09 dezembro 2011

[o clube do livro] - 2ª parte

[Marina]

- Ir ao banco depositar o dinheiro para a tia Carmen e pagar algumas contas. Passar no supermercado e comprar papel higiênico. Estar livre até as 16 horas para participar da reunião de pais da Clarice. Comprar o presente de aniversário do Jaime. E o que mais? Parece que estou esquecendo alguma coisa!
Enquanto caminhava em volta da mesa da cozinha, Marina enumerava todas as suas tarefas em voz alta, repassando seu trajeto, tentando não esquecer nada do que tinha para fazer. Assim que se convenceu de que não estava esquecendo de nada, escreveu uma lista com essas tarefas em um bloquinho de papel que ficava em cima do balcão que separava a sala da cozinha em seu minúsculo apartamento. Pendurando a alça da bolsa no ombro, ela saiu apressada batendo a porta.

Antes mesmo de chegar ao elevador, voltou correndo ao apartamento para buscar os boletos que esquecera sobre a mesa. E quase correndo, voltou a sair do apartamento, batendo a porta atrás de si. Meio minuto depois, Marina voltava xingando. Entrou mais uma vez no apartamento, e dessa vez, indo até a sala, agarrou o livro que estava entre as almofadas do sofá. Mesmo nervosa como estava, ao pegar o livro, seu semblante se suavizou. Colocou-o cuidadosamente dentro da bolsa e saiu mais uma vez retomando a pressa de antes. Trancou o apartamento e saiu em direção ao elevador.
Enquanto via a numeração se aproximar do seu andar, ela batia nervosamente o pé no chão e tamborilava os dedos na lateral da perna em um mesmo ritmo acelerado. Consultando o horário no celular, quase gritou quando a porta do elevador se abriu, assustando uma senhora idosa que já o ocupava:
- Aahhhh!!! Caraca, já são 14h48! Desculpe o grito, é que eu não podia estar tão atrasada!!! - E mal entrou, apertava o botão da garagem inúmeras vezes de maneira quase desesperada - Ai, e essa porcaria de porta que não... - Mas se interrompeu ao ver a porta se fechar a ao observar a face aterrorizada da senhora que se espremia num canto do elevador quase com medo de se aproximar de Marina.
Então sorrindo docilmente, Marina abriu a bolsa e retirando um pacote de chicletes, o estendeu para a vizinha:- A senhora aceita um chiclete??

Quando chegou ao banco o relógio marcava 15h03 e seu humor estava cada vez mais alterado, mas nada comparado ao instante em que ela observou a fila gigantesca que se formava diante da área de caixas eletrônicos. Era possível ver o tremor de suas mãos.
Retomando o controle de sua mente depois de alguns segundos, Marina se afastou dos caixas eletrônicos e foi em direção a porta giratória. Assim que começou a atravessá-la, ouviu um apito e ela travou com um baque. Voltou depositando o celular no compartimento ao lado da porta e sorrindo para o guarda voltou a atravessar com rapidez, para mais uma vez ouvir o apito e bater com a cara no vidro da porta que travou mais uma vez. Saindo novamente, foi até o compartimento e já muito irritada começou a esvaziar a bolsa. Chaves, relógio, guarda-chuva, moedas. Ela teria enfiado a bolsa dentro do compartimento se ela coubesse. Assim que o guarda observou seu nervosismo, se dirigiu a ela e a mandou atravessar a porta. Rapidamente ela correu e atravessou a porta já se dirigindo até a máquina que liberava as senhas dos caixas, enquanto o guarda a chamava:
- Senhora, suas coisas - Ele falava apontando para o compartimento ao lado da porta rotatória - A senhora esqueceu de recolher suas coisas.
Envergonhada e irritada ela voltou jogou todas a coisas dentro da bolsa. Quando se voltou novamente para a máquina e percebeu que um homem estava pegando a senha que seria sua, sentiu vontade de gritar mais uma vez, mas se conteve ao perceber que o guarda e mais alguns funcionários a observavam. Abaixando a cabeça e dando um profundo suspiro, ela disse ao guarda:
- Muito obrigada!
Foi até a máquina e pegou uma senha: 438.
Ao chegar na área de espera para os caixas, ela se sentou na primeira cadeira vazia e olhou para o monitor que mostrava as senhas e os caixas disponíveis: 394.
Desanimada, ela olhou mais uma vez para o relógio: 15h11.
Recostando na cadeira, ela olhou ao redor e suspirando mais uma vez, fechou os olhos durante alguns segundos. Quando tornou a abrir, um sorriso triunfante se formou em seu rosto e sacando o livro de dentro da bolsa, disse com alegria:
- Vou conseguir ler pelo menos uns dois capítulos!
Sentindo que todos a olhavam com espanto e estranheza, ela declarou:
- Sou louca. Não se importem comigo.
E então retomou a leitura exatamente de onde havia parado no sofá na noite anterior. Em poucos segundos já nem se lembrava mais dos compromissos, das filas, senhas ou mesmo das pessoas que ainda a olhavam de rabo de olho. Ela estava em outro mundo.

[CONTINUA]

07 dezembro 2011

[o clube do livro] - 1ª parte

[Alex]

Alex não lembrava a última vez em que conseguira dormir uma noite inteira. Ligou o aparelho de som com um volume bem abaixo do normal para não acordar seus pais e foi sentar próximo da janela. A noite estava clara e fazia muito calor. Abriu o vidro e sentiu uma leve corrente percorrer o ar abafado do quarto. Estava apenas de cuecas e tinha as costas e as pernas grudentas de suor. A luz do poste enchia o quarto, então ele pegou o livro sobre a mesinha e retomou a leitura apoiando os pés no parapeito da janela.
As páginas passaram e com elas os minutos e logo as horas também. Quando percebeu os primeiros sinais do amanhecer atrás do prédio em frente a sua casa, largou o livro marcando a página com um cartão telefônico e foi deitar mais uma vez. O relógio do celular mostrava 5h47.
Jogou as cobertas no chão e deitou de costas na cama, com as mãos atrás da cabeça, olhando para o teto. Não demorou para que todo o quarto logo fosse tomado pela luz do sol que já estava acima do prédio da padaria.
Decidiu levantar de uma vez e pegando a toalha pendurada atrás da porta do quarto, foi tomar uma banho. A água gelada parece renovar um pouco das suas forças, então quando saiu do banheiro estampava um sorriso de satisfação.
O resto da casa ainda dormia, e ele imaginava que não despertariam até bem depois das 10h. Era assim todos os sábados.
Vestindo o jeans surrado que usara durante boa parte da semana e uma camiseta roxa que ganhara aquela semana, ele desceu as escadas ainda com os cabelos molhados, pingando no chão por onde ele passava.
Calçou o tênis preto que estava na varanda, e pegando a mochila sobre a bancada da cozinha, a encheu de frutas e alguns pacotes de biscoitos que encontrou no armário e voltou para o quarto. Pegou o livro que estava lendo, o dinheiro que sobrara do dia anterior e o celular com o fone de ouvido ainda plugado e saiu trancando a porta.

Quando saiu de casa, olhou o céu azul sem nuvens e pensou em voltar para buscar os óculos escuros, mas acabou não voltando. E assim ele saiu caminhando pela calçada observando a rua que começava a ganhar vida.
Andou quase 30 minutos até chegar ao parque municipal, onde se dirigiu até uma área arborizada mais ao fundo do parque, onde costumava sentar para ler. Recostou-se nas grandes raízes de uma mangueira e sacando o livro e um pacote de biscoitos, começou a comer enquanto retomava já em dos últimos capítulos do livro.

Leu até terminar. O final da história trouxe certo incômodo, e o fez pensar em como certas histórias pareciam revelar muito do que ele mesmo havia passado. Pensou nas semelhanças de seu próprio caráter e o do protagonista da história que acabara de ler e começou a matutar sobre as possibilidades de ter um desfecho tão ou até mais triste do que o do personagem. E foi com essas divagações em mente que começou a percorrer os olhos pelo parque que ganhara vida enquanto ele estava mergulhado em seu livro.
Pessoas corriam em volta do lago, outros passeavam com seus cães e alguns outros se exercitavam perto da fonte. Mas seus olhos foram capturados pelo rapaz que estava sentado num dos bancos perto da entrada. Ele também lia um livro. Parecia alheio ao movimento em seu redor de tão concentrado que estava em sua leitura.
Imediatamente sua curiosidade se acendeu, e a necessidade de descobrir o título do livro que tão fortemente prendia a atenção daquele jovem tomou conta dele. Guardou o livro e os restos do biscoito na mochila, e levantando-se apressadamente, começou a caminhar em direção ao banco onde o jovem estava, tentando de todas as formas enxergar o título do livro. Porém o jovem tinha o livro apoiado sobre os joelhos, mantendo o título inacessível.
Sem pensar duas vezes, ele passou pela frente do jovem e sentou-se ao seu lado. O rapaz, como que despertado de um transe, levantou os olhos do livro com uma careta de desagrado. Abrindo um sorriso de desculpas, Alex estendeu a mão para o rapaz:
- Desculpe interromper sua leitura. Meu nome é Alex.
O jovem o olhou com um ar desconfiado, e sem estender a mão de volta ele disse:
- Se estiver vendendo alguma coisa, não estou afim de comprar nada, ok?
- Não, não é nada disso - Disse Alex sorrindo. - Sei que vai parecer loucura, ,mas eu só queria saber o título do livro que você está lendo tão concentrado.
Ao ouvir a explicação, ele ficou em silêncio durante alguns segundos e então começou a gargalhar, fazendo Alex rir sem graça. Então ele estendeu a mão e disse ainda rindo:
- Meu nome Fábio. - Fechou o livro sobre o colo e o estendeu para Alex - Pelo jeito você é mais um viciado em livros que não pode ver ninguém lendo sem descobrir que livro é, né?
Pegando o livro muito sem graça, ele respondeu:
- É, acho que você me pegou.
- Não se preocupe - Disse Fábio - Eu sou do mesmo jeito!
E rindo juntos, eles começaram a conversar animadamente.

[CONTINUA]