
Acordou assustado, o grito ainda ecoando pelas paredes vazias do quarto. Suas mãos frias e suadas amparavam o rosto desfigurado de dor. Podia sentir entre os dedos as lágrimas quentes que ainda escorriam. Arquejava meio sem ar. E apesar da angustia que dominava seu coração, ele não conseguia lembrar-se do sonho. Simplesmente nada.
Mesmo com o grito, ninguém aparecera. A casa estava vazia e os vizinhos mais próximos estavam distantes. Distantes o bastante para não ouvir nem mesmo seus CDs de rock, mesmo quando ligados no último volume. Estava sozinho.
Assim que recuperou o controle de sua respiração, levantou-se e caminhou descalço até o banheiro. Encarou o espelho sobre a pia do banheiro durante alguns minutos e, mesmo assim, não conseguia reconhecer-se. As olheiras, marcas das noites mal dormidas, estavam emolduradas por um rosto magro e fundo. Se não fosse a barba por fazer, seria uma cópia perfeita da máscara do assassino dos filmes da série "Pânico". Fez uma careta em forma de "O" com a boca. Coçou o rosto barbudo, sorrindo diante da comparação.
Sentiu o peso do celular no bolso de trás da calça de moletom e o retirou para confirmar a hora. 7h38. Atrasado! Despindo a roupa sem jeito, entrou correndo no box, deixando o primeiro jato de água fria levar embora qualquer resquício de sono. Lavou-se rapidamente e, ainda debaixo do chuveiro, escovou os dentes sem muito cuidado.
Assim que saiu do banho, correu para procurar uma roupa no cesto do corredor. Qualquer uma que não estivesse tão amassada e nem fedendo. Uma calça jeans preta com rasgos nos joelhos, que sua mãe odiava, compôs, junto com uma camiseta cinza sem mangas, o conjunto mais adequado. Pegou uma maçã dentro da geladeira e, agarrando o case da guitarra sobre mesa da cozinha. Desceu as escadas da varanda, pulando alguns degraus, e foi buscar a bicicleta na garagem. Com o case nas costas, saiu sem nem fechar o portão. Subiu a rua pedalando com toda a força.
Quando chegou na casa de Tiago, jogou a bicicleta num canto da calçada. Sentou no chão para recuperar o fôlego. Já podia ouvir os rapazes afinando os instrumentos. Olhou a hora no celular: Treze minutos de atraso. Com um sorriso, empurrou a bicicleta, a encostou no muro e, passando a corrente, a trancou com o cadeado. Foi até a porta da garagem já esperando ouvir as reclamações de Tiago e Felipe sobre seus atrasos. Mas tudo que ouviu foi Felipe afinando o baixo, Tiago arrumando a bateria e seu novo pedal duplo e... Uma guitarra? Abriu a porta com um baque e não gostou nada do que viu.
CONTINUA!



