24 novembro 2009

[Histórias de terror]

Não sabia quanto tempo mais suportaria. As mãos tremiam e todo o seu corpo parecia prestes rasgar, tamanha a dor que ele sentia. Já estava a mais de 70 horas acordado. Arrastou-se até a janela para olhar a cidade. Tudo que enxergava eram casas destruídas e pessoas mortas. Com coração dolorido de remorso, sentou-se no chão frio. Não se permitia o direito de nenhum conforto, nada que pudesse lhe trazer refrigério.
A arma estava ainda dentro da gaveta. Sabia que não teria coragem de acabar com sua própria vida. Torcia com todas as forças para que os poucos moradores que ainda restavam viessem para matá-lo, mas nada aconteceu. Já se passaram mais de três dias depois do incidente, e desde então não ouvia nenhum som vindo da cidade. Sabia que ainda havia sobreviventes, mas o mundo parecia ter se calado. Não ouvia pássaros e nem o som de nenhum tipo de animal próximo da mansão. Acreditava que toda a vida o havia abandonado. Deus o havia rejeitado, e nem mesmo o diabo o acolheria.
Com os olhos baixos, começou a observar seu escritório. Todos os livros rasgados, páginas e páginas de todo a sua obra se tornaram apenas papéis espalhados pelo chão. Tantos anos de produção destruídos. Mas seu olhar pousou sobre o livro aberto sobre a mesa. A prova do seu maior crime, a causa de todo o seu tormento. Tudo começara há dois dias atrás quando acordou assustado numa dessas madrugadas quentes de abril...

O suor escorria pelo seu rosto e com os olhos injetados olhava para o teto. Ainda tinha em mente o pesadelo que o atormentara. Sentia como se carregasse o peso de muitos sacos de cimento, e então decidiu escrever aquilo que o atormentava. Cada imagem vívida em sua lembrança agora ele derramava no papel com sua escrita rebuscada e empolgante. À medida que enchia páginas e mais páginas com a descrição detalhada de seu pesadelo, era como se o peso o abandonasse gradativamente. Os demônios que haviam tirado seu sono agora habitavam as páginas do que ele pensava que poderia tornar-se um novo livro. Quando percebeu já amanhecia e ele enchera mais de 200 páginas com uma história que tinha começo, meio e fim. Nunca escrevera dessa forma, sem pausas, sem revisões constantes. E por um instante sentiu-se... Vazio! Apesar de ter passado a maior parte da noite acordado e trabalhando não sentia sono. E então percebeu que não se recordava de nada do que havia escrito. Com era seu hábito desde criança, pôs-se a ler sua história em voz alta.
Tratava-se da história de um jovem fazendeiro que fora rejeitado e ridicularizado na frente de toda a cidade por causa de uma jovem por quem ele se apaixonara. Para vingar-se, ele vendera sua alma para o demônio e com a ajuda desde e de um exército de espíritos imundos, invadiu e destruiu toda a cidade, para depois ter sua vida carregada para o inferno enquanto sua amada jazia morta na entrada da cidade. A jovem tirara a própria vida após constatar a morte da sua família e descobrir quem causara toda aquela destruição. Na medida em que passava as páginas, sentia que o ambiente a sua volta escurecia e logo adormeceu sobre as últimas páginas de sua nova história.
Acordou assustado por causa dos gritos dos empregados que anunciavam que a cidade estava sendo atacada. Ao olhar pela janela de seu quarto, na ala mais alta da casa, o que viu foi exatamente a reprodução de seu livro, até o ponto em que o lera. Toda a sua obra começou a percorrer-lhe a mente e logo se viu consciente de ver reproduzida, nos jornais locais das últimas semanas, a maioria das suas histórias por jovens que ele considerava loucos fã de suas histórias de assassinato e loucura, e sentiu suas pernas bambearem. A sensação de responsabilidade pelos últimos acontecimentos tomou conta de seu corpo quando percebeu seus livros tomando forma diante de seus olhos. Desesperou-se e passou a destruir toda a sua obra com as próprias mãos. Seus empregados haviam desaparecido por conta da sua loucura.
Agora se encontrava totalmente perdido entre milhares de páginas rasgadas. Não abria a porta para ninguém. Penitenciava-se constantemente e seu corpo já refletia o peso da falta de sono e de alimento. Com o olhar injetado de dor e culpa, voltou até gaveta procurando o maço de cigarros, um último alívio diante de tanto terror. Não percebeu como o fogo começou, mas com o cigarro nos lábios, viu as páginas ao seu redor virarem cinzas e com calma dirigiu-se até a janela e observou a cidade e seus moradores que pareciam viver a vida alheios a suas preocupações. Com um sorriso no rosto, e o cigarro entre os dedos sentiu as chamas cobrirem seu corpo...

Ninguém sabia como o fogo havia começado. Os empregados haviam sido dispensados de seus serviços há muitos meses. Nas manchetes dos jornais a notícia do influente escritor de histórias de terror que havia morrido queimado num acidente em sua casa. Havia boatos de que enlouquecera e que ele mesmo havia colocado fogo na casa.
Poucos meses depois foi publicado um livro que ele escrevera antes de sua morte. O original da história fora encontrado intacto perto da entrada da propriedade no dia do incêndio. Contava a história de um jovem fazendeiro...

2 comentários:

Unknown disse...

caraaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaca!!que louco!!
olhaaaaa só..o cara tem uma outra vertente surgindo...entre romances...de andy..encontramos tb...histórias de terror?olhaaaaaaaa só!!
parabéns!!!
pensei em tentar escrever uma historinha de terror mas fiquei com medo de acontecer comigo o que aconteceu com o cara do texto..rs
^^
bjoooooooooo!!

@_Luc_Targino disse...

Adoro qualquer coisa relativa a terror, curti bastante. Escreve mais *-*