Tudo ocorrera tão depressa. O ritmo alucinante de cada investida com a faca contra o peito dela lhe exigira uma força que ele não tinha. Ela gritara e se contorcera antes de finalmente cair pesadamente no chão. Seus olhos ainda se cruzaram, até que os dela finalmente se apagaram à medida em que a poça de sangue ao seu redor ia aumentando gradativamente. Ele pode sentir o líquido viscoso e quente tocar-lhe os dedos dos pés, fazendo o despertar de seu transe.
Afastando-se sem tirar os olhos do corpo, viu suas pegadas em vermelho marcando seu percurso. Aos poucos, era como se o mundo voltasse à vida, e os sons que pareciam ter se extinguido durante o 'incidente' eram mais uma vez perceptíveis.
A chuva castigava do lado de fora da casa. Ele se dirigiu para a porta da frente que estava escancarada. Saiu para a varanda e descendo as escadas foi andando pelo quintal até a rua, deixando a chuva escorrer pelo seu corpo.
- Lavando a minha alma - ele balbuciou entre dentes.
Largou a faca junto ao portão da casa e caminhando pela calçada, foi em direção ao parque...
...
A chuva açoita a cidade que se esconde de baixo de guarda-chuvas e capas coloridas. A força do vento impede que haja muito movimento.
Enquanto todos procuram um lugar para se abrigar, ele anda sem pressa ou cobertura, com as roupas encharcadas grudadas no corpo. Tem o rosto impassível, e ao se dirigir ao beco, nem é notado pelos outros passantes. Carrega um embrulho sobre a camiseta de algodão branca. Parece um emaranhado de jornais velhos que cobrem toscamente um objeto pequeno e comprido.
Ao chegar ao final do beco, num dos cantos, encontra um amontoado de sacos pretos de lixo cheios até a boca. Olha ao seu redor, certifica-se de estar sozinho e só então, com cuidado, retira o embrulho de baixo da camiseta e o coloca entre os sacos empilhados.
Quando volta para a rua, enverga nos lábios um sorriso satisfeito. Uma sensação de paz o invade e levantando o rosto para o céu, deixa a água escorrer como se lavasse não apenas o seu corpo, mas também a sua alma...
Enquanto caminha, sua mente projeta apenas uma palavra: Perdão! E com esse sentimento ele se dirige de volta ao parque.
- Eles devem estar me esperando.
...
EM BREVE...
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