei mais o que dizer. Desde que voltei para a minha realidade, eu vivo meio que "no piloto automático", agindo, falando, respondendo a estímulos básicos, vendo as pessoas passarem, ficarem, voltarem, partirem enquanto eu continuo na mesma: sozinho e vazio.

Preciso recomeçar. Na verdade tudo o que eu preciso mesmo é pelo menos descobrir como.