Sinto-me como que afundando em um imenso fosso escuro, que me cobre, absorve minha existência, e não me deixa sair, por maior o esforço que eu empreenda.
Quanto mais luto, mais forte parece ser a pressão que a escuridão da minha própria alma exerce sobre mim. Meus erros somam-se aos meus maiores medos e fazem de mim refém de uma vida cada vez mais sem sentido.
Não enxergo salvação em nenhuma ação provável de minha parte e a cada instante, sinto-me mais e mais preso numa situação em que meus membros estão entorpecidos pela falta de movimentação, paralisados.
Espero desesperado pela ação externa que venha me resgatar dessa situação, pois a cada dia que passa, é como se o peso das minhas falhas me fizesse afundar mais e mais em um abismo de escuridão.
Minha família, meus amigos, todos a minha volta, são como milhares de mãos que agarram-me e tentam resgatar-me, puxando-me para a liberdade. Mas uma força de igual, ou maior intensidade talvez, procura manter-me preso, agarra-se a mim com o intuito de manter-me atado a escuridão, sem me permitir ver a luz.
Sem forças até mesmo para estender minha mão ao céu, espero uma intervenção divina, porém sem esperança, na certeza de que tudo depende exclusivamente de uma atitude minha, um grito de socorro, um pedido de perdão que resguardo em meu coração, sem coragem de pronunciá-lo, por medo de tornar público minhas vergonhas e falhas.
E assim espero o final da história, ciente de que ainda estou vivo por causa daqueles a quem eu amo e que me agarram com força, mesmo sem saber, e me mantém a deriva, enquanto a escuridão pouco a pouco vai se adensando sobre mim.
"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente."
O ano vai se aproximando do fim e a gente começa a pensar em algumas coisas...
Em como a simples mudança de um calendário na parede reflete tão fortemente em nós...
Um ciclo se fecha... Mais um se inicia...
Só espero que no ano que vem, nesse mesmo período, eu não esteja sozinho mais uma vez...
QUE VENHA 2011!!
- E o que você fez? - Ela perguntou ansiosa.
- Eu fui para quarto e tranquei a porta. Enfiei na mochila algumas roupas, livros, CDs e o discman junto com algumas pilhas que estavam jogadas pela mesa. Juntei toda a grana que tinha dentro das gavetas e pulei a janela. Aquela foi a última vez que vi meus pais.
- Pra onde você foi quando saiu de casa?
- Fui para a rodoviária, peguei um ônibus para a capital e fiquei lá durante alguns dias.
- Onde você ficava? Como?
- Durante o dia eu vagava pela cidade, caminhava procurando lugares para conhecer e sempre arrumava uns bem tranquilos para passar a noite. Você encontra muita gente ruim nas ruas. Mas existem pessoas boas também.
- E você não ficava com medo?
- Você aprende a lidar com muita coisa, inclusive com o medo. No começo não é fácil, mas a necessidade ensina você a sobreviver.
- Não sente falta de casa?
- O tempo te faz esquecer de muitas coisas. Os dias e as noites sozinho me fizeram perceber o quanto as coisas boas foram eclipsadas pelas ruins enquanto eu estava em casa. Hoje posso dizer que não tenho boas ou más lembranças em relação ao meu passado, simplesmente não penso mais nisso. Vivo cada dia da minha vida um após o outro, sem pensar no que foi e sem sonhar com o que vai acontecer.
- Parece um jeito tão estranho de se viver, em sonhos, esperanças, planos...
- Quando você se frustra muito, percebe que essas coisas são apenas muletas que te impedem de viver plenamente.
- Você fala como se fosse um velhinho de mais de 80 anos, sabia? - Ela disse sorrindo sem graça.
- Eu me sinto assim às vezes.