
Com o tempo eu percebi que os meus sonhos de criança se perderam junto com os meus brinquedos. Acabaram no lixo ou mesmo na mão de outra criança. Assim como eles, meus sonhos foram aos poucos sendo substituídos por outros mais novos, mais modernos.
Os brinquedos deram lugar aos livros infantis e estes, gradativamente deixados de lado, foram trocados pelas histórias de terror... E da mesma forma os novos sonhos tornaram-se pesadelos... E o que era doce e embalava meu sono tornou-se amargo e me mantinha acordado, com medo de fechar os olhos.
Quando era criança costumava conversar com amigos imaginários, percorria mundos fantásticos e detinha poderes incríveis e invencíveis. Com o passar dos anos o mundo real sorrateiramente foi tentando calar as vozes dos meus amigos, e de certa forma ele conseguiu.
Foram anos sombrios e silenciosos, onde raros eram os sussurros que eu ainda conseguia ouvir.
Cresci, envelheci, "amadureci" e me vi caminhando em marcha acelerada para uma longa estrada de desesperança, onde nada havia de fantástico e meus poderes deixaram de existir. Como uma "kriptonita" a realidade foi minando minha força de vontade e persistência. Da inocência da infância pouco restou para mim. Meus olhos foram desvelados para muita coisa, inclusive para a obscuridade da alma humana. Qual o preço de crescer?
Meus amigos voltaram! E hoje, ao invés de criança criativa sou o homem louco que fala com fantasmas. Será que alguém um dia vai compreender? Escondo-me em meus livros, e a música abafa meus gemidos. Cresci e o caminho já não posso mais voltar.
Sou dois em um: o homem perdido e o menino feliz, o menino confuso e o homem autossuficiente! O homem com sua maturidade e verdades batalhando contra o garoto com sua ingenuidade e seus mágicos poderes.