[Marina]

- Ir ao banco depositar o dinheiro para a tia Carmen e pagar algumas contas. Passar no supermercado e comprar papel higiênico. Estar livre até as 16 horas para participar da reunião de pais da Clarice. Comprar o presente de aniversário do Jaime. E o que mais? Parece que estou esquecendo alguma coisa!
Enquanto caminhava em volta da mesa da cozinha, Marina enumerava todas as suas tarefas em voz alta, repassando seu trajeto, tentando não esquecer nada do que tinha para fazer. Assim que se convenceu de que não estava esquecendo de nada, escreveu uma lista com essas tarefas em um bloquinho de papel que ficava em cima do balcão que separava a sala da cozinha em seu minúsculo apartamento. Pendurando a alça da bolsa no ombro, ela saiu apressada batendo a porta.
Antes mesmo de chegar ao elevador, voltou correndo ao apartamento para buscar os boletos que esquecera sobre a mesa. E quase correndo, voltou a sair do apartamento, batendo a porta atrás de si. Meio minuto depois, Marina voltava xingando. Entrou mais uma vez no apartamento, e dessa vez, indo até a sala, agarrou o livro que estava entre as almofadas do sofá. Mesmo nervosa como estava, ao pegar o livro, seu semblante se suavizou. Colocou-o cuidadosamente dentro da bolsa e saiu mais uma vez retomando a pressa de antes. Trancou o apartamento e saiu em direção ao elevador.
Enquanto via a numeração se aproximar do seu andar, ela batia nervosamente o pé no chão e tamborilava os dedos na lateral da perna em um mesmo ritmo acelerado. Consultando o horário no celular, quase gritou quando a porta do elevador se abriu, assustando uma senhora idosa que já o ocupava:
- Aahhhh!!! Caraca, já são 14h48! Desculpe o grito, é que eu não podia estar tão atrasada!!! - E mal entrou, apertava o botão da garagem inúmeras vezes de maneira quase desesperada - Ai, e essa porcaria de porta que não... - Mas se interrompeu ao ver a porta se fechar a ao observar a face aterrorizada da senhora que se espremia num canto do elevador quase com medo de se aproximar de Marina.
Então sorrindo docilmente, Marina abriu a bolsa e retirando um pacote de chicletes, o estendeu para a vizinha:- A senhora aceita um chiclete??
Quando chegou ao banco o relógio marcava 15h03 e seu humor estava cada vez mais alterado, mas nada comparado ao instante em que ela observou a fila gigantesca que se formava diante da área de caixas eletrônicos. Era possível ver o tremor de suas mãos.
Retomando o controle de sua mente depois de alguns segundos, Marina se afastou dos caixas eletrônicos e foi em direção a porta giratória. Assim que começou a atravessá-la, ouviu um apito e ela travou com um baque. Voltou depositando o celular no compartimento ao lado da porta e sorrindo para o guarda voltou a atravessar com rapidez, para mais uma vez ouvir o apito e bater com a cara no vidro da porta que travou mais uma vez. Saindo novamente, foi até o compartimento e já muito irritada começou a esvaziar a bolsa. Chaves, relógio, guarda-chuva, moedas. Ela teria enfiado a bolsa dentro do compartimento se ela coubesse. Assim que o guarda observou seu nervosismo, se dirigiu a ela e a mandou atravessar a porta. Rapidamente ela correu e atravessou a porta já se dirigindo até a máquina que liberava as senhas dos caixas, enquanto o guarda a chamava:
- Senhora, suas coisas - Ele falava apontando para o compartimento ao lado da porta rotatória - A senhora esqueceu de recolher suas coisas.
Envergonhada e irritada ela voltou jogou todas a coisas dentro da bolsa. Quando se voltou novamente para a máquina e percebeu que um homem estava pegando a senha que seria sua, sentiu vontade de gritar mais uma vez, mas se conteve ao perceber que o guarda e mais alguns funcionários a observavam. Abaixando a cabeça e dando um profundo suspiro, ela disse ao guarda:
- Muito obrigada!
Foi até a máquina e pegou uma senha: 438.
Ao chegar na área de espera para os caixas, ela se sentou na primeira cadeira vazia e olhou para o monitor que mostrava as senhas e os caixas disponíveis: 394.
Desanimada, ela olhou mais uma vez para o relógio: 15h11.
Recostando na cadeira, ela olhou ao redor e suspirando mais uma vez, fechou os olhos durante alguns segundos. Quando tornou a abrir, um sorriso triunfante se formou em seu rosto e sacando o livro de dentro da bolsa, disse com alegria:
- Vou conseguir ler pelo menos uns dois capítulos!
Sentindo que todos a olhavam com espanto e estranheza, ela declarou:
- Sou louca. Não se importem comigo.
E então retomou a leitura exatamente de onde havia parado no sofá na noite anterior. Em poucos segundos já nem se lembrava mais dos compromissos, das filas, senhas ou mesmo das pessoas que ainda a olhavam de rabo de olho. Ela estava em outro mundo.
[CONTINUA]