Meu dia de folga nunca é 'meu dia'. Mal amanheceu ouvi a porta do quarto ranger e o som de pezinhos apressados se aproximando da cama. Minha esposa já havia saído para o trabalho, então me virei e ocupei o centro da cama de casal, fingindo dormir, roncando alto. Seus movimentos eram ágeis e logo senti seu corpinho deitando ao meu lado, esperando pacientemente pelo momento em que eu acordaria. Não a deixei esperando, dando-lhe um grande susto, a agarrei pela cintura e a levantei no ar, ouvindo sua gargalhada estridente e contagiante.- Paaaaara papai! - Ela disse em meio aos risos com uma alegria incontida por eu não tê-la feito esperar demais.
Nos levantamos. Enquanto eu preparava uma vitamina no liquidificador, ela passava margarina em duas fatias de pão de forma e as colocava na torradeira. Não pude deixar de rir ao vê-la em cima de um banquinho na ponta dos pés tentando alcançar o pote de biscoitos. Eu observei durante alguns segundos e vi quando ela com muito sacrifício, mas muito satisfeita consigo mesma, pegou os biscoitos e os trouxe até mim:
- Viu só? Eu já consigo pegar no lugar mais alto da prateleira. Nem preciso mais de ajuda. Já sou grande! - Disse toda orgulhosa!
- Você é minha menina grande, a mais linda de todas - E dando-lhe um beijo na testa, joguei o conteúdo do liquidificador numa jarra, e pegando as torradas, fomos para a mesa tomar nosso café.
Ao sentar, servi a vitamina em dois copos grandes e coloridos e quando me preparava para tomar, ela gritou com urgência:
- Paaaaiiiii... A gente nem orou!
Envergonhado do esquecimento, juntei as duas mãos como havia ensinado para ela, e juntos recitamos a oração que ela já sabia de cor.
Com um ressoante 'amém', ela disse com um suspiro:
- Agora sim, podemos comer! - E devoramos tudo em poucos minutos.
Ela fez questão de se arrumar sozinha. Então relutante fui tomar um banho e esperei para ver o resultado de toda essa autonomia.
Quando cheguei ao quarto dela, ela estava com sua melhor roupa de passeio, o tênis branco com os cadarços amarrados e tentava com muita dificuldade prender os cabelos. Eu bati na porta discretamente e entrei ouvindo os protestos dela:
- Ainda não estou pronta! Eu consigo fazer sozinha!
- Me deixe pelo menos amarrar seu cabelo! Se você não me deixar fazer alguma coisa, vou me sentir um completo inútil! - Eu disse fazendo um bico.
- Tudo bem, vou deixar você amarrar o cabelo pra ficar feliz!
Sorrindo, me sentei na beira da cama e ela se aproximou de mim e virando de costas, me entregou o elástico. Prendi os cabelos dela e olhando no espelho que estava diante de nós, pensei em como o tempo passava depressa. Ela já tinha cinco anos, ou 'quase seis' como ela gostava de afirmar desde o dia seguinte ao seu aniversário. A abracei e fazendo cócegas, a virei para mim e disse:
- Hora de escovar os dentes mocinha!
E carregando um banquinho até o banheiro, a coloquei sobre ele e escovamos os dentes juntos.
Em frente a nossa casa havia uma linda praça muito arborizada e um playground onde íamos em todas as minhas manhãs de folga. Ela entrou correndo pela abertura lateral na grade e foi diretamente para um dos balanços que ficava logo na entrada. De longe eu a observei subir e balançar as perninhas freneticamente (como eu havia ensinado) em busca do movimento. Em poucos segundos ela já estava balançando toda sorridente. Senti o coração apertado ao lembrar dos dias em que eu tinha que empurrar o balanço enquanto ela gritava 'mais alto, mais alto'. O tempo realmente passava muito depressa.
- Não balance tão alto, ok? - Eu disse num tom protetor sentando-me ao seu lado e começando a balançar lentamente.
- Tá com medo, papai? Quer ver como eu balanço muito mais alto do que o senhor? - Dizendo isso começou a se esforçar mais ao movimentar as pernas.
- Vamos ver então? - E com empolgação comecei a balançar cada vez mais alto.
- Não vale, o senhor é maior!
- Tudo bem - E dizendo isso pulei para fora do balanço ainda em movimento e parei em pé.
- O senhor me segura? - Ela perguntou rapidamente!
- Sempre - Eu disse me colocando em frente a ela.
E assim que parei, ela soltou das correntes e se jogou em meus braços confiante. Girando-a no ar algumas vezes, por fim a coloquei no chão e me deitei de costa sobre a grama.
- Você acabou comigo. Não tenho mais forças para te acompanhar!
Sentado sobre a minha barriga, ela ria e me chamava de velhinho.
Por fim, ela deitou ao meu lado e começamos a olhar as nuvens branquinhas no céu estranhamente azul e começamos a imaginar que tipo de imagens as nuvens estavam formando.
- Aquela parece um macaco, não parece papai?
- Sim, e aquela, não parece a sua vó? - E rindo muito, lembramos da minha sogra que apesar de ser muito baixinha, gostava de usar imensos chapéus de palha.
- Parece o chapéu que ela usou no Natal - Ela disse gargalhando. Eu gostava da cumplicidade que compartilhávamos. Falávamos sempre sobre tudo e de todos, tínhamos nossos segredos que só não eram secretos para a 'mamãe', que sempre 'descobria tudo' (ela passava horas contando e inventando as aventuras que tínhamos nas nossas manhãs). Continuamos nesse jogo rindo durante quase uma hora.
- Está na hora de entrarmos!
- Ah não, pai! - Disse ela subindo em mim para me impedir de levantar. Pegando-a pelas pernas, levantei a carreguei nos ombros de volta para casa.
- Temos que fazer o almoço para você comer antes de ir pra escola e para sua mãe que vai chegar moooooooooooooooooorta de fome, rs.
- Ebáaaaaa... Vou ajudar? - Ela se entusiasmou.
- Claro? Você acha que dou conta de fazer tudo sozinho sem a ajuda da minha menina grande?
A coloquei sentada no balcão da cozinha e comecei a cozinhar, sempre pedindo que ela me ajudasse com alguma coisa, como observar se eu não estava fazendo alguma coisa errada enquanto comia uma maçã. Entre uma mordida ou outra ela gritava, sempre me assustando e rindo das caretas que eu fazia.
Assim que coloquei tudo no fogo, vendo que já estava tarde, mandei que ela fosse tomar um banho e se aprontasse para o colégio. Preparei a lancheira dela, bem como sua mochila.
Enquanto ela terminava de se vestir, minha esposa chegou:
- O que os meus amores estão aprontando em casa? - Ela saiu correndo só de meia pela casa e se jogou nos braços da mãe enchendo-a de beijos - O que vocês fizeram hoje?
Ela passou a relatar as aventuras da manhã da sua maneira inventiva e cheia de detalhes inexistentes. A mãe ouvia tudo com muita atenção ainda carregando-a nos braços.
Ao entrar na cozinha ela me deu um beijo e colocando Luíza no chão, nos sentamos para almoçar.
Oramos novamente e ela comeu sem parar de falar um segundo, sobre o seu 'grande dia com o papai'.
Assim que terminou de comer, ainda sem parar de falar, fomos os três escovar os dentes juntos. Apertados diante da pia, riamos e sujávamos o espelho de pasta de dente.
Quando Sara terminou de se aprontar, eu acompanhei as duas até o carro estacionado em frente da casa. Cada uma me deu um beijo. Coloquei Luíza no banco de trás com o cinto e ajeitei sua mochila e a lancheira ao seu lado. Bati a porta e me inclinei no banco do motorista para dar mais um beijo em Sara.
- Eu não ganho mais um beijo também não? - Luíza parecia indignada, mas logo caiu na gargalhada.
Como a janela estava fechada, ela encostou a bochecha no vidro e eu o beijei sentindo o gosto de poeira. De dentro do carro ela ria e acenava enquanto eu limpava a boca.
- Até mais tarde meu amor! Vocês busca a Lu depois?
- Claro! Pode deixar.
Vi o carro partir com as duas mulheres da minha vida dentro dele e senti meu coração pequeno de saudade e de preocupação.
Entrei e me sentei na bancada da cozinha. Por um instante me senti velho e um pouco cansado, mas sorrindo pensei que jamais poderia estar mais feliz. Fechei os olhos e agradeci silenciosamente a Deus.
2 comentários:
Ahh, adorei. Tão bonitinha essa cumplicidade dos dois, a felicidade dessa família. A história vai continuar? Tenho a impressão de que não vai ser tão feliz daqui pra frente, rs.
Xero, meu bem!
aaah que linda historia!!
lembrei de meus fins de semana com meu tio...meu pai quase nunca teve tempo pra essas coisas curtia mesmo era ir pra uma praça perto da minha casa com meu tio e arematar esse passeio com um sorvete..rs
com meu pai eu ja gostava de sentar a noite na sacada e olhar pro ceu...e até hj tenho esse costume.
bjooooooo,valeu por me ajudar a lembrar de momentos tão agaradáveis que tive!!
^^
Saudade!!
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