04 setembro 2012

[o clube do livro] - 6ª parte

[Pedro]

Entre o ponto de ônibus e a entrada do prédio, Pedro recebeu pelo menos três mensagens desesperadas de Mariana, que já não se aguentava de ansiedade. Sorrindo, ele digitou apenas um "CHEGANDO", enviando para todos do clube.
Quando chegou na porta do apartamento, suspirou se preparando para a Saraiva de reclamações. Batendo na porta, foi recebido por uma Marina com a boca cheia de jujubas, digitando uma mensagem de celular e com os olhos vidrados, falando um enrolado "FINALMENTEEEEE...".
Os outros estavam na sala, tomando sorvete e comendo pipoca. Jackson e Alex estavam sentados no tapete, rindo de alguma piada recente, enquanto Jean e Andrea ocupavam de uma maneira quase acrobática, uma poltrona de couro perto da janela. Marina e Pedro foram se sentar no sofá grande e durante alguns segundos, depois que as risadas cessaram, eles não disseram nada, até que Marina quebrou o silêncio com suspiro:
- Está na hora! - E sacando o livro da bolsa seguido do seu costumeiro caderno de anotações, se pôs a anotar freneticamente os dados do encontro, enquanto falava. - Dia 14 de setembro, às... 16h40, por causa do Pedro, décimo oitavo encontro do clube, no apartamento do Jean e da Andrea, no Centro com a presença de... - E enquanto ela falava e anotava, os outros riam e voltaram a comer.
O celular do Alex tocou, sobre o olhar reprovador de Marina, que continuava anotando sem se importar com as piadas recorrentes.
- Oi Fábio! - Depois de um tempo acrescentou - Claro, já falei com o pessoal sobre você. Estamos juntos. Anota aí o endereço do apartamento do Jean - E ditando o endereço, se despediu e anunciou empolgado - Arrumei mais um membro para o clube. O Fábio está vindo aí!
- Muito atrasado, diga-se de passagem - Disse Marina, sob as vaias dos demais.
- Não espante nosso novo membro, Marina - Gargalhou Andrea - Pelo menos não nos trinta primeiros minutos!
- Vamos esperar o rapaz chegar, então começamos a discutir o livro - Disse Jean, enquanto enchia a mão de pipoca.
Enquanto esperavam, Jackson sacou a máquina fotográfica e começou a costumeira sessão de fotos bizarras, em meio a muita algazarra.

Quando o ouviram bater na porta, Alex pulou na frente da Marina que já se erguia para abrir a porta e correu para receber o Fábio.
- Bem-vindo!! - Disse abrindo a porta com um largo sorriso.

[CONTINUA] 

10 agosto 2012

[Escolhi ser feliz]

Ninguém nunca vai entender minhas escolhas! A solidão é uma escolha que ninguém admite. Eu escolhi estar só, e isso parece uma afronta às pessoas que me cercam. Para eles a solidão não é uma escolha válida.
Estar só não é fácil. Não por mim, mas simplesmente por causa dos outros. Qual o problema que as pessoas enxergam na solidão? É sozinho que encontro a minha paz e meus momentos mais felizes. Alegres? Não. Somente felizes. Felicidade não é sinônimo de alegria, são instantes onde os problemas e as dificuldades parecem desaparecer e vejo apenas aquilo que me deixa tranquilo.
O capítulo de um livro com o qual me identifico. A doce melodia de uma música que me arrebata. O episódio de um seriado que me agrada. A cena de um filme que me faz sorrir. Aquele momento triste que enche meus olhos de lágrimas. Tudo isso é felicidade pra mim.

Feliz aquele que entende a excitação de comprar, no bar perto da parada de ônibus, uma mão cheia de balas que te lembram da infância e comê-las todas de uma só vez. Feliz é aquele que entende que ir ao cinema sozinho pode ser agradável também. Feliz é aquele que desfruta de uma caminhada até o trabalho, ainda de manhã bem cedo, e consegue olhar para o céu e ver que ele nos brinda diariamente com uma das mais belas paisagens do mundo, nublada ou ensolarada, sem nem precisar, para isso, viajar. Feliz aquele que ri e chora lendo enquanto caminha, e não tem vergonha do que as pessoas vão pensar. Feliz!

Escolhi ser feliz em minha solidão, e só desejo que respeitem a minha escolha e me deixem viver o tempo que me resta neste mundo na forma e com os limites que eu mesmo tracei para mim.

03 junho 2012

[eu]

o que me torna um chato de galochas? meus livros.
sobre eles, falo sem parar. acho que meus livros são as únicas coisas realmente apaixonantes para mim. passaria horas a folhear, a citar trechos, comentar cada parte e personagem que amo mais do que a mim mesmo. são meus amigos. eu sou eles... e eles são, cada um, uma parte de mim.

26 abril 2012

[o clube do livro] - 5ª parte


[Alex]

As diferenças não são nada quando se tem um objetivo em comum.

Alex olhava pela janela, vendo as últimas nuvens de chuva se desfazerem em meio aos raios tímidos de sol que despontavam atrás dos prédios. Sua mente viajava pelo tempo.

Ele via Marina sentada na mesa da sala com o notebook aberto, fuçando o Facebook, enquanto tagarelava com Andrea sobre um episódio que aconteceu no elevador no dia anterior, enquanto gargalhava histericamente. Alex nunca entendeu como ela conseguia fazer tantas coisas ao mesmo tempo: o trabalho, a casa, a irmã mais nova e ainda arrumava tempo para ler tanto ou até mais do que ele, que era um vagabundo de marca maior. Ela morava com a irmã num apartamento no Centro e cuidava de tudo. Fazia faculdade de direito, e ainda namorava um chato de galochas chamado Jaime. E tinha apenas 23 anos. Como ela conseguia. Alex já tinha 21 anos e não tinha a mínima ideia do que faria da sua vida.

Ele se lembrava perfeitamente da primeira vez em que a viu: na fila do banco. Ela estava carregando umas 6 sacolas, falando no celular e tentando passar pela porta giratória enquanto o guarda gesticulava que nem um louco tentando informar para ela que ela deveria desligar o celular e deixá-lo na abertura para passar. Enquanto isso uma fila de pessoas impacientes se reunia atrás dela. Quando ela finalmente atendeu aos apelos ao seu redor, conseguiu passar, mas não sem reclamar e falar, falar, falar e falar...
Quando ela chegou na fila, exatamente atrás dele, depositou todas as sacolas no chão e começou a falar:
- Penso que todos esses bancos deveriam passar por uma urgente reforma estrutural, não concorda? Eu passo horas dentro de bancos todos os dias e não consigo me acostumar com toda confusão de portas, filas, detectores de metal. Tudo tão pouco prático, tão complicado. Eu estava em uma ligação de extrema importância e tive que desligar abruptamente e sem muitas explicações. Sério que tem apenas 2 caixas para atender todas essas pessoas da fila? - Depois de uma brevíssima pausa, ela olhou para o livro que estava em suas mãos e em seguida para o seu rosto (que devia ser de um completo paspalho) e gritou: - NÃO ACREDITOOOO!! VOCÊ TAMBÉM ESTÁ LENDO "AS RUÍNAS"?? E eu achava que só eu no mundo inteirinho conhecesse esse livro. Eu o estou relendo agora mesmo. - E sacando o outro livro da bolsa, quase o esfregou na cara de Alex. E pegando o livro dele, começou a folhear, buscando a página em que ele estava. - Você tá quase junto comigo. A gente podia começar um clube do livro, né? Já estamos  lendo o mesmo livro. Podíamos marcar de nos encontrarmos no final de semana para discutir o livro. O que acha?
Ele ouvi todo esse diálogo em completo silêncio, com o rosto mais vermelho que um pimentão. Todos no banco olhavam para eles, mas ela parecia não perceber ou pelo menos não se importava nem um pouco. Ela o olhava com muita expectativa e quando ele se deparou com seu questionamento final tudo que pude fazer foi simplesmente balançar a cabeça positivamente, com medo de uma recusa causar uma situação ainda mais constrangedora.
- Pronto, sábado nos encontramos. Até lá você já terminou de ler, né? Porque eu termino ele ainda hoje ou amanhã.
E foi assim que o clube começou. A amizade de Alex com Marina, por mais improvável que parecesse, foi se consolidando e com o tempo, as diferenças entre eles pareciam não ter mais importância e logo vieram outros livros, outros encontros e novos membros para o clube.

Ele ainda olhava pela janela, quando viu Pedro entrando no prédio.

[CONTINUA]

[de volta...]


A primeira vez em que conversamos eu não podia nem imaginar que já nos conhecíamos. Sua aparência me atraiu, seu gosto musical me seduziu... E depois de alguns minutos de conversa percebi que seu jeito doce já havia me cativado. Mesmo quando passamos algum tempo sem nos falar, volta e meia eu me pegava pensando...

As coincidências e semelhanças entre nós chegavam a me assustar. Em poucos dias eu podia dizer que estava simplesmente viciado em sua presença, eu seu carinho e atenção. Esses são alguns dos perigos da solidão e da carência: facilmente nos apegamos as pessoas e logo o apego vira necessidade e essa necessidade torna tudo ainda mais confuso.

É só quando você percebe que perdeu a noção do tempo, que deixou de realizar tarefas cotidianas, que as coisas ao seu redor perderam a importância... É só nesse momento que o que era mágico começa a tomar contornos trágicos.

Eu me vi completamente desligado da minha realidade, perdido em um sonho que jamais se realizaria. Foi nesse momento que resolvi colocar os pés no chão e abrir mão. Mas como é difícil abrir mão de algo que em pouquíssimo tempo havia se tornado para mim quase como o ar: impossível viver sem. E depois de diversas tentativas, vi aquilo que amo partir. Parece ridículo falar em amor, mas é a única palavra que consigo utilizar para descrever o que senti... O que ainda sinto.

Então voltei para minha realidade.
Voltei para onde estava tudo fora do lugar, onde não me sentia mais acolhido e seguro. Tudo pelo qual batalhei, tudo que construí com anos de renúncias simplesmente perdeu o valor. As pessoas já não estavam mais aqui, pelo menos não verdadeiramente. Aliás, acho que eu não estou mais aqui.

Não sei mais o que fazer, não sei mais o que dizer. Desde que voltei para a minha realidade, eu vivo meio que "no piloto automático", agindo, falando, respondendo a estímulos básicos, vendo as pessoas passarem, ficarem, voltarem, partirem enquanto eu continuo na mesma: sozinho e vazio.

Preciso recomeçar. Na verdade tudo o que eu preciso mesmo é pelo menos descobrir como.

24 fevereiro 2012

[o clube do livro] - 4ª parte

[Pedro]

Quando Pedro saiu de casa, o tempo já estava nublado. Ele apressou o passo chegando num ritmo quase de corrida, na esperança de ainda conseguir pegar o ônibus das 16h. Mas ainda estava longe quando viu sua condução sair do terminal. Diminui instantaneamente sua velocidade, e caminhando desanimado sentiu os primeiros pingos de chuva contra o seu rosto. Puxou o capuz da blusa de frio sobre a cabeça e sentiu a blusa encharcar aos poucos, fazendo-o tremer. Quando finalmente entrou no terminal, não havia nenhuma parte do seu corpo seca.

Sentou-se no banco em frente ao box de onde seu ônibus saia (agora vazio) e colocando as pernas sobre o banco, as abraçou e se encolheu, deixando a mochila ao seu lado. Ficou assim durante alguns minutos até o corpo, apesar de ainda molhado, sentir-se um pouco menos desconfortável.

Enquanto esperava o próximo ônibus, ele observava as pessoas que caminhavam pelo terminal. Apressadas, estressadas, sorridentes, cabisbaixas, infelizes ou felizes, cada rosto revelava uma história, uma vida inteira de circunstâncias que moldaram pessoas tão diferentes, mas ao mesmo tempo tão semelhantes. Ele escolhia algumas delas ao acaso e passava a contar a si mesmo a história de cada uma delas.

O rapaz tatuado de camisa regata, encostado na pilastra perto do portão, estava esperando alguém. Olhava para os lados constantemente, e verificava o relógio a cada cinco minutos. Provavelmente esperava a namorada. Os cabelos negros com um corte moicano lhe davam um ar de superioridade, de determinação, de quem sabia exatamente o que queria, de quem desde cedo encontrou o caminho que alguns chamariam de revolta, mas que para ele devia significar fazer suas próprias escolhas, independente de quem os outros esperavam que ele fosse. Dele, Pedro teve inveja. Pouco tempo depois, com um ar de irritação, ele se afastou apressado, com passos firmes, sem uma companhia. Levara um "bolo"?

A moça de terninho chegou fechando o guarda-chuva e limpando com um lenço de papel os respingos de lama em seus sapatos de salto alto. Carregava uma pasta azul para documentos e apesar do mal tempo, estampava no rosto um sorriso singelo e cheio de expectativas. Caminhou até o guichê e comprou um bilhete para o ônibus e esperou sentada numa cadeira próxima. Era uma bela mulher, com um ar de pessoa de negócios. Parecia bastante satisfeita consigo mesma, como se tivesse fechado um grande negócio e recebido um promoção na empresa onde trabalhava. Não demorou, ela discou um número no celular e começou a conversar animadamente. Quando seu ônibus chegou, ela se levantou sobressaltada, ainda com o celular no ouvido e correu para subir no ônibus lotado. Ele a viu partir rindo, mesmo em pé dentro de um ônibus tão cheio.

Pedro ainda procurava alguém interessante quando percebeu que ele mesmo era alvo do exame de algumas pessoas que passavam por ele. Tomou consciência de que ele deveria ser uma imagem que destoava no ambiente. Um rapaz alto e magro, de cabelos compridos, soltos pelas costas, com as roupas negras molhadas, de maquiagem nos olhos, sentado no banco com as pernas coladas ao corpo, com o queixo apoiado nos joelhos. Sorriu ao pensar sobre o que as pessoas deviam pensar dele: um roqueiro revoltado, gótico ou emo.

Abandonando esses pensamentos, ele abaixou as pernas e colocando a mochila sobre o colo, a abriu e pegou o livro do clube. A mochila jeans não o resguardou da umidade e ele viu com certa irritação que as páginas estavam sofrendo com isso.
Sentiu o celular vibrar no bolso e colocando o livro de lado, foi ler a mensagem de texto:

"KD VC?? SO TA FALTANDO VC!! MARINA"

Ele sorriu imaginando as caras e bocas que a Marina devia estar fazendo naquele momento. Aliás, ele podia imaginar Alex sentado perto da janela no apartamento do Jean e da Andrea olhando para a rua, vendo a chuva descer constante. Ele imaginava Andrea na cozinha fazendo o lanche e conversando com a Marina, que não devia parar de reclamar sobre a demora dele. E no sofá da sala ele via Jackson conversando com o Jean sobre esportes.
Todos tão diferentes e tão parecidos.

Nesse momento, o ônibus chegou, e pegando a mochila ainda aberta e o livro, Pedro correu e subiu sentando num dos últimos bancos. Pegou o celular e digitou:

"PERDI O OUTRO ÔNIBUS, MAS CHEGO DAQUI A UNS 15 MIN!! NÃO COMAM TUDO SEM MIM!"

E sorrindo, ele viu que a chuva diminuía e um sol tímido de final de tarde despontava entre as nuvens de chuva que rareavam.

[CONTINUA]

23 fevereiro 2012

[hoje]

hoje o dia amanheceu mais escuro
e o vento frio que arranhava meu rosto parecia mais forte
minhas tentativas frustradas de redenção me desanimam
e as nuvens de chuva cobrem a tarde ensolarada
e a chuva constante se mistura com minhas lágrimas ardentes
e esfria a minha alma, que segue amedrontada
meu coração vazio, sem paixão, sem amor.

amedrontado, esse é meu eterno adjetivo
um medo que paralisa e que tira o meu vigor
paralisado para o bem, sempre ativo para o mal
e sigo caminhando cabisbaixo.

não tenho seu olhar, nem sua força
essa paixão me abandonou a tanto tempo
anulada pelos meus medos, meus preconceitos;
sua energia, sua experiência, sua coragem
eu deixei partir, e essa paixão não olhou para trás.

eu morri há tanto tempo e a aparência permanece
e ninguém nem mesmo percebe
se eu me for, sentirão falta do que ofereci
e de quem sou, alguém uma dia sentirá?

tenho medo que eu me vá
e que ninguém jamais venha a me conhecer
e esse medo é o que me mantêm paralisado nesse mundo
preso a essa realidade que mina minha existência
e destrói...

morto: 21h18 do dia 23 de fevereiro de 2012

18 janeiro 2012

[o clube do livro] - 3ª parte

[Jean e Andrea]

Apoiada na pia do banheiro, Andrea olhava o rosto abatido no espelho. A maquiagem borrada nos olhos vermelhos de tanto chorar a deixava com um aspecto terrível. Com um suspiro cansado ela ligou a torneira e começou lentamente a se lavar. Quando ouviu que Jean entrava no quarto, ela empurrou a porta do banheiro com o pé, trancando-a em seguida. Não estava com saco para conversas e nem para pedidos de desculpa.
Ligou o chuveiro no quente e deixou o vapor da água inundar o banheiro, embaçando espelho, janela e o box de vidro. Sentada sobre a tampa do vaso, ela desatava a sandália de salto alto que usava desde aquela manhã. Pegou o celular no bolso de trás do jeans e olhou a hora: 0h35.
Enquanto massageava os pés cansados, sentia o calor úmido do banheiro aliviando suas tensões.
Tirou o resto da roupa e abrindo rapidamente o box, deixou a água escorrer lentamente pelo seu corpo, levando a sujeira e a tristeza do seu coração.
Enquanto lavava os cabelos podia ouvir o som da sala tocando alto e não pode evitar um sorriso.

Quando Andrea entrou no quarto, Jean a seguiu querendo continuar a conversa. Não havia motivos para ela estar tão chateado por uma bobagem como aquela. Mas quando entrou, a viu trancar o banheiro atrás de si e percebeu que não tinha mais chances de conversa, pelo menos não naquela hora. Mas um dia ela teria que sair do banheiro. Voltou para a sala e sentou no sofá maior. Tirou o tênis e jogou-o do outro lado da sala. Enrolou as meias e as jogou também. Tirou a camiseta molhada e a estendeu sobre a poltrona e deitando no sofá, apoiou a cabeça no encosto lateral do sofá e ficou olhando para o teto durante algum tempo.
A festa ainda rolava no andar de cima, e podia ouvir a farra dos amigos. Querendo se ausentar do clima que ainda rolava lá, foi até a estante e começou a caçar um CD para tocar. Tiag Iorc se destacou e ele o colocou no aparelho de som, aumentando-o até o último volume.
Jogando-se novamente no sofá, fechou os olhos e deixou as notas inundarem a casa, seus ouvidos e sua mente.

Quando abriu a porta do banheiro enrolada apenas na toalha, Andrea sentiu o vento frio que vinha da janela aberta do quarto gerar um arrepio em todo o seu corpo. Deu um gritinho e correu para fechá-la com um baque.
Enxugou-se e vestiu apenas uma camiseta comprida que usava para dormir.
Na sala Tiago Iorc cantava a melodia doce de "It's Not Time". Ela abriu a porta do quarto e espiou a sala enquanto escovava os cabelos molhados. Jean parecia dormir no sofá. Enquanto o observava ali, deitado com o rosto iluminado pela luz do poste que entrava pela janela, barba por fazer, sem camisa, ela sorria e tentava se lembrar por estava tão chateada antes.
- Mais um ataque de ciúmes - Ela sussurrou para si mesma, rindo sem graça.
Ela foi até a estante, abaixou o som antes que algum vizinho reclamasse e sentou no parapeito da janela, olhando para a rua praticamente vazia lá em baixo.
Os sons da festa no andar de cima já quase não existiam mais, então ela se deixou envolver pelo silêncio da noite e pela voz suave que ainda tocava no som o refrão de "My Girl".
Quando ouviu a voz de Jean, voltou-se para o sofá onde ele estava e o viu sentado, observando-a, enquanto cantava "Well, I guess you'll say... What can make me feel this way? My girl... Talkin' 'bout my girl, my Girl..." com aquele ar zombeteiro e seu sorriso torto.
Ele a chamou com a mão, e depois de um instante de hesitação, ela se levantou e sentou-se ao lado dele.
- Me perdoa? - Ele pergunta com a voz pesada.
- No momento em que o vi no sofá, deitado e de olhos fechados eu já sabia que não conseguiria ficar com raiva de você. E você, perdoa minha insegurança?
Ele não respondeu, apenas levantou-se, foi até a mesa da sala, e pegando um livro dentro da mochila, ele voltou para o sofá, se encostou num dos cantos, e passando as pernas ao redor dela, a chamou para se aninhar em seus braços.
Ela deitou sobre o peito dele, então ele abriu o livro na página marcada e o segurou diante do rosto deles e disse:
- Só se terminarmos de ler o livro do clube juntos.
- Mas você já está mais adiantado que eu.
- Não me importo. Eu leio os capítulos novamente com você.
- Você vai ler para mim? Amo sua voz... - Ela disse enquanto fazia um bico e beijava lentamente o pescoço de Jean.
Suspirando ele respondeu:
- Só se você prometer que não vai dormir. Não falta muito para acabar e a reunião já é amanhã.
- Eu sei, prometo que não vou dormir!
- Se você dormir eu juro que te faço cócegas até... - E dizendo isso, a atacou na cintura, fazendo a rir até perder o fôlego, se contorcendo e gritando:
- Para, para... por favor...
Então ele parou e ela se aninhou mais uma vez em seus braços.
- Onde você parou? - Ele perguntou.
Ela abriu o livro algumas dezenas de páginas antes de onde ele estava e voltou a se encostar nele.
Alguns segundos depois a voz dele encheu toda a sala, e embalada pelo som que ainda tocava baixinho, ela se deixou levar pela história que emanava através da voz de Jean.

[CONTINUA]

09 dezembro 2011

[o clube do livro] - 2ª parte

[Marina]

- Ir ao banco depositar o dinheiro para a tia Carmen e pagar algumas contas. Passar no supermercado e comprar papel higiênico. Estar livre até as 16 horas para participar da reunião de pais da Clarice. Comprar o presente de aniversário do Jaime. E o que mais? Parece que estou esquecendo alguma coisa!
Enquanto caminhava em volta da mesa da cozinha, Marina enumerava todas as suas tarefas em voz alta, repassando seu trajeto, tentando não esquecer nada do que tinha para fazer. Assim que se convenceu de que não estava esquecendo de nada, escreveu uma lista com essas tarefas em um bloquinho de papel que ficava em cima do balcão que separava a sala da cozinha em seu minúsculo apartamento. Pendurando a alça da bolsa no ombro, ela saiu apressada batendo a porta.

Antes mesmo de chegar ao elevador, voltou correndo ao apartamento para buscar os boletos que esquecera sobre a mesa. E quase correndo, voltou a sair do apartamento, batendo a porta atrás de si. Meio minuto depois, Marina voltava xingando. Entrou mais uma vez no apartamento, e dessa vez, indo até a sala, agarrou o livro que estava entre as almofadas do sofá. Mesmo nervosa como estava, ao pegar o livro, seu semblante se suavizou. Colocou-o cuidadosamente dentro da bolsa e saiu mais uma vez retomando a pressa de antes. Trancou o apartamento e saiu em direção ao elevador.
Enquanto via a numeração se aproximar do seu andar, ela batia nervosamente o pé no chão e tamborilava os dedos na lateral da perna em um mesmo ritmo acelerado. Consultando o horário no celular, quase gritou quando a porta do elevador se abriu, assustando uma senhora idosa que já o ocupava:
- Aahhhh!!! Caraca, já são 14h48! Desculpe o grito, é que eu não podia estar tão atrasada!!! - E mal entrou, apertava o botão da garagem inúmeras vezes de maneira quase desesperada - Ai, e essa porcaria de porta que não... - Mas se interrompeu ao ver a porta se fechar a ao observar a face aterrorizada da senhora que se espremia num canto do elevador quase com medo de se aproximar de Marina.
Então sorrindo docilmente, Marina abriu a bolsa e retirando um pacote de chicletes, o estendeu para a vizinha:- A senhora aceita um chiclete??

Quando chegou ao banco o relógio marcava 15h03 e seu humor estava cada vez mais alterado, mas nada comparado ao instante em que ela observou a fila gigantesca que se formava diante da área de caixas eletrônicos. Era possível ver o tremor de suas mãos.
Retomando o controle de sua mente depois de alguns segundos, Marina se afastou dos caixas eletrônicos e foi em direção a porta giratória. Assim que começou a atravessá-la, ouviu um apito e ela travou com um baque. Voltou depositando o celular no compartimento ao lado da porta e sorrindo para o guarda voltou a atravessar com rapidez, para mais uma vez ouvir o apito e bater com a cara no vidro da porta que travou mais uma vez. Saindo novamente, foi até o compartimento e já muito irritada começou a esvaziar a bolsa. Chaves, relógio, guarda-chuva, moedas. Ela teria enfiado a bolsa dentro do compartimento se ela coubesse. Assim que o guarda observou seu nervosismo, se dirigiu a ela e a mandou atravessar a porta. Rapidamente ela correu e atravessou a porta já se dirigindo até a máquina que liberava as senhas dos caixas, enquanto o guarda a chamava:
- Senhora, suas coisas - Ele falava apontando para o compartimento ao lado da porta rotatória - A senhora esqueceu de recolher suas coisas.
Envergonhada e irritada ela voltou jogou todas a coisas dentro da bolsa. Quando se voltou novamente para a máquina e percebeu que um homem estava pegando a senha que seria sua, sentiu vontade de gritar mais uma vez, mas se conteve ao perceber que o guarda e mais alguns funcionários a observavam. Abaixando a cabeça e dando um profundo suspiro, ela disse ao guarda:
- Muito obrigada!
Foi até a máquina e pegou uma senha: 438.
Ao chegar na área de espera para os caixas, ela se sentou na primeira cadeira vazia e olhou para o monitor que mostrava as senhas e os caixas disponíveis: 394.
Desanimada, ela olhou mais uma vez para o relógio: 15h11.
Recostando na cadeira, ela olhou ao redor e suspirando mais uma vez, fechou os olhos durante alguns segundos. Quando tornou a abrir, um sorriso triunfante se formou em seu rosto e sacando o livro de dentro da bolsa, disse com alegria:
- Vou conseguir ler pelo menos uns dois capítulos!
Sentindo que todos a olhavam com espanto e estranheza, ela declarou:
- Sou louca. Não se importem comigo.
E então retomou a leitura exatamente de onde havia parado no sofá na noite anterior. Em poucos segundos já nem se lembrava mais dos compromissos, das filas, senhas ou mesmo das pessoas que ainda a olhavam de rabo de olho. Ela estava em outro mundo.

[CONTINUA]

07 dezembro 2011

[o clube do livro] - 1ª parte

[Alex]

Alex não lembrava a última vez em que conseguira dormir uma noite inteira. Ligou o aparelho de som com um volume bem abaixo do normal para não acordar seus pais e foi sentar próximo da janela. A noite estava clara e fazia muito calor. Abriu o vidro e sentiu uma leve corrente percorrer o ar abafado do quarto. Estava apenas de cuecas e tinha as costas e as pernas grudentas de suor. A luz do poste enchia o quarto, então ele pegou o livro sobre a mesinha e retomou a leitura apoiando os pés no parapeito da janela.
As páginas passaram e com elas os minutos e logo as horas também. Quando percebeu os primeiros sinais do amanhecer atrás do prédio em frente a sua casa, largou o livro marcando a página com um cartão telefônico e foi deitar mais uma vez. O relógio do celular mostrava 5h47.
Jogou as cobertas no chão e deitou de costas na cama, com as mãos atrás da cabeça, olhando para o teto. Não demorou para que todo o quarto logo fosse tomado pela luz do sol que já estava acima do prédio da padaria.
Decidiu levantar de uma vez e pegando a toalha pendurada atrás da porta do quarto, foi tomar uma banho. A água gelada parece renovar um pouco das suas forças, então quando saiu do banheiro estampava um sorriso de satisfação.
O resto da casa ainda dormia, e ele imaginava que não despertariam até bem depois das 10h. Era assim todos os sábados.
Vestindo o jeans surrado que usara durante boa parte da semana e uma camiseta roxa que ganhara aquela semana, ele desceu as escadas ainda com os cabelos molhados, pingando no chão por onde ele passava.
Calçou o tênis preto que estava na varanda, e pegando a mochila sobre a bancada da cozinha, a encheu de frutas e alguns pacotes de biscoitos que encontrou no armário e voltou para o quarto. Pegou o livro que estava lendo, o dinheiro que sobrara do dia anterior e o celular com o fone de ouvido ainda plugado e saiu trancando a porta.

Quando saiu de casa, olhou o céu azul sem nuvens e pensou em voltar para buscar os óculos escuros, mas acabou não voltando. E assim ele saiu caminhando pela calçada observando a rua que começava a ganhar vida.
Andou quase 30 minutos até chegar ao parque municipal, onde se dirigiu até uma área arborizada mais ao fundo do parque, onde costumava sentar para ler. Recostou-se nas grandes raízes de uma mangueira e sacando o livro e um pacote de biscoitos, começou a comer enquanto retomava já em dos últimos capítulos do livro.

Leu até terminar. O final da história trouxe certo incômodo, e o fez pensar em como certas histórias pareciam revelar muito do que ele mesmo havia passado. Pensou nas semelhanças de seu próprio caráter e o do protagonista da história que acabara de ler e começou a matutar sobre as possibilidades de ter um desfecho tão ou até mais triste do que o do personagem. E foi com essas divagações em mente que começou a percorrer os olhos pelo parque que ganhara vida enquanto ele estava mergulhado em seu livro.
Pessoas corriam em volta do lago, outros passeavam com seus cães e alguns outros se exercitavam perto da fonte. Mas seus olhos foram capturados pelo rapaz que estava sentado num dos bancos perto da entrada. Ele também lia um livro. Parecia alheio ao movimento em seu redor de tão concentrado que estava em sua leitura.
Imediatamente sua curiosidade se acendeu, e a necessidade de descobrir o título do livro que tão fortemente prendia a atenção daquele jovem tomou conta dele. Guardou o livro e os restos do biscoito na mochila, e levantando-se apressadamente, começou a caminhar em direção ao banco onde o jovem estava, tentando de todas as formas enxergar o título do livro. Porém o jovem tinha o livro apoiado sobre os joelhos, mantendo o título inacessível.
Sem pensar duas vezes, ele passou pela frente do jovem e sentou-se ao seu lado. O rapaz, como que despertado de um transe, levantou os olhos do livro com uma careta de desagrado. Abrindo um sorriso de desculpas, Alex estendeu a mão para o rapaz:
- Desculpe interromper sua leitura. Meu nome é Alex.
O jovem o olhou com um ar desconfiado, e sem estender a mão de volta ele disse:
- Se estiver vendendo alguma coisa, não estou afim de comprar nada, ok?
- Não, não é nada disso - Disse Alex sorrindo. - Sei que vai parecer loucura, ,mas eu só queria saber o título do livro que você está lendo tão concentrado.
Ao ouvir a explicação, ele ficou em silêncio durante alguns segundos e então começou a gargalhar, fazendo Alex rir sem graça. Então ele estendeu a mão e disse ainda rindo:
- Meu nome Fábio. - Fechou o livro sobre o colo e o estendeu para Alex - Pelo jeito você é mais um viciado em livros que não pode ver ninguém lendo sem descobrir que livro é, né?
Pegando o livro muito sem graça, ele respondeu:
- É, acho que você me pegou.
- Não se preocupe - Disse Fábio - Eu sou do mesmo jeito!
E rindo juntos, eles começaram a conversar animadamente.

[CONTINUA]