04 março 2011

[lembranças]

Larguei a mochila no chão do banheiro. Nesse horário o instituto está vazio. Apoio as duas mãos sobre a bancada e passo alguns minutos observando a minha aparência no espelho manchado.
Minha cabeça lateja um pouco, e fixo meu olhar numa fórmula de Cálculo Numérico rabiscada no azulejo da parede com um pincel atômico.
Duas das lâmpadas do banheiro estão queimadas, restando apenas a iluminação no fundo e as luzes do corredor que entram pela porta encostada.
Já passa das 22 horas, e a maioria dos alunos já foram embora.
O ambiente está frio, sensação que é intensificada pelas minhas roupas molhadas. Posso ouvir a chuva caindo forte lá fora.
Dou um suspiro alto, e deixo minha respiração pesada embaçar o espelho à minha frente.
Com o dedo eu rabisco figuras desconexas sobre a área embaçada e observo gradativamente o desenho desaparecer.
Aguardo mais alguns minutos e percebo que a chuva parece não querer dar trégua.
Junto a mochila, e carregando-a pelas alças encharcadas, saio para o corredor completamente vazio e silencioso, a não ser pelo barulho constante de um aparelho de ar condicionado ainda ligado algumas salas adiante.
Aproximando-me da escada, sento-me no terceiro degrau e fico olhando, pela janela no alto da escada, a chuva que continua forte lá fora.
Encostando meu corpo na parede, fecho meus olhos e deixo o barulho ao meu redor embalar meus pensamentos, que pouco à pouco viajam para outro lugar...

Eu calço o tênis apressadamente, e vestindo um casado de capuz, fecho o zíper até a metade e saio, apanhando as chaves sobre o balcão da cozinha. Já são mais de 3 horas, e já devo ter perdido meu ônibus. Tranco o portão e vou caminhando para a parada de ônibus enquanto coloco os fones de ouvido e ligo o celular no reprodutor de músicas.

"I'm so happy/Cause today I've found my friends/They're in my head/I'm so ugly but that's okay..."

Enquanto caminho, observo as pessoas passarem apressadas por mim, enquanto eu mesmo quase corro para chegar ao meu destino.
Ao ver a parada vazia, percebo que meu temor se concretizou. Vejo o ônibus se afastar ao longe. Sento-me desanimadamente no banco de concreto próximo do senhor idoso que vende doces e balinhas num tabuleiro de madeira e deixo meu olhar solto, sem destino certo, percorrer o horizonte.
Nesse momento percebo alguém se aproximar e tocar meu ombro:
- Você pode me informar as horas?

Levo um susto tão grande que quase chego a gritar. O segurança dá um sorriso debochado e retomando a postura séria, informa que vai fechar o prédio e precisa que eu saia. Levanto-me rapidamente, e meio zonzo, com a visão escurecida, me apoio na parede para não cair, até recuperar totalmente o equilíbrio.
O homem me acompanha até a saída e fecha a porta após minha saída. Olho no relógio do celular e descubro que são 23h15. Dormi quase uma hora sentado naquela escada. A chuva continua firme e forte, e a cobertura da marquise na entrada do prédio não me cobre completamente, e em poucos segundos já estou encharcado de novo. Sem coragem, encosto na pilastra e tento da melhor forma possível me proteger do vento frio.
Enquanto espero a chuva estiar, penso no sonho/lembrança que tive na escada. Diferente do dia de ontem, do qual mal lembro da existência, lembro daquele dia como se fosse a cena de uma filme que acabei de assistir. Ela era linda, e mal pude conter meu sorriso ao vê-la ali.
Já faz mais de um ano, mas lembro-me daquela tarde com todos os detalhes. Tudo que eu tinha planejado para aquele dia deu errado, mas penso o que teria acontecido se eu não tivesse perdido aquele ônibus.

Quando a chuva diminui até a intensidade de uma leve garoa, eu começo a caminhar para casa, com a mochila no ombro direito e a cabeça baixa.
Então minhas lágrimas começam a correr, disfarçadas pela luz falha dos postes. Percebo que minhas lembranças misturaram-se com a minha fértil imaginação e desejos.
E enquanto caminho, relembro o momento exato em que eu cheguei àquela parada de ônibus ainda em tempo de apanhar a condução... E como, pela janela eu pude ver aquela bela moça chegando, olhando-me nos olhos, aproximando-se do vendedor de doces para se informar das horas.

Um comentário:

C´cero Augusto disse...

Sem palavras, ou melhor as melhores para dizer o quanto vc consegue capturar e expressar depois..